Crise dos 30: a puberdade da alma

Me peguei cantando a segunda música mais triste do Linkin Park sem nenhum motivo, quando passaram por mim pensamentos de conta bancária e “será que vai fazer sol amanhã pra lavar a roupa de cama?”

Pronto. Eu havia chegado e não tinha volta, amigos. Não sei se foi minha ansiedade exacerbada em viver tudo de uma vez, mas, com míseros 27 anos, já me sinto no auge dos 68, prontíssima pra curtir o sonho da aposentadoria numa cadeira de balanço com vista pra minha futura padaria favorita (que ainda não conheço mas aprenderei a amar assim como todas as outras).

imagens ilustrativas: onde você se vê aos 68

É uma fase sensacional pra partilhar experiências, conversei com diversos amigos e a maioria passou por coisas parecidas na mesma idade, parece que você se torna mais confiante e menos confuso pra ser você mesmo ou sei lá, ás vezes tenho até a sensação absurda de que só me entregaram meus olhos agora, o que vivia antes era realidade um pouquinho mais longe.

Foi importante também me conectar com gostos e situações do passado, ouvir umas músicas ridículas que rolava uma saudade oculta, nessas horas precisei me libertar de qualquer resquício de padrão pré-existente, deixei mesmo o coração falar e veio de tudo: dança do bumbum, Meu Primeiro Amor *dublado, TV Pirata, banheira do Gugu.

Não sei até que ponto ser da geração de transição tecnológica do eixo classe média escolinha particular simplesmente não fudeu meu cérebro pra toda a eternidade, a gente foi muito instigado pra seguir o esquema dos nossos pais, que em geral casaram cedo e batalharam pra caralho. Por outro lado, tivemos acesso pleno a todo tipo de informação, fomos bombardeados de estímulos contrários, aprendemos também que o legal é seguir independente pensando fora da caixinha dos modelos tradicionais. Pra mim, essa montanha russa de valores atrelada a rapidez instantânea das comunicações é o que torna tão difícil se relacionar hoje em dia.

Recentemente descobri que não consigo existir no aplicativo de paquera TINDER. Estava lá falhando em conseguir interagir de forma apropriada com outro ser vivo, no processo de responder uma conversa, quando penso em dizer: TE MANDO!

Não sei a relação de vocês com a função autocorrect do celular, mas sem querer o teclado corrigiu minha resposta para: TE AMO!………………….. mais sem querer ainda me confundi nos processos e apertei ENVIAR, dando ainda alguns segundos de delay para que eu olhasse a resposta incorreta nos olhos, ao mesmo tempo que me ajoelhei em câmera lenta e gritei NOOOOOO.
Esse erro inteiro durou 2 anos na minha cabeça, olhei aquele te amo com ponto de exclamação (!) pra um completo estranho e minhas axilas começaram a vazar constrangimento. 
Senti tudo ao mesmo tempo. e nada. e tudo. e aaaaaaaaaaaaaaaaaa

Apaguei a conta do tinder. FODACE. pufft! Na hora pareceu o único jeito correto de fazer o universo rodar de novo. 
-Desculpa migo, tô em crise dos 30. 
-MAS VOCÊ NEM TEM 30 CALMA CARA. 
-ok. ufa.

Nem sei como saí da vida loka pra vida adulta, atualmente tem poucas coisas que aprecio mais do que acordar cedinho, meditar, ir na feira, cozinhar gostoso pra quem amo, valorizo muito mais essa experiência do que ficar numa balada cara ouvindo música chata, mas essa sou eu de 2016, reconheço que talvez mude de novo, veremos (credo, espero que não).

Apesar das lamentações e ao contrário do que muita gente pensa ficar velho pode ser bem divertido, libertador, produtivo, interessante e autoconsciente. Sei que tô bem longe de ser idosa, mas espero aproveitar todas as minhas crises e padarias favoritas até lá.

Lulu Santos: um sorriso que vale a pena cultivar
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