Outro dia, li um texto de uma conhecida, que é escritora, em que ela dizia que não escrevia há seis meses. O que começou com relato acabou virando uma questão: há quanto tempo eu não escrevo?

Sempre escrevi. Na época do diário, o meu não ficava sem o cadeado. Nele só faltavam folhas em branco. Ou melhor, na verdade, folhas verdes. Sim, suas folhas eram coloridas. Quando máquina de escrever virou moda, todo dia eu inventava uma desculpa diferente pra calçar o tênis jeans e ir para o escritório do meu pai. Ficava horas na sala da secretária, girando na cadeira e prendendo os dedinhos naquela máquina dura. Heloísa ficava louca comigo e todos aqueles papéis. Na escola, eu não perdia uma competição de “quem copia mais rápido”.

Meus textos me trouxeram alívio, dor, uma confusão ou outra, e muito conforto. Por isso, eu escrevia. Caí naquela história de “trabalhe com o que você ame”. Quando vi, tinha virado redatora publicitária.

Eu escrevo pelo menos 70 textos por dia, 350 textos por semana, quase 1.500 textos por mês. Pelo menos. Isso deixando campanhas, ações, promoções, estudos e outras cositas más fora da conta, esquecendo até os e-mails. Escrevo sobre casamentos, festas, moda, tendências, viagens, gastronomia e decoração. De hotel fazenda à pousada em Búzios, aprendi a escrever até sobre produtos odontológicos. Mas não lembro qual foi a última vez que procurei o papel para falar de mim. Fiquei sem palavras para falar comigo.

Tive que aprender a falar de outras formas. Hoje, procuro a tinta, o carimbo, os scketbooks da vida. Por coincidência (ou necessidade), tirei um projeto da gaveta de poucas palavras. Talvez esse seja o momento perfeito para a Lo Cartonê... E se o meu silêncio render alguns traços, mesmo que tortinhos, vai ficar tudo bem.

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