E se você tivesse que mudar para um lugar menor?

Lembro como se fosse hoje o desespero de uma amiga quando soube que teria que se mudar para um apartamento com bem menos espaço do que a casa em que a família morava, em um bairro nobre de Natal. Os tempos eram outros. O pai perdera um bom emprego, a mãe não ganhava muito, e ela e a irmã ainda estudavam e nunca precisaram trabalhar para ajudar com as contas. Estávamos no segundo grau quando soube da notícia. “Vou precisar trabalhar”, ela me disse, em um tom de revolta e, ao mesmo tempo, de tristeza. Não só por conta do estilo de vida que perdera e de toda a mudança que ainda estava por vir, mas por não saber o que fazer com a quantidade de coisas que tinha. Precisavam se adaptar, ela e os seus objetos, a um lugar menor.

Sabendo do meu jeito para organização e de uma capacidade, que ela não entendia muito bem como era possível, de conseguir manter tudo arrumado no meu quarto, fui quase intimada a dar um jeito nas coisas dela antes da mudança. Dar um jeito. Lembro que brinquei com ela e disse que não tinha varinha de condão, e que tínhamos que dar esse tal jeito juntas. Ela me olhou com cara de espanto e disse que não sabia por onde começar. Eu disse que a organização começava por ela e com ela. Eu tinha 17 anos na época.

Começamos a organização poucas semanas depois. Combinamos que iríamos colocar tudo no chão do quarto para ela conseguir enxergar tudo o que tinha. Só um parênteses antes de continuar. Essa minha amiga comprava uma roupa para cada festa que íamos e muitas delas ainda estavam com etiqueta. Recordo-me que quando ela ia guardar uma nova aquisição no guarda-roupa, de vez em quando encontrava uma roupa que nunca havia usado. E, ao experimentar novamente, não entendia como tinha gostado daquela peça na loja. Às vezes eu ficava com ela, às vezes ela doava. E a vida continuava.

Voltemos aos objetos pelo chão. Era tanta coisa, que quase não dava para andar. E olha que o quarto era grande. Dividimos a organização por tipo: roupas, sapatos, material escolar, maquiagem, coisas para cabelo, papéis diversos, livros, toalhas e roupas de cama, e tudo o mais o que você possa imaginar que tivesse no quarto de uma adolescente. Ao dizer isso, não estou querendo dizer que eu não tinha coisas de adolescente. Claro que sim, eu era uma!

Também nunca fui fã de ambientes minimalistas, todos brancos, com quase nada dentro. Gosto de cor, de memórias, de decoração com itens que tenham a ver com quem eu sou. Mas entendia a importância de não acumular coisas que não usava, seja por não mais me servirem, por estarem quebrados ou rasgados, e por não terem mais a ver comigo. Sempre doei ou joguei fora sem muita culpa. Porém, entendo perfeitamente que nem todas as pessoas são assim e nem têm que ser, porque todos somos diferentes. Eu estava ali para ajudar da melhor forma possível, respeitando o estilo da minha amiga, suas dores, e dificuldades em desapegar.

Não foi fácil. Tinham roupas que não serviam mais pra ela, mas que “poderiam servir um dia”, ela me dizia. De cinco anos atrás. Sandálias já desgastadas, algumas até rasgadas, porém guardavam memórias da avó, da irmã, de uma festa importante que ela tinha ido. Material de pintura de quando ela era mais nova e frequentava as aulas, porque “queria ser artista”. Agora, estudava para ser advogada. Os tempos mudaram, os objetivos também, e o que não tem mais uso para ela, poderia servir para outro alguém. Com muito jeito, conversa, lágrimas e risadas, consegui convencê-la a deixar alguns objetos irem para o lixo, para o conserto, ou para outra pessoa. E, assim, conseguimos adaptar o que sobrou ao novo espaço.

O mais importante desse relato é dizer que para tudo se tem um jeito, menos pra morte, como dizia a minha avó. Com conversa, entendendo o momento da outra pessoa, sabendo qual seria o melhor jeito para explicar que tudo aquilo que ela tinha, inclusive o estilo de vida passado, não condizia mais com o presente. Essa é a organização dela, da qual eu me referi no início. É pela pessoa que a organização começa, pelas mudanças que ela enfrenta ou deseja enfrentar, para que os objetos sirvam a esse novo “eu” e não o contrário. Que possamos usar as nossas coisas de uma forma mais consciente, com atenção, escolhendo, sim, comprar o que gostamos e precisamos, mas sempre percebendo se aquilo cabe a nós ter, se tem a ver conosco, e se cabe no espaço que temos. Dessa forma, conseguimos mudar com mais liberdade e paz dentro de nós, não importa o tamanho da casa que teremos disponível.