Falta de produtividade social na ‘quitanda’ e as lembranças do machismo nas feiras livres: Uma azeda salada de fruta.


Um gritava pro outro olhar a “moça bonita” e o outro respondia, “moça bonita, não paga, mas também não leva”. As mulheres tratadas como alguma coisa no meio do caminho entre o legume e o dinheiro na mão do feirante.

Os desdobramentos do caso da ‘quitanda’, lugar com mesas e onde a cevada é muito consumida, fez emergir minhas memórias sobre as feiras livres.

Lembro de reclamar sobre o comportamento daqueles homens. Minha mãe, num gesto carinhoso e para me despreocupar, falou que aquilo era só brincadeira.

“Vem cá morena, olha a banana” e um olhar como se eu mesma fosse uma fruta. Baixei a cabeça e acelerei o passo. Eu sentia medo.

Entendo profundamente minha mãe, assim como muitas mães e mulheres que tentam deixar o mundo mais bonito e calar, ao menos um pouco, a humilhação.

Não adianta, a humilhação surge, exatamente, na pressão para que as mulheres sejam desacreditadas e assim, acreditem na normalidade, nos clássicos, nos jargões, nas brincadeiras…

O menosprezo e a desvalorização estão no cerne da humilhação como característica da estrutura social, como estratégia da manutenção do poder.

A humilhação é a destruição da subjetividade, também pela desmontagem dos processos de “intersubjetividade” enquanto laço que uniria pessoas na forma da produtividade social do diálogo e de outras ações entre elas.

E é exatamente essa falta de produtividade social por parte da ‘quitanda’ que me chamou tanto a atenção.

Quanto desse medo que senti, milhares de mulheres não sentem? Quanto dessas humilhações nos fazem baixar a cabeça e seguir apressadas, pelas ruas, pela vida e diminuem nossas possibilidades de viver plenamente? Quanto deixamos de ser quem realmente somos?

Simplificar em certo ou errado, verdadeiro ou falso é muito pouco perto da complexidade da vida.

Não existindo espaço de reflexão, desaparece a chance da ética e, consequentemente, da política. Política de fazer algo, como empresa, que dignificasse quem reclama e todas as mulheres, por consequência. O que seria ótimo para sociedade e para os negócios.

Me assusta como os donos da quitanda lidam com a questão e os comentários que seguem como procissão em cada tentativa de desqualificar a autora do manifesto. Me remetem ao medo que sentia nas feiras livres e de como o machismo é tão arraigado que faz o óbvio se tornar obscuro, discutível, negociável. Se torna um jogo, com briga de torcida.

Eita, lógica maligna de querer desacreditar, ao invés de aproveitar-se das manifestações para construção de algo bom. Se bem, não poderia esperar outra coisa, o manifesto já indicava o comportamento subsequente.

A mais honesta das pessoas talvez não consiga perceber como se torna dia após dia vítima de pensamentos prontos e como os reproduz, muitas vezes de maneira prepotente, como se tivesse uma resposta verdadeira sempre à mão ou que é na busca pela “verdade” e não no entender da experiência que as demandas podem encontrar resoluções.

Estamos mais ligeiros e a tentativa de resolver a situação na autoridade do verdadeiro ou falso, causou ainda mais desagrado.

Todos os esforços são para alienar o ponto de vista do outro. Chovem dizeres autoritários, fruto de uma sociedade que desconhece a capacidade de ver o “outro”. De estar aberto, genuinamente, e atender o clamor de pessoas, sobretudo mulheres, que estão fartas de se sentirem humilhadas em grandes ou pequenas doses.

Basta de comodismo do pensamento. O mundo não está chato e as pessoas não estão cheias de mimimi.

Como uma voz que costura e dignifica as diversas vozes sociais e políticas, o feminismo surge como o grande eco que modifica as formas de ser e de dever ser dos comportamentos humanos em sociedade, refutando falsas posturas morais, assumidas como universais quando apenas manifestam o latente desejo de permanência viril no poder.

Uma mulher se contrapõe à experiência, não se posiciona como humilhada, não se deixa levar. Esse manifesto se tornou simbólico, não é producente vê-lo de forma objetiva.

Sobre a feira, faz tempo que passo por ela toda semana, aquela nhécati ainda existe, mas melhorou bastante, não ando mais de cabeça baixa, muito menos apressada. Acho que a lei que regulamenta o barulho em feiras livres colaborou para que ocorram menos agressões.

Não tenho mais tanto medo, sei que posso acreditar no que sinto e que não esterei sozinha.

Na feira que frequento, não tenho nenhum manifesto a fazer sobre o comportamento dos feirantes, espero que se tiver, eles não façam como o dono da quitanda e não tentem resolver a pecha na força, que vão sair perdendo.

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