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Às vezes o fim chega numa tarde de domingo. Assim mesmo, sem alarde, aviso prévio, sem bater na porta. E vem entrando sem pedir licença, rearranjando os móveis como quer. Pode ser que venha durante o almoço ou no jantar, no quarto ou sala de estar. Independente da ocasião, tem gente que não o percebe.

Às vezes o fim chega por meio de uma fala. Nessas horas, fica fácil compreendê-lo, já que suas razões são proferidas para quem quiser ouvir. …


São sete anos sem ele — e sete anos tentando reencontrá-lo nos detalhes por aí.

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Às vezes, acontece quando eu menos espero: numa foto antiga que encontro no fundo do baú, no rosto do meu irmão, cada vez mais parecido com ele, na seção de Economia da publicação popular na banca de jornal. Na semana passada, foi mais ou menos assim, com mamãe me mostrando um registro encontrado em meio às bagunças da mudança de casa. Na imagem, meu pai sem blusa, eu em seu colo, as flores rosas dando à imagem a delicadeza que só algo como a paternidade deveria ter.

Em outras vezes (muitas delas, aliás), é olhando para dentro que encontro novamente a figura do meu pai. Dele, vejo que herdei não só o nome e os problemas de vista, mas uma série de comportamentos e reflexões peculiares sobre o mundo. No furor das brigas por política, por exemplo, noto que falamos igual, defendemos o mesmo lado, nos agarramos a essa ânsia da justiça para todos. E quando sofro, o faço de forma parecida à que recordo de si: sangrando em silêncio, escondo as cicatrizes, que é pra ninguém enxergar. Vai ver é por isso que minha analista diz que, em se tratando das nossas narrativas, ainda sou impreciso no que ele foi e o que tenho sido até aqui.


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De todos os momentos que passamos juntos, esse é o que eu menos me orgulho.

Enquanto faço alguns rabiscos no guardanapo da mesa dos convidados, consigo ouvir o tilintar das taças marcando o começo da minha fala, o embalo forçado dos votos de casamento que você tanto me pediu para fazer. Já peço desculpas, desde então, por te desapontar. Sei que sua visão de mim sempre foi a de alguém que sabe como manejar as palavras, ajustando-as aqui e ali para expressar o que anda sentido. Infelizmente, dessa vez vai ser difícil — e dilacerante, já que você adora quando uso termos desse tipo — compartilhar com as centenas de pessoas à minha frente o que meus olhos gritam em silêncio. E quando eu me levantar, digo, quando chegar a hora de finalmente fazer os votos da sua união, isso é tudo o que eu te recomendo: não volte sua atenção para minha face. …

About

Helvio Caldeira

Jornalista, pseudo-escritor, coautor do livro Lar (Editora Multifoco, 2014). Nas horas vagas, discuto literatura, gênero e Taylor Swift.

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