Entre o Paraíso e o Arco-Íris

Vivendo nas fronteiras da religião e a homossexualidade

[Foto Helvio Caldeira]

“Eu nunca terei a liberdade de ser quem eu sou”. Estas são as palavras de J.V., um jovem de somente 18 anos, mas com a forte convicção de que nunca poderá contar para a família sobre sua real identidade. J. é apenas um entre os milhares de gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros que, devido a suas religiões, se sentem pressionados a esconderem quem são. As dificuldades e desafios de ser gay e exercer sua fé se tornam ainda piores graças a família, parte da Igreja Pentecostal Deus é Amor. “Minha família possui uma igreja. Meu avô era pastor, assim como meus tios são. Eu praticamente cresci nesse meio”, relata, ao destacar o preconceito sofrido dentro de casa. “O discurso de ódio já está enraizado no meu cotidiano. Minha mãe, por exemplo, não pode ouvir falar no tema que surta”.

A descoberta de sua sexualidade foi fortemente influenciada pelo protestantismo. Achar errado e se reprimir eram práticas constantes na vida do jovem, que evitou ao máximo se ver como um menino gay, como conta. “Sempre que tinha certos desejos, eu os afastava de forma sutil, quase inconsciente. Nunca foi um assunto que eu gostei de pensar sobre. Era um verdadeiro bloqueio”.

Viver nas fronteiras da homossexualidade e da religião é um dos inúmeros problemas enfrentados por gays hoje. Exercer sua crença em um meio heteronormativo pode parecer impossível, já que as igrejas ainda não estão dispostas a dialogar com os homossexuais. O embate, dessa forma, torna-se realidade comum no Brasil. De um lado, pastores exaltados nas mídias criticam a controversa “ditadura gay”, enquanto, de outro, militantes LGBT apontam dedos e culpam o cristianismo pela responsabilidade principal por sua marginalização.

R., de 22 anos, é lésbica e parte do louvor de sua igreja [Foto: Helvio Caldeira]

A maior dificuldade, para R., de 22 anos, é não poder exercer suas funções dentro da igreja caso conte da sua sexualidade. Lésbica não assumida e líder de louvor da Igreja Batista, a moça explica que os conflitos internos têm a tornado distante da instituição religiosa. “Eu sou vista como referência devido aos cargos que exerço na igreja e me esconder deles me faz sentir hipócrita. Caso eu contasse, não poderia mais tocar, muito menos ser líder do grupo de jovens, trabalho este que larguei justamente pela pressão em ser uma boa referência para os outros”. R. diz ainda que a relação da família com sua suposta homossexualidade é das piores. “Em uma fase da minha adolescência, ocorreram boatos sobre isso e foi muito complicado. Era o assunto do momento e as brigas com minha mãe eram constantes, o que torna tudo mais difícil. Esse conjunto de fatores me faz perder o amor em tudo o que eu faço dentro da igreja, mas eu pretendo recuperá-lo”, conclui, esperançosa.

A saída do armário para quem nasce no meio evangélico é, sem dúvidas, pior, nas palavras de T, de 18 anos. Natural de Taubaté, São Paulo, o jovem, que se mudou recentemente para o solo mineiro, relata um pouco da sua experiência como gay assumido e membro da Igreja Batista da Lagoinha. “Nasci na igreja evangélica e a frequento desde que me conheço por gente. As pessoas com as quais eu tenho contato ali dentro me viram crescer, então lidar com a questão da homossexualidade é tenso. A aceitação do corpo religioso quando os irmãos em questão te pegaram no colo é mais difícil do que já chegar a uma instituição assumido”.

Dos entrevistados, T. pareceu ser o mais confortável para compartilhar seu processo de descoberta e experiências com outros homens. O estudante de Engenharia Civil conta que demorou um longo tempo para se autoaceitar. “Eu consigo dividir esse processo em quatro etapas: Quando adolescente, eu não sabia bem o que sentia, mesmo olhando mais para os meninos que para as meninas. Lá para o quarto, quinto ano do fundamental, eu comecei a perceber de fato o que estava acontecendo, mas procurava não pensar muito sobre. Só comecei a aceitar o que eu sentia lá pelo oitavo. Quando chegava um aluno novo e bonito, eu tentava conversar mais com ele, me sentar perto… Eu sabia que era diferente. É difícil viver entre o não saber e o saber o que se sente. A pior parte é a vontade constante de negar nosso eu por conta da religião”.

T. demorou anos para entender a própria sexualidade [Foto: Helvio Caldeira]

Tudo pareceu piorar quando, no final do segundo ano do Ensino Médio, o garoto resolveu externar seus desejos para a mãe. “Sempre senti medo e vergonha. Quando disse para minha mãe, ela se virou para mim e disse que era uma fase, que iria orar e que, assim, tudo voltaria ao normal. Desde então, não nos falamos muito e ela finge que não me vê dentro de casa”, enfatiza. “Não tenho dúvidas de que o cristianismo prolongou meu processo de aceitação. Precisei me distanciar da minha religião por um tempo até descobrir quem eu realmente era”.

Contra a corrente

Há quem afirme que a aceitação de fiéis LGBT é menos árdua no meio católico, mas C.B., de 19 anos, deixa claro o contrário. A moça, que faz parte do grupo musical de sua igreja e é lésbica assumida, revela que, ao saberem da sua orientação, alguns padres se dirigiram a ela como se tivesse cometido um crime grave. “Eu me sentia como se fosse tão ruim quanto essas pessoas. Na época, ninguém procurou me ouvir e entender, apenas me condenou. Me colocaram como culpada por uma situação da qual eu não tinha culpa”.

Hoje, já assumida dentro no corpo religioso, C. conta com o apoio de vários fiéis que a defendem das críticas. Contudo, diante de tantos problemas com a igreja, parece óbvio indagar sobre o porquê de a moça continuar no lugar que a oprimiu por anos. “Como herança familiar, a igreja é um lugar em que eu quero estar, porque me faz bem. Mesmo que alguns padres tentem me expulsar ou boicotar o coral no qual eu toco, eu sinto que, aos poucos, essa relação de luta vai ficando mais fraca e se torna amistosa. Sinto que minha luta como LGBT ali dentro faz sentido de alguma forma”.

Da mesma forma, a jovem L.G. diz não ter problemas em expressar sua fé como uma mulher lésbica. “A religião me oprimia no início, pois eu me julgava com base nas coisas que os padres diziam. Como sempre confessei, resolvi perguntar a um padre se estava fazendo algo errado, pois me sentia muito mal. Me surpreendi quando ele explicou que todos éramos iguais perante a Deus e que eu não precisava me preocupar com o que as pessoas achariam de mim. O único que poderia e deveria me julgar era o Senhor”, relembra.

O fenômeno que aproxima os homossexuais das igrejas é tão complexo como polêmico. Em tópico recente do grupo de Facebook LDRV, constituído majoritariamente por LGBTS, muitos gays deixam claro que frequentar instituições religiosas é se humilhar por uma ideologia que vai contra suas existências. “Ser gay e seguir a Bíblia é tipo um judeu apoiar Hitler”, afirma um internauta. Em Vivendo no front: Discursos acionados por sujeitos na fronteira entre perspectivas LGBTs e evangélicas (2015), VIEIRA tenta explicar essa relação atrelando-a a conceitos de Mead, pai do Interacionismo Simbólico — abordagem que estuda a relação entre as interações sociais e a construção da identidade pessoal. “O indivíduo reproduz, em sua mente, os processos de comunicação que ele estabelece com os demais, dando origem a um diálogo entre o eu e o mim. Enquanto o eu é a forma como o indivíduo expressa para si seus desejos pessoais, o mim é a internalização do outro. Essa tensão faz com que o indivíduo não possua uma identidade solipsista, mas sim composta a partir da própria dinâmica do social”. De forma resumida, o trecho evidencia a construção da religiosidade de LGBTs como fruto do seu convívio social e seu confronto constante com os desejos íntimos do indivíduo.

Por uma igreja mais colorida

Pr. Marcos Gladstone promove teologia inclusiva. [Foto: Divulgação]

Em meio a um cenário complexo, um das formas mais comuns de os LGBTs conseguirem ocupar oficialmente o meio cristão tem sido por meio das chamadas igrejas contemporâneas ou inclusivas. Estima-se que, atualmente, mais de dez instituições brasileiras recebem gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros para uma teologia mais queer. A inspiração vem de muito tempo, quando, em 1968, o reverendo Troy Perry resolveu fundar uma comunidade cristã mais aberta às diferenças nos EUA.

Pastor fundador da Igreja Contemporânea, uma das maiores do país, o carioca Marcos Gladstone e seu marido Fábio Inácio foram os primeiros a registrar uma união estável em cartório depois da decisão do Supremo Tribunal Federal (STF). A decisão de abrir uma instituição contemporânea se deu por vários fatores, entre eles o próprio histórico de violências simbólicas sofridas dentro da igreja tradicional. Em entrevista, o pastor, que encontrou resistência dos evangélicos quando decidiu abrir sua igreja, conta que é possível conciliar a doutrina cristã e a homossexualidade, já que a palavra de Deus afirma que contra o amor não há leis. O trecho citado em específico se trata de do livro de Gálatas, que afirma que, como fruto do Espírito, “amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança. Contra estas coisas não há lei”.

As opiniões são fortes e as interpretações discutíveis, mas o sucesso de sua igreja só revela a demanda de LGBTs por acolhimento religioso em meio ao cenário excludente. Ao todo, são mais de três mil fiéis distribuídos em vários estados. Nos próximos meses, mais uma filial será aberta, desta vez na Bahia. A presença constante nas redes sociais e o engajamento do público também é um indicador da aproximação entre os pastores e suas ovelhas.“Meu coração se enche de alegria em saber que somos amados por Deus”. O comentário de um seguidor na página virtual da instituição comprova que a missão de Gladstone em pregar boas novas e restaurar corações feridos parece estar sendo alcançada.