Memória

Segunda
É hora do almoço. No meu prato tem uma salada de repolho e algumas batatas cozidas, mas estes não são o motivo de eu estar aqui. É o porco. O mamífero bunodonte. Da ordem dos artiodátilos. Esse gentil animal e seus molares com cúspides arredondadas, odiado por alguns, considerado imundo por outros. É por ele que eu estou aqui. Por causa dele que passei a mudar meu local de almoço. Letícia, minha vizinha de cubículo do trabalho, me falou das costelas que servem aqui. “Divinas”, ela disse, mas não me convenceu muito. “Deliciosas”, ela falou, o que fez minha boca salivar, mas ainda não me fisgou. “Sério, é do caralho!”, ela pegou meu pulso com força e me olhou nos olhos. E aqui estou eu.
São costelinhas de porco assadas. Temperadas com ingredientes que, por mais que eu insistisse, não me disseram quais são. Mas Letícia estava certa. Aquela carne macia e suculenta proveniente da carcaça de um animal morto estava foda. Nunca havia comido nada igual. E algo na minha cabeça me dizia que eu nunca mais comeria também.
Terça
Estou aqui mais uma vez. Pedi uma cerveja de trigo. Daqui a pouco a minha porção de salada e batatas vem se curvando ante a majestade das costelinhas suínas. Ok, eu posso estar exagerando com a descrição, mas sério, vocês deveriam comer. Como diriam meus pais, é de lamber os beiços. Nesse momento eu até esqueço do inferno que é meu trabalho. Do diabo que é meu encarregado e suas gravatas coloridas acima de sua enorme barriga de cerveja barata.
Lá vem elas. Não há nada melhor que comer com as mãos, sem auxílio de talheres. A primeira dentada é o que dá inicio à sinfonia de sabores que inundam a boca…
Mas algo está errado.
Certo, está uma delícia. Mas falta algo. Está delicioso, mas não está do caralho. O que terá acontecido? Eu tento agora lembrar do gosto que ficou marcado na minha boca ontem e tento compará-lo ao de hoje. Sim, tem algo errado. Tem algo diferente, mas ainda está bom, então deixo para lá e termino, meio satisfeito.
Quarta
A salada. Eu não lembro do gosto do primeiro dia que experimentei. Nem as batatas. Eu forço um pouco a memória, mas nada. Provavelmente seus sabores foram postergados por causa do porco. Devo estar com alguma neurose, só pode. Agora eu fico me preocupando com detalhes inúteis em vez de apreciar a comida. E lá vem ela.
O cheiro das costelas precede a chegada do prato. A gordura está lá. Do jeito que eu gosto. Gordura de outras carnes me deixa enjoado, mas a de porco não. Uma garfada na salada. Uma garfada na batata. Pego um osso preenchido com carne e gordura e o coloco entre os dentes para cortar e triturar. O sumo suíno escorre pelas reentrâncias de meus dentes e atinge a língua.
Não, não. Não é a mesma coisa. Puta que pariu. Chamo o garçom. Pergunto se o cozinheiro mudou. Se o churrasqueiro mudou. Se eles estão tentando um tempero novo e ele nega minhas três perguntas. Pergunta se tem algo errado. Eu nego. Ele se retira e eu volto a estraçalhar a carne na boca, intrigado.
Quinta
Chega, preciso falar. Isso aqui não está dando mais certo. Beleza, a costelinha continua saborosa, continua deliciosa, mas não está mais do caralho como da primeira vez. O que eu faço é buscar na mente, na lembrança da primeira vez que a comi e comparar com as outras vezes o que há de diferente. O que mudou.
Espere.
O garçom disse que não mudaram nada.
O que eu senti da primeira vez que comi essas costelas eu quero sentir nos dias seguintes, mas isso que é errado. Procurar sentir hoje o que eu senti ontem não é sentir, é lembrar. Hoje eu sou outro. A carne não é mais a mesma. E eu fiquei preso no sentimento de um único momento, esperando que ele se repetisse constantemente, mas não pode. Eu estou querendo sentir uma lembrança, e vou me frustrar sempre, pois nem o eu de segunda, nem a carne de segunda, nem o meu estado de espírito de segunda, existem mais.
Sexta
Estou aqui novamente. Não pedirei as costelinhas de porco hoje. Letícia me falou para experimentar o camarão na moranga deles. Camarão. Crustáceo da ordem dos decápodes. Da subordem Pleocyemata. Eu sou louco por camarão, mas nunca fui tão fã de moranga, abóbora, jerimum, seja lá o que for.
“É delicioso”, ela disse, mas não me convenceu. “É de lamber os beiços”, ela falou, mas ainda fiquei com um pé atrás. “É do caralho!”, ela arregalou os olhos quando falou e agora eu estou aqui e já sinto o cheiro do camarão vindo.