Mooca revitalizada sem espaços públicos?
Há alguns anos, um projeto privado denominado Distrito Mooca pretende “inovar” e “revitalizar” áreas particulares degradadas ou esquecidas no bairro da Mooca, em São Paulo. Trazido da gringa por alguns empresários brasileiros, este texto pretende mostrar onde erram ao tentar subverter uma tendência a partir da sua própria reafirmação: o tradicionalismo da Mooca não precisa de reinvenção.
A partir da promoção de uma marca, diversos estabelecimentos comerciais locais buscam na história do bairro uma base para se manterem atados, com um aspecto similar mas pouco efetivo no que se refere a revitalização. Mais recentemente, a organização do movimento utilizou um totem da Prefeitura localizado no final da Rua da Mooca para se promoverem, pintando-no de verde. Em menos de uma semana, sua cor foi apagada pelo cinza de Dória. O motivo, é óbvio: não se pode nem se deve utilizar espaço e equipamento público para promoção privada, mesmo que sua base conceitual seja na fundação do bairro e tudo mais.
Parece-me que a leitura do tecido urbano pelo Distrito Mooca é bastante equivocada: não são equipamentos comerciais que ditarão a “vibe” de um bairro, mas sim como os moradores locais se aproveitarão deles. Na maioria dos casos, os estabelecimentos são parte daquele “Vamos conhecer, mas talvez nunca voltar aqui” e não por que são ruins, mas sim por que são caros e/ou específicos demais. Há grandes parcelas de população local que fica de fora destes estabelecimentos por falta de interesse, simplesmente.
Projetos muito parecidos foram executados nos Estados Unidos, como exemplo Portland e Chicago. Portland teve como bandeira a questão da sustentabilidade para reaver suas ruas e locais públicos, e Chicago utilizou o rio para reestabelecer quase uma dezena de quadras de espaços abertos, públicos, e capazes de gerar circulação de pessoas e promoção de novos empreendimentos. Assim, o projeto mantém-se em pé devido a um processo de renovação automática deste espaço, já que, caso um empreendimento não vingue, outro empresário pode vir e instalar algo novo. No caso do Distrito Mooca, não. Se um empreendimento falhar, há algo a ser feito a não ser fechá-lo? Há de se questionar.
Portanto, fica como questionamento a este projeto: revitalização de espaços para quem? É preciso que espaços públicos e abertos sejam construídos em contrapartida do que os empreendedores se utilizam a partir da história do bairro. Isso é revitalizar uma área, e não apenas abrir novos bares e restaurantes sem qualquer conexão com o resto do tecido urbano. Entretanto, se o objetivo do projeto for apenas a manutenção de uma marca e não na revitalização do bairro, aí sim, está no caminho correto.
