Um revoltoso atira pedras na polícia. Pode até parecer alguma cena dos protestos no brasil, mas o fato ocorreu durante uma manifestação na grécia.

Mas afinal, o que é vandalismo?

Uma compilação sobre as formas de protesto no Brasil e no mundo.


Após uma onda de protestos sem foco e com cenas até constrangedoras, com momentos que lembravam até uma micareta, uma parcela do povo parece ter se retirado das ruas. Enquanto isso uma nova forma de manifestação, mais violenta e “vândala” manteve-se ativa e mais frequente nas ultimas semanas. Com isso a neutralidade característica da despolitização de muitos desfez-se, e se viu nascer uma guerra de opiniões entre os que que são a favor e os que são contra qualquer tipo de depredação ou incitação a violência.

Mas antes de prosseguir com o texto, gostaria de pautuar algumas coisas sobre mim porém, já que se tem levado muitas vezes a credibilidade do autor à duvida de acordo com suas posições políticas. Não sou “petralha”. Não sou “psdebista”. Não sou sindicalista. E também não vou cometer o clichê e erro de dizer que sou “brasileiro”. Sou um cidadão, como você, que também lê e forma opinião. Não sou filiado de nada e nem quero promover nenhuma instituição com o que vou escrever. Mas já ressalvo, que apesar de tentar escrever este texto que vos lê, da forma mais imparcial possível, pretendo em algum ponto deixar minha opinião clara.

Um pouco de história nunca fez mal a ninguém.

O termo vandalismo deriva da tribo dos Vândalos, que durante a época do império romano foi associado não só a este povo mas a todos que invadiam as cidades romanas e denunciava o ato de destruição e depredação de artefatos culturais, pinturas, livros e prédios como símbolo do repúdio destes povos contra a tirania da realeza, o feudalismo e o preconceito religioso durante o ‘Reino do Terror’.

O vandalismo pode então ser visto como mais do que um simples ato de depredação pela destruição. Pode ser visto como um ato simbólico de repúdio extremo à algo que aquele que comete o ato não se identifica. Se é certo ou errado depende de quem avalia por fora, mas o que não se pode negar é que vandalismo não é um simples ato de destruição sem razão, ou pelo menos não foi assim que o termo foi concebido apesar de uma distorção por parte de uma massa/mídia/tempo. Vandalismo é uma forma de protesto e, independentemente de ser politicamente correto ou não, tem como sua característica primária a sua intenção de expressão.

Seguindo essa linha de pensamento então podemos intender que o ato de vandalismo aconteceu em diversos momentos históricos de revoluções e manifestações: A queda da bastilha certamente é a citação mais icônica, decorrida num momento em que a plebe já cansada de ser explorada pela aristocracia francesa, rebelou-se em uma sangrenta revolução e teve como estopim – surpreenda-se – o aumento do preço pão. E se o negrito não foi suficiente, ressalvo aqui a grande semelhança desse estopim com os 20 centavos da tarifa do ônibus.

Ao buscar algo parecido na própria história do Brasil é fácil também se recordar da revolta da vacina, manifestação que levou uma população raivosa às ruas. Ela, porém, foi um levante duplo, dos militares e do povo, que teve como estopim uma lei que tornava obrigatório a vacina criada por Oswaldo Cruz.

A cidade virou um campo de guerra; a população depredou lojas, incendiou bondes, fez barricadas, atacou as forças da polícia com pedras, paus e pedaços de ferro. Foram registrados 30 mortos e 110 feridos. Mas o que levou as pessoas a se irritarem tanto? […]
“Não é difícil entender por que o povo ficou contra a vacina. Pela lei, os agentes de saúde tinham o direito de invadir as casas, levantar os braços ou pernas das pessoas, fosse homem ou mulher, e, com uma espécie de estilete (não era uma seringa como as de hoje), aplicar a substância. Para alguns, isso era uma invasão de privacidade – e, na sociedade de 100 anos atrás, um atentado ao pudor. Os homens não queriam sair de casa para trabalhar, sabendo que suas esposas e filhas seriam visitadas por desconhecidos. E tem mais: pouca gente acreditava que a vacina funcionava. A maioria achava, ao contrário, que ela podia infectar quem a tomasse. O pior é que isso acontecia. A vacina não era tão eficaz como hoje”.¹

O mundo na última década

Um policial está na frente de uma parede de chamas durante um protesto em Atenas. Violentos confrontos eclodiram quando dezenas de milhares de manifestantes marcharam em oposição a uma nova rodada de cortes orçamentários que o governo grego anunciou.

A televisão não quer que você tenha conhecimento sobre isso, pelo menos não de forma crítica e sociologicamente observada. E certamente haverá pessoas que vão acreditar que estou a inventar coisas. Mas o mundo nunca viu tanta manifestação e tanto levante popular – e documentados – quanto nesta última década. Hoje em dia, são poucas as pessoas que realmente tem noção da quantidade de estilhaços que foram espalhados não só pela Europa, mas pelo mundo. Isso pois não é de interesse de uma mídia, monopolizada pelas grandes famílias, que o povo que vive sob seus pés tenha ciência do poder que tem em mãos quando unidos. Farei um brevíssimo resumo então.

Na Alemanha, por exemplo, a vários anos o dia 1 de maio é marcado por confrontos e revoltas populares. Isso é o resultado da mistura de um povo dividido entre neo-nazistas, militares de extrema-direita e uma cultura efervescente antifascista. A anos o dia é marcado por confrontos diretos entre manifestantes e a polícia, deixando muitos feridos e até mortos. Em 2009 o confronto bateu todos os recordes, pondo em rua mais de 7 mil policiais durante mais de 4 dias seguidos de protestos e manifestações.

Em 2011 na Espanha protestos foram organizados através de redes sociais. A grande indignação que levou pessoas as ruas foi um mal conhecido por todos nós: a corrupção. Lá o levante foi feito principalmente por jovens. Uma pesquisa realizada por uma agência especializada teve como conclusão que 89% dos espanhóis acreditavam que ‘os partidos políticos pensavam somente em si mesmos’.

Proibir o direito a se manifestar foi o que teve que fazer o governo da Grécia. Lá as manifestações fazem mais de 70 feridos por vez. Em um episódio em destaque a polícia grega utilizou de gás lacrimogênio e jatos de água para dispersar manifestantes que atiravam bombas incendiárias no parlamento. “Briguem, eles estão bebendo nosso sangue!” era o que manifestantes gritavam do lado de fora enquanto os políticos interrompiam uma sessão dentro do prédio.

No mês passado, nos Estados unidos um menino negro foi morto por um vigia inocentado pelo tribunal em decorrer de “legítima defesa”. Por conta disso o país viveu nos dias seguintes ao fim do julgamento manifestações violentas, com saques, depredações e pichações. Até grandes celebridades como Jay-z e Beyonce participaram da onda de protestos.

Ainda este ano, no Egito, 17 milhões de pessoas foram às ruas protestar. Apesar da manifestação ter-se mantido em boa parte pacífica, foram registradas 26 mortes ao fim do dia. O Saldo: um presidente eleito democraticamente deposto e uma ditadura instaurada pelo exército. Apesar disso, o país ainda vive em clima de guerra civil, e a cada dia mais apoiantes do ex-presidente são mortos pelo exército.²

Cinco pessoas mortas foi o resultado de uma onda de manifestações na Inglaterra em 2011. Com 3100 presos e mais de 1000 processos foi como terminou a onda de protestos que pedia esclarecimentos à respeito do assassinato de Mark Duggan. Os distúrbios foram caracterizados por saques desenfreados e ataques incendiários de níveis sem precedentes. Como resultado, o primeiro-ministro britânico David Cameron antecipou o retorno de suas férias na Itália e outros governantes e líderes da oposição também interromperam suas férias para atender o caso. Além disso, as férias do pessoal da polícia foram canceladas e o Parlamento foi convocado em 11 de agosto para debater a situação.

Poderíamos estender mais o texto e citar muitos outros casos na Síria, China, Holanda, Sudão, Malásia, Austrália, Portugal, Bermânia...

Mas no Brasil tudo é mais feio

Um grande problema do brasileiro, quase incorrigível, é o fato de que por aqui tudo é pior. Para muitos o brasil é único em problemas e tudo que é feito aqui sempre será de pior qualidade do que pelos estrangeiros. Porque? Anos de uma cultura depreciativa fizeram muito mal e agora pagamos o preço num ódio que influencia até nos momentos pelos quais deveríamos nos orgulhar, como as manifestações por direitos legítimos.

Muitos ainda creem que o simples ato de protestar, seja ele ainda assim pacífico, é algo feio e que não merece nem se quer a atenção. Ou quando o param para analisar, o fazem de forma discriminatória, sempre precisando taxar aquele que se manifesta de algo que ele considera pejorativo, como vagabundo ou desocupado. De onde afinal vem essa ideia de que aquele que se manifesta está reclamando sem motivos? E o pior de tudo é que a mesma pessoa que tem o costume de discriminar as manifestações é, também, o primeiro a reclamar dos problemas do país. Vai intender…

No Brasil se faz urgente a inclusão de matérias como filosofia, política e cidadania na grade do ensino fundamental e médio. O Brasileiro sai da escola sem a menor ciência de como seu país funciona, o que um específico funcionário público faz e a quem ele deve cobrar medidas para resolver os problemas de sua cidade. E isso não é a toa. A ardilosidade do nosso sistema já começa aí mesmo, pois um cidadão que não intende o que é um erro, logo não o enxerga.

Soma-se a tudo isso ainda uma mídia alienante que entrega o pensamento pronto ao seu público e temos uma das maiores populações despolitizadas e discriminatórias. No Brasil protestar é crime; Mas não constitucional, é crime de etiqueta. É pecar, é pagar-mico. É ser vagabundo, desocupado. “Tá vendo aquela cara ali gritando? Eu li na revista que é filhinho de papai, tá reclamando sem motivo, deve ter gastado toda a mesada e tá sem nada para fazer agora”.

E se o simples ato de gritar já é feio. O que se dirá dos perigosos vândalos? Não passam de criminosos formadores de quadrilha, certo? Errado.

Black Bloc, para quem não sabe, não é uma instituição nem nenhuma organização. É uma tática de protesto e ela existe a muito mais tempo do que a maioria tem conhecimento, tendo sido utilizada em manifestações por todo o mundo e não é exclusividade brasileira. Para o bem ou para o mal a tática consiste em ter manifestantes mascarados e trajados de roupas pretas para que ninguém possa ser identificado e evitar o que se conhece como “bode expiatório” – ou seja, aquele que leva a culpa sozinho por toda a calamidade.

A violência gratuita

Black bloc nas ruas de Hamburgo, cidade alemã, contra a repressão policial aos Okupas, em dezembro de 2007.

Para muitos o Black Bloc não passa de vandalismo. E até estaria correto essa associação caso aquele que tarja tivesse conhecimento do real valor da expressão vandalismo. Essa não é a verdade porém, e para muitos o ato de destruição nada significa mais do que violência gratuita.

Violência gratuita contra bancos que nenhuma culpa tem do governo que temos. Violência gratuita contra o patrimônio público que infelizmente nos custará para ser reposta. Violência gratuita contra a ordem e o progresso.

Só é uma pena o fato de que bancos agridem de forma muito mais agressiva com suas taxas exorbitantes, e de forma nada gratuita. Só é uma pena o fato de que a má administração do nosso governo nos custe muito mais em forma de impostos, o suficiente para repor a infraestrutura da América inteira, do Chile ao Canadá. Só é uma pena que o Brasil não precise de ordem e progresso, mas sim de igualdade, oportunidade, distribuição de renda, hospitais, escolas, médicos, transporte público, honestidade, transparência, e muitas outras coisas que, essas sim, deveriam ser gratuitas. O Brasil não precisa de ordem militar e tão pouco de mais progresso econômico, obrigado, somos a quinta maior economia do mundo.

E que tampe a boca aquele que vier a dizer que “o banco não põe uma arma na cabeça do cidadão de bem e o obriga a se envolver com taxas e jurus de empréstimos” — peço o perdão de Caetano Veloso para utilizar essa expressão fora de seu contexto original, mas “como você é burro cara! Isso aí que você disse é tudo burrice!” — Toda forma de comércio e prestação de serviços hoje em dia acaba envolvendo bancos. Da industrialização de um produto até a mesa do consumidor. Mesmo que um comprador de uma alface de feira se quer tenha uma conta bancária, ele ainda assim está pagando por taxas que custearam a produção e os serviços que envolveram a produção do vegetal — Isso vem embutido com os impostos, que não são poucos, no preço final do produto. Bancos exploram de formas que você nem imagina, os jurus de empréstimos são o menor dos problemas.

E também não adianta brandir o peito para me chamar de comunista. Nem se quer acredito na funcionalidade deste sistema por motivos que não vem ao caso. Mas à partir do momento que leio uma notícia em que diz que o banco Itaú, no Brasil, possui um “PIB” maior que o de 33 países, sei que há algo de errado neste nosso anarcocapistalismo.

Por isso a cada protesto que passa o número de vândalos aumenta. A cada protesto mais violência e mais depredação. É certo? É errado? Ninguém pode dizer. Tudo é relativo a visão de cada um. Mas uma coisa é certa, protesto pacífico não muda nada. Na história do mundo, não houve revolução sem dor. Não houve e não haverá enquanto não existir um governo que respeite ou tema o seu povo. Um governo sem isso é um governo livre para fazer o que quiser a bel prazer. As opções são um tanto rígidas, ou se acomoda e aceita o governo que tem e está a piorar, ou muda, da forma como pode.

“Não há paz sem guerra” já dizia Sun Tzu, em ‘A arte da Guerra’. Protestos pacíficos não pressionam. Não geram temor. Não trazem a instabilidade necessária para uma mudança. Pior ainda quando sufocados pela repressão de uma polícia despreparada para lidar com o povo.

Um povo obediente é melhor que um povo que questiona. No entanto um povo que questiona mas está satisfeito também não precisa de polícia para conter manifestações. E até onde se sabe, apenas ditadores possuem militares para lhes defender do povo. E é aí que fica o impasse: ou tem de errado com o povo, ou tem algo de ditador nesse governo. Fica a critério de cada um.


1.NOTAS

¹ [fonte: Relembre manifestações importantes que marcaram a história do Brasil / Guiadoestudante]

² Data do texto: 5 de agosto de 2013.

2.RECOMENDAÇÔES

1- Documentário “Sem Vandalismo” http://youtu.be/KktR7Xvo09s

Reportagem acompanha manifestações e relata as opiniões divergentes entre os manifestantes a respeito das ações da polícia e dos atos de vandalismo.

2- O Doutrinador http://www.odoutrinador.com.br/

HQ narra a história de um justiceiro brasileiro fictício, que nasce durante as ondas de protestos para uma vendetta em nome do povo, caçando a cabeça de corruptores.

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