O Mestre é um convite à imersão da mente

Por Henrike Rebelo

Envolto na mente transtornada de Freddie Quell (interpretado pelo talentoso Joaquin Phoenix), sendo a espinha dorsal do longa-metragem do inovador diretor Paul Thomas Anderson, “O Mestre”, é um passaporte sem devolução de imersão no inconsciente: dos horrores da guerra às decepções amorosas. 
Como prévia de ambientação para o espectador, as cenas iniciais, em que marinheiros norte-americanos, juntos em uma praia, exprimem seus instintos sexistas mais exacerbados ao reconstituir com fragmentos de areia os contornos do corpo de uma mulher, sendo o objeto de diversão entre os soldados, são como nós de cordas dos fantasmas que cercam o ímpeto desmedido do protagonista. É justamente a tentativa de manipulação e controle das reações instintivas de Freddie Quell se tornará a chave do filme, personificado no astuto e engenhoso Lascaster Dodd (Philip Hoffma), espécie de grão-mestre illuminati de Paul Anderson, à moda Dan Brown, mentor de uma seita denominada “A Causa”. 
Através de suas terapias e hipnoses, Dodd prega que seus procedimentos podem ser a cura para males psicológicos e físicos, podendo até curar quadros de leucemia. Freddie Quell se apresenta como uma cobaia perfeita para o mestre da seita: jazido emocionalmente, o protagonista é um alcoólatra que, num contexto pós-Segunda Guerra Mundial, encontra-se definhando física e emocionalmente. 
Nos lapsos desmedidos de loucura de seu personagem que Joaquin Phoenix destaca-se: Quell divaga entre a sanidade e a loucura num piscar de olhos. Tenta manter um comportamento adequado quando possível, mas sempre que é confrontado, principalmente com situações de seu passado, revela sua dor pungente. A maneira arqueada ao andar, com sorrisos desmedidos e constante estado de eclosão concedem uma complexidade enorme ao personagem central. 
Recluso, sem perspectivas, Quell enxerga na seita uma espécie de lar que, principalmente após a decepção, ao saber que sua amada Doris, quase uma década após sua partida para a guerra, já havia se casado e constituído família durante os anos de sua ausência. 
Com a brilhante atuação de Phoenix, além de uma refinada direção de fotografia, que leva e aguça o espectador a refletir sobre cenário do “devaneio americano”, do cotidiano de ceias fartas em família, com belas casas e cercas brancas baixas, frente às consternações de um marinheiro do pós-guera, tornando-se a representação do outro lado do sonho: o obscuro. O filme se mostra audacioso, marca registrada de Paul Anderson, que após o sucesso de Sangue Negro (de 2007), vertiginosa expectativa criou para suas próximas produções. 
É justamente na representação da calmaria do mar, que aparece sazonalmente no filme, como uma espécie de oposto às selvagerias dos instintos de Quell, que talvez ele e Dodd possam enfim encontrar seu ponto de equilíbrio, um mestre mentor.

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