Tabaco lusitano

Os portugueses sabem encontrar a poesia que existe no ato de fumar.

Estava eu a ler a História do Cerco de Lisboa, do Saramago, quando me deparei com uma belíssima passagem. Ei-la:

O nevoeiro desaparecera, não se acredita que tantas cintilações tivessem estado ocultas nele, as luzes pela encosta abaixo, as outras do outro lado, amarelas e brancas, projectadas sobre a água como trémulos lumes. Está mais frio. Raimundo Silva pensou, pessoanamente, Se eu fumasse, acenderia agora um cigarro, a olhar o rio, pensando como tudo é vago e vário, assim, não fumando, apenas pensarei que tudo é vário e vago, realmente, mas sem cigarro, ainda que o cigarro, se o fumasse, por si mesmo exprimisse a variedade e a vaguidade das coisas, como o fumo, se fumasse. O revisor demora-se à janela, ninguém o chamará, Vem para dentro, olha que te constipas, e ele tenta imaginar que o chamam docemente, mas fica ainda um minuto a pensar, vago ele, e vário, e enfim, como se outra vez o tivessem chamado, Vem para dentro, peço-te, condescende em fechar a janela e volta para a cama, deita-se sobre o lado direito, à espera. Do sono.

Natural e imediatamente, ao mesmo tempo em que apreciava tão deleitáveis palavras vieram-me à mente aquelas três estrofes daquele conhecido poema de Pessoa (metamorfoseado em Álvaro de Campos) — cuja representação visual carregarei eternamente na pele de meu antebraço esquerdo —, que também admirabilíssimo é:

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira
 E continuo fumando.
 Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

Mui belo, não?

No entanto, vejam só, há um “segredo” que eu deixara escapar à primeira leitura do trecho do português primeiramente referido. E também à segunda. Mas só à terceira leitura pude eu notar que, ao pensar no cigarro, Raimundo Silva não pensou “pessoalmente”. Ele pensou “pessoanamente”. Um sutil detalhe no qual duas letras substituem uma e, de repente, não mais que de repente, faz-se a mágica: todo um novo universo apresenta-se diante destes impressionáveis olhos puxados. Pessoa estivera ali desde o princípio, e eu demorei a perceber. Há momentos em que uma mera vírgula ou uma mera substituição letrística faz toda a diferença, e nesse caso se fez, e a poesia dessa poesia que não é um poema tornou-se mais exuberante, e a vaguidade e a variedade, a libertação dos pensamentos e das especulações, desabrocharam-se muito mais vividamente. Espero que o leitor veja e contemple a poesia que vi e contemplei — nas palavras e no cigarro.

Estou a esperar que me apresentem alguém que descreva o ato de fumar como o fazem os lusitanos.

E enquanto espero, resta-me somente, então, ir à janela — à sacada, no caso — gozar pessoana e saramagamente de um cigarro.