Bom dia, CID 10 F41.1

Eu visualizo minha morte dez vezes por dia. Quando me levanto da cama pela manhã, assustado com o som dos carros passando, cães latindo e alguma criança gritando na casa vizinha, sei que vou escorregar e fim. Enquanto escovo os dentes, a lentidão do meu desânimo coloca em cheque a minha capacidade de mover minha mão pra lá e pra cá, sem causar uma taquicardia repentina. O café quente demais queima meus lábios e me assusto sem saber por quê. Olho pro pão em cima da mesa, e alguém, nos confins de pensamentos que não acredito serem meus, avisa que ele ficará preso em minha garganta e me sufocar. Mordo preocupado, mastigo devagar sem perceber, e quando a massa salivada é empurrada pra minha garganta, começo a tossir. Não me engasguei, mas meu corpo tem certeza que sim e entra em pânico — retratos da rotina, tomo uma gota de água e ta tudo bem de novo.

Olho em volta, tudo parece vazio e distante , frio e apático, estupidamente solitário. Lavo a louça devagar, porque minhas mãos formigando desde o momento em que abri os olhos na cama, me mantem em alerta para um possível infarto que nunca virá mas me atormenta vinte e quatro horas por dia. Varro a casa, a gata tá alimentada e se enrosca no meu pé — eu não a percebo e meu coração dispara. Paranoia recomeça, levo cinco segundos até perceber que é ela rindo no meu ouvido e só então entendo que nada aconteceu. Era só minha gata.

A chuva se foi e o calor deu as caras. Preciso ir ao mercado. Preciso sair de casa. Tomo três copos de água sem perceber, o suor escorre mas aqui dentro nem tá tão quente assim — é só um terror que não sei o que é. Abro o portão, as pessoas na rua parecem todas me encarar.

“Tá tudo bem, Henrique”, eu minto pra mim mesmo, “Logo você tá em casa de novo, Henrique”, eu lembro a mim mesmo. Mas lembrar só piora. Lembrar que logo volto pra casa é lembrar que preciso esperar o tempo passar até meu retorno, e nessa espera óbvia e imbecil, minhas mãos formigam um pouco mais. Minha cabeça parece apertar — “por que tá todo mundo me olhando?” — , de repente esqueço o que é ser racional — “não tem ninguém olhando, Henrique”. Mas tem sim. Um carro da polícia passa do meu lado, o PM no passageiro me nota e me encara, eu finjo que não percebi, só que tá dificil nao pensar que ele vai me seguir até fazer qualquer coisa comigo — já me seguiram até em casa outro dia, será que é o mesmo? agora eu já era.

Meus pensamentos voam, eu entro em modo automático — “tô passando mal” — e só acordo quando o atendente do caixa pergunta: o senhor está bem?

“Não, eu to morrendo, chama uma ambulância, não sinto meu coração bater, me ajuda”, penso, mas só digo “Não, é o calor, tá foda“, com a garganta se fechando em si, a perna fingindo que vai parar de funcionar, o corpo ameaçando cambalear, e olhares que não existem me acompanhando.

Quando chego em casa, mal subo as escadas. Sento no primeiro degrau e parece que só agora voltei a respirar. Quero gritar por socorro, mas não consigo sequer abrir a boca, quero pedir socorro, mas esqueço que to sozinho nesse mundo onde tudo é um grande ataque cardíaco imaginário. “Hoje a noite não vou dormir”, penso e sei que não vou mesmo. Minha amiga ansiedade vai me acompanhar o dia todo e a noite vai querer brincar de não me deixar descansar. Acordarei ofegante a cada uma hora, sentirei minha respiração parar em cada despertar, meu peito vai doer, minhas mãos vão soar frio, algum barulho nascerá na rua e eu ficarei andando pelo quarto assustado até lembrar que andar é perigoso e deitar de novo. E será assim até o amanhecer. Pela manhã visualizarei minha morte mais dez vezes.

“Bom dia, Henrique”, dirá uma voz ´sádica.

“Bom dia“, eu direi chorando a uma voz que não existe.

Bom dia ansiedade. Bom dita tudo de novo.

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