Adão e Eva Redux

Era a quinta-feira — agora eles é que contavam os dias — da quarta semana quando Adão e Eva novamente foram interpelados por Deus. Ela tinha fome e ele se recuperava das feridas no lado do corpo, da coxa à axila direitas, hematomas de uma caça fracassada.

Foi Eva quem notou uma diferença no sopro do vento, em espiral. Ela preparava uma sopa com ervas e legumes selvagens, era só o que comiam naqueles dias com Adão machucado. Eva até preferia assim. Sem dúvida a dieta era menos variada, mas a escassez obrigava a um uso inteligente dos recursos — foi assim que se inventou o tempero. Com ele, veio a descoberta de que comida não servia apenas para saciar, como nos tempos do Éden, mas para algo além.

Adão gemia. As feridas estavam quase cicatrizadas, a dor não era mais a mesma. Gemia talvez por hábito, ou pela aprendizagem: era um novo som, que Adão não gostaria de esquecer. Experimentava diferentes tons e durações, ora mais graves e rápidos, ora mais prolongados. Não percebeu o vento em espiral se adensando, sua corrida por entre as árvores magras que circundavam o acampamento. Não reparou que se amontoavam os ruídos dos animais, de dentro de si e de Eva, das estrelas. Não se deu conta de que, logo ali, o espelho d’água do riacho se convulsionou, o vento se fraturou, a panela de barro improvisada de Eva tombou.

A nuvem de ruídos se concertou na voz poderosa do Senhor, que, no entanto, pela primeira vez soou oblíqua.

Disse o Senhor aos ouvidos de Adão e Eva — os únicos ouvidos humanos que por muitas gerações escutariam aquela frequência e aquele trovão tão distintos, que lembrariam dessa voz aos pedaços em seus sonhos e em suas lembranças, entrecortada pelos outros barulhos que o Senhor calou ao manifestar-se para o casal, que manteriam como um tesouro nem tanto a memória, mas a dúvida de que de fato tinham escutado, juntos e alto, o pronunciamento do Senhor, Criador do Céu e da Terra e do Espaço e do Tempo — que estava orgulhoso. Que antes, até a fatídica mordida, fazia a distinção entre o casal e o resto da Natureza, este último certamente um motivo absoluto de glória, mas o primeiro ainda por decidir. Que achava que, tendo os feito à Sua imagem e semelhança, eles naturalmente compartilhariam de Sua maneira de enxergar a Criação, e por isso havia sido duro o castigo à desobediência. Que a punição, embora justa, embora correta, embora adequada, talvez seguisse antes o mandamento da coerência do que o do equilíbrio. Não teria sido mais proveitoso, quiçá mais educativo, o percurso inverso? Isto é, que Adão e Eva nascessem às margens do Éden, às bordas do Jardim das Delícias, que vislumbrassem aquele Encanto e que, depois de ter vivido na carne as dores do parto, da fome e do esforço compulsório, então se unissem ao resto da Natureza, em comunhão plena? Talvez assim não fosse necessário falar-se em castigo, em punição, em desobediência; talvez assim Adão e Eva não tivessem sido expulsos ao fim, mas abençoados, readmitidos no seio da Criação; talvez assim Adão e Eva, agora não mais finitos, tivessem uma fração mínima que fosse da perspectiva do Senhor — e assim se fizesse a harmonia. O Senhor pôs-se então a descrever as mil glórias de um Éden Que Poderia Ter Sido, com garças, abelhas, ciprestes, musgo, capivaras, milharais, cajueiros, antas, ursos, peixes-palhaço, a mulher, lontras, formigas, castores, algas, flamingos, rãs, tartarugas, caramujos, macieiras, orquídeas, jaguares, porcos-do-mato, camarões, gatos, jaguatiricas, búfalos, feijão, batata, alpacas, gaviões, o homem, besouros, jacarés, cavalos, ovelhas, bodes, rinocerontes, vacas, elefantes, e mais, todos em convívio pacífico, todos em vida eterna — serena, constante. O Senhor disse que os fizera à Sua imagem e semelhança, por isso lhes havia dado de início a imortalidade, Seu atributo incontestável. Se tivesse mais calma, porém, dizia o Senhor, teria visto que, do modo como os criara, teria sido mais vantajoso para seu entendimento que fossem alçados à Sua condição, em vez de tê-la de partida.

Era por isso, enfim, que o Senhor vinha pedir que Adão e Eva considerassem voltar ao Éden, mediante algumas condições.

Não terá havido silêncio mais profundo do que o de então. Tendo o Senhor suspendido a cadeia de barulhos que preenche o espaço, restava apenas a respiração de Adão e Eva como o único ruído do mundo, e ambas se interromperam por um instante. A proposta nem havia sido feita por completo, e já os ultrapassava em seu esplendor. Adão reviu, como num sonho, a macieza do chão em que dormia; Eva sentiu envolvê-la o calor gentil do Jardim. Mesmo a lembrança da serpente não conseguiu matizar a ternura dos poucos e longos dias por lá. Viram-se libertos de agasalhos, da fome, da preocupação constante com tudo: com o clima e com a terra, com os animais e consigo, com Deus e com a vida. Não podiam acreditar que se deparavam com aquela proposta, sonhada durante o sono e a vigília, desejada a cada momento em que se curvavam para acender uma fogueira ou que se esticavam para montar um abrigo.

Não se sabe de onde, porém, terá vindo o ruído dissonante, a nota interior que desafinava o sonho tornado realidade. Diz-se que veio de Eva, em cuja lembrança voltaram as várias combinações de ervas e legumes selvagens que fizera naquelas semanas; há quem diga que veio de Adão, cuja garganta, tornada mais espessa, guardava ainda a memória daquele som novo, ora longo, ora lancinante, do gemido; especula-se que terá vindo do próprio Senhor, novamente mudando de ideia a respeito da presença na Sua obra-prima daqueles seres imperfeitos. São todas explicações possíveis, mas não satisfatórias — nenhuma seria.

O que se sabe é que a proposta do Senhor foi recusada. Que a voz poderosa e altissonante, embora oblíqua, de Deus se calou, não menos pela surpresa. Que Adão e Eva passaram mais quatro semanas, e mais quatro, e mais quatro, e mais oito, e mais quarenta, e mais oitenta, e mais cento e sessenta semanas ali, às margens do Éden, de onde por fim se afastaram, enfim plenos.

Sobre a segunda visita de Deus, calaram-se. Caim e Abel não souberam dela; além do mais, nem eles, nem qualquer descendente entenderia. Em seu silêncio cúmplice, agora orgulhosos como o Senhor, Adão e Eva não sabiam como juntar palavras que explicassem por que seria impossível voltar e por que, afinal, nem valeria a pena: às delícias da Criação, tinham preferido a criação de delícias. Supuseram que o Senhor os entendera, porque não mais se dirigiu a eles. Tinham sido feitos à Sua imagem e semelhança — e Ele agora, assim como Adão e Eva, entendia o custo disso.


Texto originalmente publicado na Freio de Mão.