Como ‘Game of Thrones’ revolucionou as histórias de fantasia
Se Senhor dos Anéis reinventou no gênero a noção de mitologia, GoT inaugurou a de História
(Obs.: Cuidado com spoilers.)
(Obs. 2: Como não li os livros de George R. R. Martin, os comentários falam principalmente da série — falam, na verdade, mais de aspectos gerais da narrativa. Talvez por isso, e de acordo com essa referência, talvez as ideias valham também para a versão escrita.)
A sexta temporada de Game of Thrones (GoT) vai estrear em breve, e dá para dizer com segurança que é um dos eventos televisivos mais aguardados do ano, no mundo e também no Brasil (como prova a cobertura da temporada no Rio de Janeiro de Kit Harrington, o Jon Snow). Mais pirateada, mais vista, mais aguardada: não faltam superlativos para a série.
Não há uma única explicação para um sucesso desses. Existem as razões industriais (muita grana da HBO investida na produção) e as comerciais (ainda mais dinheiro colocado no marketing), mas talvez haja também um motivo estético e artístico — principal responsável por cativar o público.
Minha opinião sobre este último motivo: acho que GoT provoca uma revolução no jeito de contar histórias de fantasia.

(Mudando um pouco de assunto, mas não tanto, a ideia de revolução, aqui, faz referência a um ensaio de Roberto Schwarz sobre o livro Verdade Tropical, de Caetano Veloso. Em resumo, é o seguinte: o cantor diz que, ao ouvir a bossa nova pela primeira vez, teve uma iluminação. Ao mesmo tempo em que mostrava um novo jeito de compor, a bossa nova mudava a ideia que se tinha de alguns cantores mais antigos, dando-lhes um novo significado. Schwarz vê aí uma descrição precisa da dialética, de uma revolução que, atuando sobre o presente, abre múltiplas possibilidades de futuro e também reconstrói aos nossos olhos o passado. Vale a pena ler as duas passagens, referidas abaixo.)
Mas para entender esse salto da série e dos livros de George R. R. Martin é preciso voltar a J. R. R. Tolkien e seu Senhor dos Anéis. Dá para ver que a história de Frodo e os livros complementares à saga são uma referência central de GoT. Veja no que eles se parecem: toda a construção de um mundo de fantasia (Terra-Média e Westeros), a presença de criaturas mitológicas (dragões, em especial), as guerras entre reinos inspirados na Europa medieval. Isso só na superfície.
O diálogo, porém, vai mais longe. A literatura de fantasia de língua inglesa não consegue fugir da figura de Tolkien: desde seu amigo C.S. Lewis, com As Crônicas de Nárnia, até sua fã J.K. Rowling, com Harry Potter — passando por Martin, obviamente. E uma das razões para a imensa sombra que Tolkien cria talvez seja a revolução nas histórias de fantasia que ele mesmo fez.
Isso não quer dizer que Game of Thrones seja superior a Senhor dos Anéis, ou qualquer coisa assim. Sem a obra de Tolkien, não haveria a obra de George R. R. Martin como a conhecemos — fato.
Como diz o livro O Mundo Mágico de O Senhor dos Anéis, de David Colbert, Tolkien construiu o mundo da Terra-Média se baseando em lendas e histórias folclóricas, transmitidas por várias gerações e recriadas por outros artistas. A história de Senhor dos Anéis se parece, em partes, com O Anel dos Nibelungos, ópera de Richard Wagner que toma emprestados conflitos da mitologia nórdica. Muitas passagens de O Silmarillion (espécie de Antigo Testamento da Terra-Média) reinventam mitos finlandeses e celtas, por exemplo.
Essa foi a revolução de Tolkien: ele reinventou na literatura de fantasia a ideia de uma mitologia. Incorporou-a criando a sua própria, com os elfos e suas línguas, os anões e suas runas, os deuses que regem o mundo da Terra-Média (os Valar), etc. Não por acaso, as histórias de O Senhor dos Anéis e do Silmarillion parecem se passar meio fora do tempo, fora da história, fora do nosso mundo: lembram, nesse sentido, a mitologia grega, a nórdica ou a egípcia, entre outras.
Tomando a arquitetura das mitologias como modelo, Tolkien mostrou um novo jeito de dar verossimilhança à construção de mundos fictícios, procedimento fundamental nas histórias de fantasia.

George R. R. Martin começa a escrever os livros num momento posterior a Tolkien; da mesma forma, a série da HBO é lançada dez anos depois da estreia do filme O Senhor dos Anéis, de Peter Jackson. Ou seja: em ambas as frentes, a revolução de Tolkien já está feita. E, se O Senhor dos Anéis havia incorporado a mitologia, o passo seguinte dado por Martin e seu Game of Thrones é o de incorporar a História — um outro jeito de falar que incorpora a política.
Em Tolkien, predomina certo maniqueísmo. Por mais que haja complexidade psicológica, não é difícil adivinhar o lado do Bem e o lado do Mal. Isso é típico das lendas e dos mitos: pense, por exemplo, no Rei Arthur, seu conselheiro Merlin e os cavaleiros da Távola Redonda, que certamente foram inspiração de Tolkien para Aragorn, Gandalf e a Sociedade do Anel. Para se tornar rei de Gondor, Aragorn precisa provar seu valor e a nobreza de sua herança.
Muito diferente de Game of Thrones. Para começar, o maniqueísmo foi quase inteiramente abandonado: mesmo Jon Snow, espécie de “homem de bem” da série, se vê obrigado a tomar decisões difíceis (penso no encontro com Qhorin Halfhand ou na relação com Ygritte, por exemplo). Na série, como provam as desventuras da candidata ao trono Daenerys Targaryen, não basta a linhagem, como acontecia com Aragorn: são necessários um exército, apoio político, um povo que a siga. Dragões não importam tanto, já que o que governa os reinos de Westeros é o interesse, seja o econômico (“um Lannister sempre paga suas dívidas”), seja o do poder (Petyr Baelish, o Mindinho, se aliando ora a um lado, ora a outro), seja o da honra (os Stark, que, talvez por isso, não raro acabam em desgraça).
O poder não emana mais do Um Anel ou de um ancestral mítico, mas de pessoas e seus recursos, como a capacidade de liderar ou a posse de um dragão — que funciona mais como uma arma do que como algo mágico ou sobrenatural.
Game of Thrones incorporar a História é outro jeito de dizer que a série incorpora, ao mundo de fantasia com dragões, zumbis e magia, a política
É como se George R. R. Martin e a equipe da HBO tivessem absorvido as ideias de Maquiavel na construção do mundo de fantasia. Quem melhor representa esse salto da série são Tywin e Tyrion Lannister, dois personagens com um alto grau de consciência do jogo político. Há inclusive uma passagem da segunda temporada em que Tyrion lê relatos de reinados anteriores de Westeros, para aprender como lidar com uma batalha e um estado de sítio. Adeus, mito; olá, História.
Isso mostra como, mesmo com dragões, magia e White Walkers, Game of Thrones é uma série, de certo modo, realista. A história da série se assemelha à História como a entendemos nos dias de hoje: um processo de disputa política, de conflitos de classes e de interesses materiais, sociais, econômicos e culturais.
Evidentemente, não quer dizer que Game of Thrones seja superior a Senhor dos Anéis, ou qualquer coisa assim. Sem a obra de Tolkien, não haveria a obra de George R. R. Martin como a conhecemos — fato. Mas o que importa é ver como ambos fazem parte do mesmo processo, são etapas do desenvolvimento da literatura e dos filmes de fantasia.
Talvez esse tipo de atualização das histórias de fantasia ajude a explicar um pouco do apelo de Game of Thrones. Ou talvez seja apenas uma viagem de quem está muito ansioso para ver a próxima temporada, quem sabe?

O que consultei
Livros:
COLBERT, David. O Mundo Mágico de Senhor dos Anéis. Tradução de Ronald Eduard Kyrmse. Rio de Janeiro: Sextante, 2002.
MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. Tradução de Antonio Caruccio-Caporale. Porto Alegre: L&PM, 2011. (Coleção L&PM Pocket)
SCHWARZ, Roberto. “Verdade Tropical: um percurso de nosso tempo”, in: Martinha versus Lucrécia — ensaios e entrevistas. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. http://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=13318. Páginas 72–3.
VELOSO, Caetano. Verdade Tropical. São Paulo: Companhia das Letras, 1997. http://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=10788. Páginas 35–6.
Sites:
BAREM, Manuela. “‘Jon Snow’ aprendeu bem rápido o que é ser carioca”. Buzzfeed. Disponível em: http://www.buzzfeed.com/manuelabarem/jon-snow-brazil#.ubBV6kLpQQ (acesso 20 jan 2016).
PELLIZZARI, Daniel. “Game of Thrones: os sete reinos da incerteza”. Blog do IMS. Disponível em: http://blogdoims.com.br/ims/game-of-thrones-os-sete-reinos-da-incerteza-por-daniel-pellizzari (acesso 20 jan 2016)
PESSOA, Gabriela; COELHO, Luciana; STYCER, Mauricio. “Série nacional e ‘Game of Thrones’ são apostas do melhor da TV em 2016”. Folha de S.Paulo. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2016/01/1724799-serie-da-band-e-game-of-thrones-sao-apostas-do-melhor-da-tv-em-2016.shtml (acesso 20 jan 2016).
PUSCHAK, Evan. “Middle Earth and The Perils of Worldbuilding”. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=mA6MQHNM2yE (acesso 22 jan 2016)