nos bastidores das fábulas (I)

“Sem mim, por exemplo, ‘Mau’ é só uma rubrica de ‘Lobo’”

03.07

Hoje foi foda, gravamos uma fábula inteira. Tento não reclamar muito porque, pelo menos, não está faltando trabalho (o inferno que foi em abril e maio!), mas está cada vez mais difícil. Velho, será? Estou um pouco mesmo: não conseguiria refazer a cena de derrubar num sopro as casas dos porquinhos. Foi meu auge, uma daquelas atuações que, quando eu assistir na retrospectiva, vou chorar. Rever o pelo brilhante que eu tinha, ou como imergi na personagem. Sem contar o fôlego, que foi a primeira parte de mim a se acabar (carrego marcas nos pulmões de quando fumar era glamoroso). E que elenco! Com a exceção do terceiro porquinho, aquele babaca. Não à toa atuou tão bem, o papel foi escrito para um esnobe como ele. Enfim, chega de maledicência, que isso dá úlcera… Amanhã acordo cedo e ainda vou uivar para a lua hoje.

10.07

A discussão vai além do problema de direitos autorais, arrecadação e royalties, mas fica a pergunta: quem é o verdadeiro autor da fábula? OK, Esopo, por exemplo, escreveu, criou as personagens, imaginou as situações. Mas e nós, que damos corpo, pele e emoção às palavras? Sem mim, por exemplo, “Mau” é só uma rubrica de “Lobo”, perdida num roteiro qualquer. São só um adjetivo e um substantivo juntos. Eu encarno (no sentido de “tornar carne”) o rascunho de animal que Esopo conta. Por isso e por mais (pelo nosso histórico, pela nossa parceria, pelos trabalhos que fizemos juntos), acho que mereço respeito. Que proposta foi aquela? Me botar de raposa? Pegar uva? Me poupe, um papel muito abaixo de mim. Ele está falando, afinal, com a metade selvagem de “Pedro e o Lobo”, com o animal impetuoso de “Os Três Porquinhos”. Desconfio que meu agente está certo: é retaliação por eu ter participado de “Chapeuzinho Vermelho”…

17.07

O que vem a seguir? Se essa antologia de histórias vai dar certo, só posso esperar. Prefiro, enquanto isso, planejar os próximos passos, ver o que farei de minha carreira. Estou num momento crítico, porque provei meu talento: não há quem interprete vilões melhor do que eu. Fato comprovado nesse começo de temporada. Elogios vêm de todo lado: Esopo, La Fontaine, Perrault. Mas cansei. Quero algo desafiador (não raposas), algo que me leve aos limites de minha performance. Ou o quê? Interpretar lobos maus o resto da vida? Não quero ficar marcado por essa personagem. Posso mais, muito mais, e isso eu garanto: que tal um papel de herói agora? Foi o que disse ao meu agente: “me arranje algo que precise de vida, estou pronto para injetá-la”. Algo trágico, talvez, ou algo sinistro… Nada contra os papéis infantis, pelo contrário. Mas não quero me limitar a um maniqueísmo que se provou bem-sucedido com o público. Quero alma! Um anti-herói! Um coadjuvante de traços ambíguos! Menos Esopo e mais Sófocles, é só isso que peço.

(P.S.: não quero acusar ninguém, mas percebi certo especismo nas seleções de elenco, ultimamente. Coelhos, por exemplo: livre acesso. Um dos testes mais disputados, de Lewis Carroll, era para eles— apesar de também incluir lebres. São os efeitos do sucesso, a fábula com a tartaruga está dando dinheiro até agora, todos querem entrar nessa corrida. Os lobos, porém, esperamos que alguém escreva uma personagem desafiadora, e só nos entregam os maus, os vilões simplórios. Culpam o público, culpam os produtores, culpam os roteiristas, mas resolver, que é bom, ninguém se atreve. Chegou a hora de derrubar essa casinha também, mas já estou quase sem fôlego.)