O ex-papa despido

A manhã do ex-papa provavelmente começa com uma oração. Se é um agradecimento ou um pedido, não sabemos; vemos apenas suas mãos abertas, as palmas para cima e os olhos fechados. Tão acostumado está às preces que não mexe a boca: recita em silêncio as palavras sagradas, numa imitação talvez inconsciente da Sua quietude. Pode ser que, enquanto reza, o ex-papa pense, num momento de distração, em seu café-da-manhã.

E talvez ele saia de seus aposentos com suor escorrendo pelos cabelos finos e brancos como suas roupas. O calor do verão mediterrâneo não poupa o Vaticano, e nem o ex-porta-voz de Deus escapa à sede e à fome. Seus passos devem ecoar pelos corredores que levam ao recinto onde o ex-papa faz suas refeições. Mas também é possível que ele prefira tomar o café-da-manhã na cama, servido por algum cardeal ou alguma camareira.

No que pensa o ex-papa enquanto come frutas, pães e geleias? Será que sente saudades de um país visitado há dois ou três anos? Ou se lembra de passagens da Bíblia, compondo uma encíclica que não vai escrever? Se a carne é fraca, talvez ele considere seriamente as possibilidades, inclusive financeiras, de lançar uma autobiografia.

É provável que o ex-papa se mantenha atualizado sobre seu sucessor. Aonde foi, quem perdoou, o que declarou. Para isso, a fofoca do altíssimo clero não basta: o café-da-manhã do ex-papa deve incluir jornais em diversas línguas, dos quais seu preferido talvez seja alemão. Suja os dedos de uma mão com a tinta das notícias, enquanto a outra mexe uma colher de açúcar num copo de leite.

Conseguiríamos ver o ex-papa dobrando o jornal para guardá-lo. Descansado, satisfeito, agradecido: um sorriso lhe escaparia do rosto severo. Ele se alongaria na cadeira, numa tentativa de afastar a preguiça que os fiapos de sono mantêm junto ao corpo. Assim que escovar os dentes e lavar o rosto, poderá começar, enfim, seu dia.

Mas, quem sabe se por efeito do copo de leite ou das fibras da refeição, o ex-papa sente uma urgentíssima vontade de cagar.

Ele não sairia correndo, talvez por medo de cair e fraturar um osso; daria passos curtos e rápidos. O som de suas chinelas contra o chão ecoaria mosteiro afora, percorrendo corredores, possivelmente chamando a atenção do cardeal ou da camareira. Podemos imaginá-los a bater com os nós dos dedos na porta do banheiro do ex-papa. “Tudo bem com sua Santidade?”, diria a voz suave, que talvez passasse despercebida pelo ex-pontífice.

Com a roupa de baixo arriada, o ex-papa apoiaria a testa nas mãos, os cotovelos nos joelhos. Talvez demorasse para cogitar uma prece de agradecimento pelo alívio imediato: há dias que tem o intestino preso. Sem mamão ou couve que o destranque. Por um instante, o ex-papa se concentraria em uma única sensação, mais um instinto do que um pensamento, de vazio. Como o peso de um pecado que se vai depois de um Pai-Nosso.

O incidente sanitário ajudaria o ex-papa a despertar. A se esquecer de seu sucessor, das notícias alemãs, da possível autobiografia. Com o rolo de papel higiênico em mãos, o ex-pontífice se limparia, ritual repetido quase diariamente há décadas. Sua mente talvez contornasse a tarefa mecânica, pensando no que teria feito mais vezes em sua vida: o ato de limpar-se ou o de benzer. Seria uma questão de contabilidade, provavelmente. Como computar as bênçãos coletivas? Uma vez ou várias? Finalizada a limpeza, o ex-papa tomaria uma ducha, para evitar machucados, ou usaria o bidê.

O que poderia interrompê-lo é ver um tom de vermelho na privada, antes de apertar a descarga. Levaria um susto; talvez repassasse a dieta dos últimos dias; com certeza tentaria se lembrar de alguma dor ao se sentar no vaso, uma ardência disfarçada no alívio. Com um pouco de tontura e um aperto na garganta, a respiração tão presa quanto outrora estava o intestino, ele se sentiria frágil. Pediria ajuda, faria uma prece, o quê?

Daria descarga, provavelmente. É possível que se lembrasse de algum instante na infância, na Alemanha à beira do nazismo, a mãe pedindo-lhe para conferir a consistência do cocô. Não descobrimos se a memória é terna, se traz também alguma tristeza, ou mesmo se vem; o que sabemos é o adulto, ex-papa, aflito. Imaginamos sua Santidade saindo do banheiro para avisar ao cardeal ou à camareira que talvez precise de um médico.


Depois de um exame invasivo como a colonoscopia, quem abriria a porta dos aposentos do ex-papa provavelmente seria o cardeal ou a camareira. Com um leve tremor nas mãos, o ex-pontífice usaria o máximo de suas forças para agarrar-se ao braço amigo, que o guiaria à cama. E, apesar do calor, é possível que o ex-bispo de Roma sue frio.

Talvez também lhe incomodem as roupas, que parecem se apegar à pele. Seria o caso de pedir que o trocassem, mas o ex-papa está cansado demais para levantar os braços flácidos e as pernas marcadas por veias, deitar-se e, em vez de se recostar, erguer o quadril, primeiro para se despir, e, depois, para finalmente vestir os pijamas. Não, obrigado, não é preciso, diria o ex-papa, pedindo apenas que lhe façam companhia por enquanto.

Ele se deitaria de barriga para cima, as mãos sobre as coxas e a nuca contra um travesseiro macio. Fecharia os olhos, porque há algo estranho na vista; parece-lhe que o quarto flutua e que os objetos, por um instante, deslizam milímetros para fora de seus lugares e depois voltam. O mais provável é que o ex-papa esteja com hipoglicemia, mas ele não consegue tirar da cabeça a hipótese que ninguém ousou formular: câncer.

Nisso o ex-papa pensou durante os longos, monótonos minutos que passou na sala de espera do consultório. Tentava se distrair assistindo à tevê ou à mal dissimulada admiração da secretária, a que o ex-bispo de Roma respondia com um sorriso simpático. Haviam dito a ele que se trataria com o melhor gastroentorologista italiano, num hospital com equipamentos de ponta e os enfermeiros mais atenciosos do mediterrâneo. Ele agradeceu os cuidados especialmente a Deus, que lhe agraciara com tão boas condições. Mas, num momento de impaciência, talvez tenha se irritado com aquela sala de espera, gelada como o nono círculo do inferno.

Em seus aposentos, o ex-papa tenta se esquecer do desconforto, da secretária, da hipótese. Ele sente o sono se aproximar, fruto talvez de um efeito retardado da anestesia, ou da ansiedade — vem-lhe então a urgência de uma prece. Procura a mão da camareira ou do cardeal, contato físico que de súbito lhe parece tão necessário. Ao encontrá-la, pede:

– Um Pai-Nosso.

Talvez a cena fosse mais poética se a prece fosse feita na voz suave da camareira. Ela recitaria bem devagar a singela oração, como se a dissesse ao pai idoso ou ao irmão mais novo, e o ex-papa saborearia cada palavra, que repetiu tantas vezes de modo tão automático.

Mas também é possível que a oração fosse feita pelo cardeal. E aí se perderia o tom lírico: um tanto irritado, ele rezaria com pressa. Talvez, enquanto estivesse falando, se lembrasse do conclave, tão recente; talvez, do novo pontífice, tão enérgico. Fato é que teria mais o que fazer.

De qualquer modo, o ex-papa provavelmente dormiria antes de terminada a oração. Sentiria a vista se dissipando, a testa franzida se descontraindo, o sono a envolvê-lo. O som da prece ao fundo talvez o relaxasse, e ele nem se daria conta de que, antes de adormecer, não pediu perdão, como faz todas as noites. Será que pensaria nas notícias do jornal alemão, na autobiografia ou na hipótese? Se ele sonha ou não, não podemos afirmar: só conseguimos ver seu corpo quase imóvel e ouvir sua respiração, que de vez em quando rompe a quietude do quarto.


Texto finalista do Prêmio Off-Flip em 2015, na categoria Conto, a ser publicado em coletânea em formato digital.