Van Gogh

Ensaios sobre Ela ou A Incansável Insignificância do Ser

São 7:29, atrasado, sai mais um dia, outro dia que vou cansado tomar meu café no outro lado da rua acompanhado só do meu cigarro. Outro dia que ela me sabota, 12 de dezembro as 7:32, o dia que ela ia me levar, será que me atrasei? Como poderia? Em meio a tantas loucuras ser um atrasado nunca foi uma delas, ainda mais para um compromisso que tanto queria, nossa primeira viagem juntos.

Atravesso a rua correndo, desatento, preocupado se ela esqueceu de me buscar. Subo em casa olho pela janela, nenhum sinal dela. Me questiono sobre a possibilidade de alçar voo e ir sozinho. Onde foi que eu errei? Vacilar assim com quem eu mais sentia, não sentia um sentimento obsceno, mas sim um sentimento reservado para as 4 paredes brancas do meu quarto, pras minhas noites sozinho, pros meus sonhos profundos após pensar tudo que não podia ou até para quando seu toque frio é sentido e se flagra dando sentido para tudo como um passe de mágica.

Passou um dia, acho que ela me esqueceu. Nunca mais ter o prazer do nosso cruzar de olhares, seria esse meu destino? Seria eu tão insignificante assim? Não pode ser, me preparei toda vida pra alguém como ela, tudo o que eu queria só ela poderia oferecer. O beijo frio, o abraço apertado, a falta de ar depois dos nossos longos amassos iluminados pela lua, a dor no peito e a saudade de algo que nunca tive. Nunca quis muito, mas sempre tive a certeza que teria um amor, um amor que, mesmo antes de ver sua face, já amava por tudo que os boatos contavam e as boates não davam. O conforto, o confronto, a sensação de liberdade, a liberdade das sensensações, um abrir de olhos pro clarão do dia, um fechar eterno de olhos para se jogar num mundo novo.

Eu acho que eu não merecia ela tanto assim, sempre andei com essa vontade de tê-la — quem sabe seria por saber que ela nunca seria de ninguém — sempre segui acreditando que tudo que ela me salvaria de tudo. Busquei seu amor em esquinas baratas, em vidas engravatadas, em pernas que me sufocavam, me sufocava e do sufocar aproveitava, vivia o verso e se no princípio tudo era verbo, o fim sempre era minha podridão decretada em poemas no pé do colchão. Deitado, largado, refletindo sobre como ela me esqueceu. Faz sentido, de tantos outros, por que ela escolheria logo eu? O que eu tenho pra oferecer? Sou só mais um bobo melancólico, insignificante e otimista, era muito melhor ela só me esquecer.

Hoje, 19 de dezembro, meu despertador toca exatamente as sete horas. Faz uma semana que ela me esqueceu. Ainda me entristece, eu queria tanto, me julgava tão pronto, agora já não me acho tão pronto assim. Acho que já busquei por ela e, quem sabe, em alguma outra vida, eu já a tive, tive como nunca antes imaginei que teria. Talvez até nessa realidade já a tenha, mas sua presença era tão próximo daquilo que nunca se esperava que meu cérebro decidiu me enganar todos os dias pra que eu continuasse do jeito que estava antes de tê-la. O que importa é que agora tanto faz, a Morte me esqueceu e acho que nunca mais vai me buscar, me entristece saber que nunca vou ter seu beijo, seu abraço, tudo aquilo que faz outros calar. Agora só me resta viver, sem a Morte, pelo menos vivo com a certeza de quem é o meu amor e o porquê ela não vem me buscar.

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