O DJ e a batalha

Reflexões sobre a música tocada em uma batalha de “Freestyle” Hip Hop Dance (revisão de um texto de 2013)

Não sou DJ. Ponto. Resolvido.

Mas me atreveria a dizer que sei uma coisa ou duas sobre Battles e sobre música. E talvez ainda algumas mais sobre Hip Hop Dance e Rap.

Por mais de dez anos, antes de oficializar a sábia decisão de abandonar este ingrato cargo, atuei constantemente como jurado em batalhas da tal “Freestyle” Hip Hop Dance. Dentre as tantas coisas que aprendi durante este processo, ressalto aqui o que entendi sobre a atuação daquele que talvez seja o elemento mais importante desta situação específica: o DJ.

No que diz respeito ao papel do DJ em uma batalha desta linguagem (elemento sine qua non deste acontecimento), posso notar alguns detalhes que, se não atrapalham o andamento da battle, no mínimo impedem que esta aconteça em todo seu potencial.

Assim, muito pretensiosamente, decidi escrever aqui algumas opiniões sobre o assunto. Estas opiniões que disponho abaixo resultam dos meus quase 20 anos de envolvimento e pesquisa desta linguagem, além de conversas com DJ’s experientes e muito respeitados. Ainda assim, obviamente, não são verdades absolutas e estão abertas à discussão.

O DJing é uma arte, e como toda forma de expressão artística, não pode ser limitada dentro de uma caixa de regras. Porém, por se tratar de uma situação muito específica — a Batalha, a atuação do DJ também deve respeitar tal ambiente e trabalhar em conjunto com os demais elementos envolvidos em prol do bom andamento desta disputa.

1 — A música para Battle

Antes de qualquer consideração, é importante lembrar que as músicas selecionadas para apoiar e estimular uma batalha devem ser especiais. As músicas que “você gosta de ouvir” não são necessariamente, músicas que fazem sentido em uma batalha. Elas devem ter, acima de tudo, personalidade, intensidade, groove e variações. Uma música constante e uniforme pode gerar uma dança homogênea e sem picos. Uma música sem peso corre o risco de promover uma “batalha sem disputa”. Uma música sem groove, provavelmente irá estimular uma dança “quadrada”. Uma música comum e sem personalidade, provavelmente refletirá estas qualidades na dança que a irá representar.

A melhor forma de selecionar estes beats é “ouvindo com o corpo”. Elas devem estimular o movimento. Não apenas o “nod your head”, mas o movimento complexo e intenso. Isto não está relacionado apenas à intensidade da música, mas também ao groove, aos timbres, à qualidade do áudio, ao ritmo e flow do Rap, à força dos elementos percussivos, à profundidade dos graves, à complexidade do ritmo, à quantidade de sons envolvidos, às variações (em todos os sentidos)… Enfim, as músicas certas para uma battle devem ser garimpadas.

2 — Quanto ao andamento

Existe uma zona de BPM mais adequada a esta linguagem, quando dentro de uma Battle. Esta faixa vai (grosseiramente) de 90 a 110 BPM, sendo o período ótimo aquele compreendido entre os 95 e os 105 BPM. Isso se dá, não por convenção ou gosto, mas pelo estímulo que tais andamentos trazem a alguns dos elementos fundamentais da Hip Hop Dance — o Bounce, a Fluência e a execução das Danças Sociais. Abaixo de 90 e acima de 110 Beats Per Minute, o Bounce se torna “forçado” ou simplesmente deixa de existir e as Danças Sociais ficam sem dinâmica ou “desesperadas”.

Em faixas de BPM mais baixas, a intensidade fica muito reduzida, o que não condiz com o ambiente da disputa. Portanto, quanto mais lenta a velocidade da trilha, mesmo dentro desta margem, mais personalidade, groove, variações e intensidade a música deve apresentar para justificar sua inclusão no set.

É possível concluir, portanto, que, conforme a velocidade das músicas for aumentada, a intensidade da dança (e consequentemente, da battle) acompanhará esta elevação. Porém, ao atingir a faixa dos 110 BPM, a velocidade começa a agir contra o Bounce, Fluência e Vocabulário da Hip Hop Dance. A distância entre cada pulso da música fica reduzida a ponto de a trajetória entre cada movimento que os representa praticamente deixar de existir. E nessa “corrida atrás do beat”, a dança some, deixando apenas os movimentos, desprovidos de fluência.

Quanto às Danças Sociais, estas tradicionalmente se desenvolveram a partir de músicas que se encontravam dentro desta faixa de BPM, portanto, a execução destes movimentos se dá de forma muito mais adequada quando este andamento é respeitado.

Ouvi de um grande DJ que “quando o Rap passa da faixa dos 110 BPM, esta música serve muito mais a um Bboy do que a um ‘Hip Hopper’”. Uma prática comum entre DJ’s é acelerar (drasticamente) a velocidade das músicas para gerar mais intensidade na battle. Na minha opinião, um ato falho. Ajustes finos são previstos e aceitáveis, mas não grandes alterações, visto que a música deve ser escolhida por já apresentar a intensidade e demais qualidades. Sem mencionar que alterações significativas no BPM ainda distorcem a trilha. O BPM deve ser alterado visando à dinâmica entre as transições e à variação dos estímulos aos dançarinos, e não ao acréscimo na força do beat. Se este já não for forte o suficiente por si só, não deveria estar no set. Se o beat tiver muito potencial, mas se apresentar abaixo dos 90 BPM, há a possibilidade de acelerar a velocidade da música, visando enquadrá-la na faixa de velocidade mais adequada. Porém, é preferível que o DJ faça uso do recurso “Time Stretch”, quando munido deste recurso, tentando não distorcer o tom original. Diminuir o BPM não é recomendado, já que a música perde muito em intensidade e dinâmica.

Por fim, é importante usar em uma mesma batalha, músicas com diferentes andamentos. Dessa forma, os dançarinos serão estimulados (e testados) de formas distintas.

3 — Vocais ou Instrumentais

É importante compreender que a Dança Hip Hop (discutivelmente) carrega este nome por ter sido a linguagem criada a partir da música a qual foi dado o nome comercial “Hip Hop Music” (ou seja, o RAP). Sendo assim, o estilo musical que melhor representa e estimula esta dança, é o Rap. As músicas com vocais têm muito a contribuir em uma battle. O ritmo, as melodias, o significado das letras, a intensidade, o estado de espírito, a personalidade… Tudo isso pode (e deve) ser utilizado como referência pelo dançarino. Porém, nem todos os Rap’s trazem elementos positivos à dança. MC’s sem flow, sem dinâmica, sem personalidade e que brigam contra o groove da música, além de não contribuírem, podem atrapalhar o bom desenvolvimento da dança, dado que todas estas qualidades negativas podem ser incorporadas à movimentação do dançarino. Portanto, na seleção do set, a qualidade dos Rap’s também tem de ser levada em consideração.

Caso o beat seja bom, mas o Rap não traga nada a acrescentar (ou até atrapalhe), a versão instrumental é uma boa opção. Músicas instrumentais são muito estimadas pelos dançarinos por trazerem o foco para um dos elementos mais estimulantes na estrutura musical — a linha percussiva. Além disso, sem a voz se sobrepondo, todos os outros sons que compõem a trilha podem ser melhor percebidos, trazendo novas possibilidades de interpretação. As “Instrumentais” não fogem à regra geral, e também devem apresentar personalidade, groove, intensidade e variações. É muito comum versões instrumentais de músicas originalmente produzidas para um Rap não apresentarem variações na estrutura, sendo organizadas como um loop contínuo. Pouco estimulantes, estas versões devem ser evitadas.

Há ainda as músicas que apresentam elementos instrumentais característicos do “Hip Hop” (principalmente no que diz respeito à parte percussiva), mas ao invés do Rap, contam com vocais melódicos, tradicionais do R&B. Estas músicas também são bem-vindas, desde que estejam enquadradas nas considerações acima (dotadas de personalidade, intensidade, groove e variações). Frequentemente, ao tentar interpretar o ritmo, dinâmica e duração dos vocais de R&B, boa parte do vocabulário tradicional da Hip Hop Dance se mostra ineficaz, já que as Danças Sociais geralmente são estruturadas em trechos de um, dois ou quatro tempos de duração e uma parte considerável da estrutura da linha vocal do R&B apresenta durações mais longas e contínuas. Por conta disso, é muito comum os dançarinos se utilizarem de técnicas sistemáticas como Waving ou ainda, de movimentos oriundos do vocabulário de linguagens como o Jazz Dance e a Dança Contemporânea para interpretarem as linhas vocais longas. Tudo isso influencia o resultado final da Batalha e deve ser levado em consideração pelo DJ.

4 — Orgânicas e/ou Sintéticas

As músicas consideradas “orgânicas” são as que apresentam significativamente em sua constituição sons emitidos por instrumentos acústicos (diretamente captados ou mesmo sampleados). Além disso, normalmente apresentam som mais “quente”, graves profundos e bem inseridos no conjunto. Além disso, é esperado que contenham maior número de samples, geralmente trazendo a “sujeira” característica do vinil ou dos equipamentos mais rústicos. É a música mais “humana”.

As músicas consideradas “sintéticas” são as que apresentam significativamente em sua constituição sons emitidos por instrumentos eletrônicos (sintetizadores, baterias eletrônicas, etc.). O som geralmente é mais “frio”. Os elementos são dispostos com certa distância uns dos outros, dando uma sensação de diferentes profundidades. Se apoiam menos em samples e mais em sintetizadores. Comumente, o snare (caixa) é representada por um “clap”.

Mesmo não sendo possível uma generalização, normalmente, músicas mais orgânicas possuem mais groove. Isso porque os espaços são melhor preenchidos, trazendo mais fluência à música. Além disso, com um maior uso de samples, o Funk e o Jazz estão mais presentes (sendo estas as referências mais utilizadas pelos beatmakers). Lembrando que a fluência e o bounce são elementos imprescindíveis à Dança Hip Hop, este estímulo musical direto não só tem o poder de potencializar estes elementos, quando já existentes na expressão do dançarino, mas também de expor a ausência dos mesmos. A grande maioria das Danças Sociais foram criadas e desenvolvidas a partir de músicas essencialmente orgânicas e sendo assim, tais movimentos sempre farão mais sentido quando apoiados por estes estímulos sonoros. Outra característica importante é a “malandragem” que a maioria das músicas “orgânicas” trazem consigo. Mais uma herança das músicas sampleadas, esta é uma influência muito importante para a expressão corporal na Dança Hip Hop.

Os samples também contribuem para a organicidade final por carregarem consigo características dos músicos que geraram os sons. Groove, por exemplo, assim como entendido por Ethan Hein, diz respeito essencialmente à capacidade humana de intencionalmente não seguir o “grid” à risca (o mesmo grid que rege o espaço-tempo na produção musical eletrônica), gerando “humanidades” na interpretação.

Roland TR 808

Por fim, no que diz respeito às bases de vocabulário, gestual, estrutura da dança e personagem, a própria criação e desenvolvimento da Dança Hip Hop está intimamente ligada aos timbres orgânicos. Com excessão de algumas baterias eletrônicas como a TR 808 e a TR 909 (e uma lista concisa de sintetizadores), mesmo existindo desde o final dos anos 70, as sonoridades sintéticas, apenas passaram a ser utilizadas em grande escala na produção de beats para Rap nos anos 2000. Sendo assim, os períodos mais significativos no desenvolvimento da Dança Hip Hop aconteceram apoiados pelos timbres mais orgânicos e pelos samples.

Já as músicas mais “sintéticas” normalmente apresentam timbres que estimulam o uso de técnicas sistemáticas como Waving, Warping, Isolation, a contração muscular oriunda do Popping e Slides. O fato de o som ser mais sintético faz com que a dança também seja mais sintética. Em outras (e mais exageradas) palavras, menos humana e mais robótica. Nestes casos, há geralmente um ganho no virtuosismo técnico dos dançarinos, o que é positivo para a batalha. Por serem beats entendidos como “mais atuais” e que foram extensivamente utilizados nas Battles mais populares do mundo (como o Juste Debout, por exemplo), tais músicas têm grande aceitação pelo público (e por grande parte dos dançarinos), o que gera alto nível de empolgação.

Tendo como foco a batalha, é importante que haja um equilíbrio entre estas diferentes linhas de produção musical. Os diferentes timbres não apenas estimulam de formas diferentes os dançarinos, mas também os testam, exigindo alto nível de adaptação e interpretação. Um dançarino de batalha deve ter conhecimento musical abrangente dentro dos estilos que apoiam a Dança Hip Hop e estar preparado para lidar com o maior número possível de estímulos. É importante, por exemplo, que os “clássicos” sejam alternados com os “lançamentos”, entendendo que os competidores devem ter um conhecimento musical cronologicamente diversificado.

5 — Turntablism

É vetado ao DJ fazer uso de sua atuação numa Battle para expor suas habilidades no Turntablism. Scratches, por exemplo, são muito bem-vindos quando utilizados nas transições entre músicas, porém, enquanto a batalha está acontecendo, este elemento atrapalha muito a interpretação por parte dos dançarinos e deve ser evitado. O reconhecimento do DJ de batalha virá pela sua boa atuação como “Selecta” e não como “Turntablist”.

Concluindo:

  • O DJ deve estar presente de corpo e alma na batalha
  • Deve se esforçar para promover uma intensidade que ascende gradativamente até alcançar o clímax na final
  • Deve ter ao menos a mínima ideia de “o que é dançar”
  • Deve apreciar verdadeiramente e estudar profundamente o tipo de música que toca
  • Deve não tentar impor a vibe, mas entender o ambiente e jogar com ele
  • Deve conhecer seu equipamento
  • Deve trabalhar em conjunto com os jurados das batalhas
  • Deve amar o que faz

Bom trabalho e boa batalha…