Lugares Fascinantes: Israel

Quase um dia inteiro, entre aviões, saguões de aeroportos e numerosas filas. Esse foi o tempo que meu destino separava-me de minha terra natal, lugar onde eu jamais havia me aventurado a sair. Durante todo esse tempo, sobretudo sentado na apertada poltrona do avião, pensamentos e anseios insistiam a borbulhar em minha cabeça, e acredito que isso acontecia também com alguns colegas que estavam partindo comigo. Como é efetivamente estar em um país e região tão distantes, não só geograficamente, mas também de minha cultura e realidade? Quem são as pessoas que vivem nesse lugar? O que elas pensam sobre o mundo, sobre seus mundos? O que gostam de fazer nos finais de semana? Como lidam com a latente tensão política, religiosa e bélica daquele lugar? O que se vê através da janela do carro? Que carro? Como são as ruas, construções? … Deserto? Praia? Afinal, o que vou encontrar?

Essas eram algumas das muitas divagações que passavam pela minha cabeça, e que me fariam ir atrás de suas respostas ou entendimentos, afinal, já estava completamente imbuído da ideia de, assim como Merleau Ponty, descobrir os modos de “amar, viver e morrer” desta gente e deste lugar.

A atividade cerebral durante as dezoito intermináveis horas dos voos era tão intensa que acabou por bloquear totalmente minha fome. O primeiro, de São Paulo à Istambul; o outro de lá para Israel. As refeições rejeitadas iam parar invariavelmente ao meu lado esquerdo, onde um grande amigo de longa data jazia, saciando sua fome de touro habitual. Eduardo e do meu outro lado Marcelo, eram às únicas pessoas que eu conhecia do grupo de jovens formado para esta trip. Jovens de berço abençoado, que agora rumavam para a descoberta de outro mundo, que conheciam apenas pelos livros e por alguns VHS de História e da Bíblia, durante os tempos fraternos de escola; mas que agora veriam e sentiriam com seus próprios olhos e com todos os sentidos que couberem no corpo e no espírito. E nada como uma viagem para satisfazer as inquietações do espírito…

Um simples sanduíche, dois bolinhos, sete copinhos de orange juice e uma bala de limão fora toda minha alimentação nesse dia que finalmente chegava perto do fim.

Nosso destino teve sua origem como território independente apenas no ano de 1948, depois de uma resolução posta na Assembleia Geral da ONU, onde previa dividir o então estado Palestino em duas partes: um árabe e outro judeu. Criava-se assim “Eretz Israel”, como chamam por lá o Estado de Israel. O ano seguinte ficaria marcado para sempre na história mundial como início efetivo do conflito e aversão que perduram até hoje na região, opondo, em uma macrovisão da questão, judeus e Israel ao povo palestino. Com a independência do país, a Palestina teve partes de seus territórios ocupados pelo novo estado, e foi acudida pelos povos árabes circundantes. Egito, Síria, Líbano e Iraque começaram a praticar invasões e pedir a revogação das terras que antes eram de todos.

Esse é o infeliz estopim de uma guerra e um ódio histórico disseminado principalmente por extremistas de ambas as partes, e que impedem até hoje um acordo de paz definitivo para uma situação que acontece há 68 anos, atraindo em certos momentos o noticiário midiático mundial, o que ajuda a compor um cenário de enfrentamento, através de discursos e ações movidas por interesses políticos e econômicos que acabam por se confundir com os religiosos; um território que vive em permanente tensão e periculosidade, sobretudo nas regiões fronteiriças com a Síria, Gaza, Cisjordânia e Líbano, que ao poucos a viagem comprovava, ao observar cidades, costumes e conversando com alguns israelenses e moradores, como duas soldadas brasileiras que moravam por lá, e que tivemos o prazer de conviver durante metade da viagem.

Aliás, esse negócio de exército por aqui é coisa séria. Além de ser obrigatório para todo cidadão israelense, o país gasta todo ano bilhões de dólares na defesa de seu território, através de monitoramentos e patrulha das fronteiras com o Líbano, Gaza, Síria, Cisjordânia, Jordânia e Egito, além do mar! Dinheiro que poderia ser destinado a tantas outras estâncias se a realidade de origem e disputa pelo local fosse diferente. O que vi foi um país desenvolvido: saúde e educação não são problemas por aqui. Um país de cidadezinhas e um povo simples. Não me pareceu um, vamos dizer, país rico, com pessoas felizes esbanjando seus bens pelas ruas, desfilando em carros supermodernos e toda essa configuração de uma sociedade de consumo que assistimos no ocidente. Não há nada disso. Há pesados investimentos em tecnologia de ponta para fabricação de armas e equipamentos de defesa antiaéreos, usados pela Israel Defence Forces, “Força de defesa de Israel”, como chamam o exército. Não é incomum ver integrantes à paisana pelas ruas, shoppings centers, hotéis, em qualquer lugar, portando metralhadoras de todos os tipos, desde a famosa Uzi (remasterizada é claro), a outros tipos mais complexos que saltaram aos meus olhos.

Lembro-me de um dia estar no hall do hotel de uma cidadezinha ao redor de Jerusalém, esperando junto com outros amigos o ônibus que nos levaria para conhecer a parte sagrada da cidade, quando observei um belo casal no balcão de entrada, tratando algum assunto com o recepcionista. Além da beleza que angariava a atenção de todos que passavam pelo local, a dupla carregava duas armas: ela uma pequeníssima metralhadora cinza fosca pendurada acima dos ombros e envolvendo o corpo como uma bolsa de carteiro, sem é claro perder sua robusta elegância; o rapaz, que deveria ter no máximo uns 30 anos, portava da mesma forma uma metralhadora, esta preta toda cromada e cheia de compartimentos. Havia um grande tubo embaixo de onde eu imaginei que saíam os tiros. Será que lançava granada também?

Assim como os homens, as mulheres israelenses aptas são recrutadas aos 18 anos de idade, servindo por um período inicial de dois anos. Após o cumprimento desse serviço, elas servem na reserva uma vez por ano, até os 24 anos de idade (enquanto seus pares masculinos servirão até os 40 anos de idade). Na foto, duas soldadas que representam a fama mundial da IDH de mulheres bonitas em seu regimento

Após pegar a bagagem da esteira do aeroporto e cambiar dólares por checkels, moeda corrente no país, nosso grupo apanhou um ônibus para ir até a primeira cidade, onde tomamos um café da manha ao estilo israelense, muita batata, ovo, saladas, atum, hummus (um alimento típico dos árabes feito a partir de grão-de-bico cozido e espremido, azeite, suco de limão, sal e alho). Não posso dizer que estava cansado. Apesar das horas infindáveis naquelas máquinas de voar, a ansiedade por conhecer e explorar o novo parecia produzir um efeito enérgico sobre todos.

No caminho para Cesareia e ao longo de todas as viagens entre cidades e regiões que iríamos explorar, a grande janela do ônibus era perfeita para perceber uma paisagem que nos acompanharia na maior parte dos trajetos que iríamos fazer diariamente neste país de dimensões reduzidas, onde em um dia se pode ir do sul ao norte por 470 quilômetros de estrada, ou da ponta leste a oeste em sua largura máxima, que é de 135 quilômetros. Campos desérticos, uma vegetação e relevo próprios denunciavam que chuva alguma havia molhado aquelas terras há meses; mas em certos momentos, além das plantas arbustivas, avistavam-se consideráveis áreas verdes, com palmeiras, oliveiras… Até uma plantação de bananeiras apareceu, demonstrando que mesmo naquele deserto a tecnologia permitia a prática de uma agricultura sofisticada, como o grupo presenciou depois em uma visita a um mochav, uma espécie de campo de trabalho especializado com moradia para os trabalhadores, no caso agrícola. Evoé. Andamos por parreiras de diferentes tipos de tomate (oito tipos) e plantações de cenouras roxas, marrom, brancas, normais e diversas hortaliças em uma estufa. Incrível ver, tocar, experimentar e pensar como tudo aquilo podia crescer em meio a um lugar tão seco e quente.

O tamanho de Israel pode ser comparado, em área (km²), com o estado de Sergipe no Brasil

Em determinados lugares e horários, quase não se viam pessoas nas ruas, assim como não se via gado ou qualquer atividade pecuária nas áreas que margeiam ás estradas, como é de costume nas rodovias pelo Brasil. Fatos em grande parte explicados pelo intenso calor e sol que por aqui faz todos os dias no verão, onde a sensação térmica pode ultrapassar facilmente os 50ºC. Toda vez antes de descer do ônibus para algum passeio específico, o guia da viagem alertava todos com veemência e uma seriedade que eu não via há tempos:

Bebam muita água e levem chapéu ou algo para cobrir as cabeças. Aqui é clima de deserto, não é brincadeira, não queiram passar mal por desidratação. É muito sério. Eu sei como é.
15h de um dia de semana e quase não se vê pessoas andando nas ruas

TZVAT

O primeiro distrito que efetivamente paramos para conhecer é uma cidade religiosa de casas e ruas inteiras construídas por rochas basálticas, o que lhe confere um ar antigo e uniforme. A sagrada Tzvat é conhecida por ser um lugar de importância mística da Kabala, o livro misterioso e emblemático sobre estudos e interpretações da Torá, a bíblia dos judeus. Seria algo como uma revelação feita por Deus para que alguns homens a decifrassem, a respeito de todos os mistérios da existência. Passeamos um pouco pelas pequenas ruas, calmas e tranquilas, onde vez ou outra passavam alguns jovens estudantes com kipá na cabeça, um paninho em formato redondo, que no judaísmo significa a “que a mão de Deus está em sua cabeça”. Ou vestindo trajes pretos semelhantes a um terno, um tanto quanto inapropriados para aquele dia de intenso calor, mas que para eles era importante pelo simbolismo e religiosidade que a vestimenta representava. Conhecemos alguns rabinos de barba longa em uma famosa sinagoga do distrito, onde tivemos uma breve explicação sobre a história do local e a criação da Kabala, seguido por um interessante debate sobre o caso do soldado Shalit, que fora sequestrado por uma emboscada de fundamentalistas do Hamas e recentemente devolvido à sua família em Israel, após o governo israelense autorizar à libertação de mil presos, que haviam cometido diferentes crimes, inclusive assassinatos. O caso causou grande polêmica e repercussão em todo país.

Como agir em tal situação, com o coração ou com a razão? Era a grande questão proposta no encontro, relacionando a pergunta com a decisão polêmica do governo, que o meu ver teria sua reposta em um equilíbrio. O problema aqui é a falta de sensatez da ideologia extremista, de ambos os lados embora com configurações diferentes, mas que jogam por água abaixo todo esforço pela paz, ou por uma estabilidade. A notícia que ainda estampava os jornais no momento da minha chegada: “Três crianças israelenses são sequestradas por integrantes do Hamas”. Após nove dias: “Crianças sequestradas são encontradas mortas”. E quatro dias depois, quando já havia deixado o país: “Israelense mata criança palestina de cinco anos em Jerusalém”.

A pequena cidade de tzvat é conhecida no judaísmo por sua importância mística relacionada a Kabala
Artistas e músicos são comuns ao ar livre no centro histórico da cidade

SDEROT E A FAIXA DE GAZA

Olhares atentos nas janelas e ninguém dormindo ou cochilando. De fato todos estavam ansiosos para ver com os próprios olhos a famosa Faixa de Gaza, que tanto conheciam dos noticiários televisivos. De Sderot, cidade pacata e aparentemente tranquila, era possível ver a região de Gaza ao horizonte, cercada em parte por um muro “de separação” que vem sendo construído pelo governo israelense desde 2002, e que trás profundas consequências à relação entre as duas partes. E que experiência memorável foi conhecer essa cidade. Como esquecer a pracinha que visitamos e que tinha uma centopeia gigante, que na verdade era um bunker, um esconderijo para as crianças e todos se protegerem de eventuais ataques por mísseis, ao ressoar de uma sirene que se escuta em toda cidade? E os monumentos feitos com restos de projéteis caídos em solo israelense? E o depósito dos projeteis? Que loucura é essa que sustenta uma guerra sem fim? Saímos de Sderot com mais perguntas do que respostas.

Depósito de misseis em Sderot; projetéis recolhidos em solo israelense
Além de diversão para as crianças, o corredor da centopeia gigante foi idealizado para funcionar como esconderijo e proteção em eventuais ataques aéreos vindos da Faixa de Gaza
O guia turístico mostrou diferentes desenhos feitos por crianças de um colégio de Sderot. Esse, em especial, foi o que mais me chamou a atenção

RUMO AO DESERTO

Depois do choque que foi se aproximar da Faixa de Gaza, o grupo precisava de um pouco de descanso e descontração, que foram atendidos por uma boa e longa noite de sono, seguido no dia seguinte por uma estupenda tarde de sol e piscina em um clube da cidade de Tiberíades, situada às margens do Mar da Galiléia, que na verdade é um grande lago de água doce, isolado de qualquer outro mar, rio ou oceano. É uma cidade calma e agradável, apesar do forte calor, e muito importante sob o ponto de visa religioso no país, por ser uma das quatro cidades consideradas sagradas no judaísmo, junto com Jerusalém, Hebron e Sefad. Depois de sair do clube e passar no hotel, todos entraram no ônibus e foram para o próximo destino, já que a noite reservava “algo de muito especial”, segundo palavras do guia, que cada vez mais se enturmava com todos — ou todos buscavam interagir com ele — um israelense simples mas de trato fino, cerca de 40 anos ou menos, que talvez angariava tanto a simpatia de todos por conta de sua lustrosa careca e um sotaque engraçado, quando falava português ao seu modo. Só de escrever sobre ele já me vem um sorriso instantâneo à face. Aos poucos, Dorón foi contando e explicando como seria a noite especial que estava por vir:

- Atenção todos! Estamos indo agora para o deserto da Judéia. Vamos conhecer um pouco da vida e cultura dos Beduínos, um povo que habita os desertos desde a Antiguidade. Peguem casaco porque à noite faz frio. Vamos dormir em uma tenda beduína.
Palavras de um companheiro de viagem: “Quem um dia imaginou que Israel fosse assim”

Bastaram poucos minutos para dar-me conta através daquela maravilhosa janela, que estava adentrando pela primeira vez em um deserto de verdade, desses que assistimos no cinema ou em casa como em Lawrence na Arábia, ainda que eu tenha comprovado depois com meus próprios olhos e pés, que a areia desse deserto não é como desses filmes clássicos que se passam no Egito. Não se observa nem se sente uma areia fofa e leve; aqui o chão é consistente, rígido, com a areia mais granulada e em um tom mais parecido com o marrom e caramelo do que um amarelo clássico.

Era mais um dia lindo que estava fugindo naquela imensidão cortada por uma estrada simples de asfalto, e ao fundo o infinito, onde o horizonte fazia aquela terra se encontrar com o céu. De repente, o motorista dobrou a direita, pegando um desvio por uma estrada de terra que nos levaria aos beduínos. Ainda era dia quando avistamos um emaranhado de diversas tendas, sustentadas por formidáveis vigas de madeira cobertas com tapetes de folhas de palmeiras. A noite incrível começou com uma conversa com um dos líderes daquele clã; na qual ele, com a ajuda de um tradutor, resumiram brevemente como acontecia suas vidas e o dia a dia deste grupo originário da península arábica e que leva em seu nome a tradução de “pessoa do deserto”. Um povo que tem como essência o costume da hospitalidade com qualquer viajante que esteja passando pelo deserto e precise de um lugar para descansar e se alimentar, afinal eles sabem mais do que ninguém como é duro viver ou estar em um deserto. Nessa difícil vida, os camelos, e no caso dessa tribo os dromedários, são fundamentais para sua sobrevivência, pois além do transporte, o animal fornece leite, carne e a pele. Um momento inusitado foi, quando o líder, ao ser perguntado sobre a questão da poligamia e se eles trocavam mesmo mulheres por camelos, fitou com os olhos uma das meninas do grupo e disse: Sim, em certas situações podemos troca-las por camelos. Quantos anos você tem?

Aquela conversa havia sido demais! E andar um pouco em cima de um dromedário: fantástico, cinematográfico. São imensos e meio desengonçados, quando comparados a um cavalo por exemplo. Mas tudo muda depois quando subimos e vemos tudo de cima com imponência e muita gratidão. Depois do passeio, veio a hora de aproveitar e desfrutar um tradicional jantar, onde todos se deliciaram com as iguarias da cozinha beduína que vinham à mesa, onde todos aguardavam sentados em almofadas ao chão. Talheres não. Mãos sim. E todos devoraram sem pudor o arroz, os kibes, pitas (um tipo de pão árabe), coxinhas de galinha temperadas suavemente e saladas e legumes coloridos.

A imponência do Deserto da Judéia
Descida da montanha de Massada, que significa “lugar seguro” ou “fortaleza”, é um imponente planalto escarpado e fortaleza natural, com penhascos íngremes e terreno acidentado. Ao fundo, o Mar Morto
O acesso só é possível através de uma trilha pedregosa que serpenteia a montanha
Líder de um clã beduíno fala sobre os costumes e tradições desse povo do deserto; ao lado (de camisa branca) Dóron, nosso guia na viagem
Dromedários tem papel fundamental no funcionamento da vida dos beduínos: além de ser um transporte, o animal fornece leite, carne e a pele
Tenda beduína para acomodar quem estiver passando pelo deserto e desejar um descanso
Iguarias da cozinha beduína

Quanta coisa em uma noite, e ela nem havia terminado. O céu tomado por uma infinidade de estrelas era um bom pretexto para ficar acordado, embora o cansaço nessa altura do campeonato fosse grande. Mas pensei: Não posso dormir, não sei quando vou ter uma noite dessas de novo em minha vida. Em determinados pontos, as estrelas se encontravam tão próximas que formavam uma espécie de poeira cósmica no céu, uma nuvem misteriosa e enigmática. Como dormir em uma noite como essa, em que posso ficar desenhando no céu e pensando nesse mundo infinito de possibilidades que vivemos? — Que loucura, estou em um deserto! Falei pra mim mesmo, deitado no chão e olhando para aquela noite fabulosa.

Eram quase 4:30 da manhã quando voltei para tenda, onde encontrei todos do grupo dormindo em sinfonia. Procurei um dos sacos de dormir vazios e deitei ali, com os pensamentos ainda latentes. Era bom mesmo que não estivesse com sono, pois em 10 minutos tocaria o alarme do líder do grupo para acordar todos para o próximo destino. Subir a montanha de Massada e ver o nascer do sol sob o famoso Mar Morto.

*fotos Henrique Faerman