Cage, Raio e Pantera: O papel dos heróis na representatividade negra

Luke Cage (Netflix, 2016) / Black Lightning (CW, 2018) / Black Panther (Marvel Studios, 2018)

Estamos na era em que a representação negra na indústria de Hollywood dá seus primeiros passos efetivos. Nos últimos anos temos escutado histórias das primeiras pessoas negras a conquistar reconhecimento dentro de uma indústria com séculos de existência. Pela primeira vez, porém, estamos ouvindo dessa representatividade dentro das produções destinadas a heróis.

Enquanto, nos quadrinhos, heróis negros vem quebrando barreiras desde de 1966, quando o Pantera Negra fez sua primeira aparição em quadrinhos do Quarteto Fantástico, temos suas primeiras aparições nas produções audiovisuais acontecendo neste momento.

Claramente, os primeiros atores negros dentro do mundo dos super-heróis vieram antes disso, na forma de Mulher-Gato, Falcão e Tempestade. Apesar disso, tivemos personagens com pouco protagonismo, em uma grande equipe, ou apenas servindo para a resolução de pequenas histórias dentro de um grande roteiro. Essa é a hora do protagonismo.

Enquanto ainda enfrentamos grandes críticas envolvendo a introdução de personagens negros em grandes produções de Hollywood, como Star Wars e Quarteto Fantástico, temos o esforço de outras produções que colocam seus personagens no total protagonismo, sem ignorar todas as questões que envolvem ser negro na sociedade atual.


Luke Cage (2016), disponível para streaming na Netflix. Na foto: Rosario Dawson (interpretando Claire Temple), Mike Cotler (interpretando Luke Cage) e Simone Missick (interpretando Misty Knight). Elenco também conta com a atriz Alfre Woodard e o ganhador do oscar Mahershala Ali.

Luke Cage: um homem negro de capuz pode ser um herói.

Em 2015, Mike Colter fez sua primeira aparição como Luke Cage, na série solo da Jessica Jones. Apenas em 2016 ele ganhou sua série solo na Netflix, parte do plano para a estréia dos Defensores no universo da Marvel.

Dessa vez, porém, Cage não tomou a posição de sidekick ou do herói negro em uma equipe. Eles abraçaram suas raízes.

A série se passa em Harlem, grande centro cultural afro-americano de Manhattan, em tempos atuais de repressão. Sua trilha sonora é repleta de artistas afro-descendentes e de estilos como o rap e o hip-hop, além de todos os episódios terem o nome de uma música da dupla Gang Starr.

Além destes “detalhes” de produção, a série de Cage possui um elenco predominante negro — o mínimo a se fazer ao contar a história de um cara negro que vive nos subúrbios de Nova York — e enfrenta, sem descanso, assuntos como preconceito, criminalidade e violência policial.

A importância da série está em não esconder nenhum dos principais assuntos que poderiam ser levantados. Temos um subúrbio controlado pela corrupção de seus principais líderes e uma máfia comandada por um grande chefe do crime. Ambos representam o poder e, logo, dão direito ao tratamento absurdo de uma força policial e uma imprensa que utiliza a cor da pele para criar um conto de medo.

Neste meio, um ex presidiário, negro e a prova de balas, que anda pelas ruas sem medo, se torna a principal figura a ser temida. Neste momento, ninguém se importava se sua sentença era incorreta, ou o que ele realmente estava fazendo. Um cara negro e poderoso, com toda certeza, deveria ser o inimigo político número um, enfrentando repressão violenta não apenas por suas habilidades, mas pela cor de sua pele.

No mundo real, ele demonstra ser um dos primeiros exemplos de perseverança, sacrificando a própria imagem por sua comunidade. Um sinal de esperança para todos aqueles que foram diminuídos e ignorados por fazerem parte de um ambiente tóxico e uma sociedade que não admite ou corrige seu preconceito enraizado.

Luke Cage, apesar de todas as críticas dos telespectadores, fez seu trabalho de forma espetacular, ao utilizar um ótica a atual e sem maquiagens, e deu o primeiro passo de real protagonismo para negros na sociedade americana atual.


Black Lightning está em sua primeira temporada, no canal americano CW. Na foto: Cress Wiliams como o personagem principal Jefferson Pierce/Raio Negro.

Black Lightning: a importância de se tornar um exemplo

Nas produções cinematográficas da DC temos Viola Davis (Amanda Waller, em Esquadrão Suicida), Will Smith (Pistoleiro, também em Esquadrão Suicida) e Ray Fisher (Ciborgue, em Liga da Justiça), mas nenhum deles toma partido em representação real da cultura que fazem parte. Nas produções televisivas, em sua maioria do conhecido Arrowverse, possuímos alguns exemplos de coadjuvantes e heróis de apoio, nenhum deles tomando papel de protagonismo mínimo.

O primeiro protagonista negro da CW — não apenas herói, mas de todas as produções da emissora — é Jefferson Pierce, o icônico Raio Negro. Essa é a primeira produção live-action da DC focada especialmente em um herói negro, e faz jus a este papel. Ao contrário do resto do universo CW, Black Lightning faz questão de se ambientar em um mundo que sofre com as mesmas questões que passamos hoje.

Diferente de Luke Cage, o Raio Negro não é alguém sem nada a perder. Ele é um homem de meia idade e divorciado, pai de duas filhas e diretor de uma escola. Seu principal papel é ser um exemplo não somente para sua família, mas para toda uma comunidade que sofre.

Sua primeira tentativa como o vigilante, nove anos antes, resultou em perseguição e seu divórcio, e desde então ele resolveu esquecer seus poderes para poder focar em uma responsabilidade menos violenta: cuidar de crianças e adolescentes que fazem parte de um sociedade corrompida, dentro da cidade que vive.

O que faz Jefferson Pierce resolver que está na hora de voltar é a sua família, que acaba envolvida na realidade dolorosa de uma cidade que conta com uma força policial autoritária e nenhum tipo de medida contra a real violência do subúrbio. O sentimento de impunidade é o principal combustível. Sua luta mais importante, porém, não está na frente de vigilância.

Como diretor e pai de família, ele tem um papel muito mais significativo em proteger seus alunos e filhas do tratamento racista e da realidade dura que vivem. Em um local em que homens negros são violentamente revistados na frente de sua família, manifestantes são atacados pela força policial e escolas são vitimas da violência armada, ele precisa se colocar na linha de fogo.

A principal conquista do Raio Negro, em seu episódio de estreia, é prezar por se tornar exemplo, e mostrar que uma comunidade antes subestimada pode tomar conta de si e encontrar meios de se reerguer. A perseverança encontrada em alguns habitantes da cidade fictícia de Freedland, que fazem o máximo para evocar mudanças, é o melhor exemplo de como comunidade afro-descentes possuem uma força transformadora, sempre ignorada por produções.

As cenas de luta e efeitos especiais estão lá, mas tomam segundo plano para uma história rica de representação.


Black Panther faz parte do universo cinematográfico compartilhado da Marvel, e estreia nos cinemas brasileiros em fevereiro de 2018. O elenco conta com Chadwick Boseman (como o protagonista), Michael B. Jordan, Angela Bassett e Danai Gurira.

Black Panther: o representante em um universo fantástico

Na Marvel dos cinemas, vemos um universo utópico comandado por Homem de Ferro sendo construído há 10 anos. Temos alienígenas, mutantes e deuses nórdicos, e, só agora, um protagonista negro. Sim, a equipe dos vingadores possui Nick Fury e o Falcão, mas eles são construídos como meros coadjuvantes na luta de Tony Stark e Steve Rogers. A coisa muda com T’Challa, que já agiu como Pantera Negra anteriormente no universo Marvel.

Como parte de um universo fantástico, Pantera Negra da um passo diferente na representatividade negra. Ao invés de ser o membro de uma comunidade suburbana sob a violência causada pelo preconceito, o protagonista é príncipe de seu próprio país fictício, Wakanda.

O país Africano ainda comandado como reino representa poder, e traz a figura de guerreiros preparados para uma batalha épica. O filme traz papéis grandiosos para seu elenco principal, composto por nomes de peso na indústria — muitos deles que participam ativamente na luta pela representação negra em Hollywood.

O herói conta com suas habilidades de batalha, inteligência e seu exército para contar uma história fantástica. Sem poderes, Pantera Negra promete ser a prova que atores negros vem sendo ativamente ignorados em grandes produções.

Além disso, como parte deste universo, a produção vem com uma mensagem simples: você não precisa ser um mutante, um homem branco bilionário ou um soldado americano para ser fantástico. O poder de suas raízes pode te tornar um herói.


O desenvolvimento de produções como estas vem com um papel simples na sociedade atual. Essa é a hora de cortar relações com um passado de preconceito institucionalizado e exaltar a riqueza de personagens negros por toda a comunidade de super-heróis.

Temos como exemplo alguns grandes momentos de valorização negra na indústria, liderados por grandes nomes como Viola Davis, mas não se deve parar por aí.

Ainda há um longo caminho a ser seguido, tendo em vista as críticas que a introdução de personagens negros ainda criam.

Assim como os quadrinhos, a indústria cinematográfica tem a capacidade de ressaltar o quanto protagonistas negros podem ser incríveis e capazes. A principal preocupação, porém, deve ser a de não se esquecer das raízes destas pessoas.

Um mundo utópico em que um homem negro e poderoso não sofre qualquer questionamento, ou que problemas como o racismo não assombram a sociedade não passa disso: utopia. Estamos enfrentando momentos de caos social e político.

A representação, completa e real, cria muito mais que apenas identificação — ela cria esperança. Isso não deve ser ignorado.