Menos de Nós: Todo desejo tem uma reação

Peça de formação do curso Técnico de Arte Dramático possui dramaturgia e direção de Adélia Carvalho.

Imunda, submissa, criminosa. O retrato de uma visão social deturpada por conceitos impregnados pela cultura de ódio. Um ambiente atemporal, onde ter controle sobre sua própria vida um ato criminoso. Onde defender sua integridade física se torna sacrifício. Onde Maria se torna signo da falta de moralidade.

A peça Menos de Nós, primeiro produto de formação da turma de teatro do CEFARt 2015, nutre três narrativas que recriam o mito de Medeia, tragédia grega de Eurípedes. Três Marias se tornam vítimas de uma imposição político-cultural que cultiva a impotência sobre sua própria identidade.

Na primeira narrativa, um casal apaixonado que, pelo peso das decisões, tropeça em evoluir sob a pressão de suas crenças pessoais. Na segunda, a ausência paterna que se entrelaça em questões raciais e de respeito. Na terceira, a atualidade da opressão cultivada em nosso próprio lar, que mata milhões de jovens diariamente.

Carlos Lauro e Flávia Aniceto representam um casal separado por correntes raciais e sociais. (foto: Paulo Lacerda/divulgação)

A dramaturga e diretora Adélia Carvalho constrói uma história de desejo, que apela pro nível mais íntimo de cada personagem. O desejo de ter controle sobre o próprio corpo, de ser ouvido, de se sentir realizado. O desejo intrínseco de pertencer, em uma sociedade que não se mostra disponível para te aceitar. De escolher seu futuro e ser compreendido.

Com um desenrolar que se mostra ousado desde sua primeira cena, a narrativa explora relações viscerais e um conjunto surpreendente de diálogos e decisões dolorosas. A dramaturgia representa o amor que se mancha pelo ódio, a manipulação que desenvolve a opressão, e o desejo pelo poder. A direção se beneficia da atemporalidade das lutas politico-sociais representadas, e traz um material capaz de revelar a química de um elenco que se dedica às sutilezas da intimidade.

Os tópicos abordados, muitas vezes considerados “pesados”, fogem da vilania exagerada e representam lutas internas que se mantêm por décadas. Afinal, como vencer um ambiente que se recusa a aceitar suas decisões? Como evoluir relações que se baseiam em sua fraqueza? Como mudar os olhos de uma sociedade que já decidiu o lugar a qual você pertence? Todas são questões que transcendem aos personagens e atingem a todos os presentes de modo repentino.

Uma surpresa bem vinda é a dedicação encontrada na construção de personagens profundos. Até mesmo os aqueles marcados pelo egoísmo possuem uma motivação interna vibrante, que entram em contato com nossos conceitos prematuros e superficiais. Todos os rostos, com seus próprios desejos e necessidades, são capazes de tocar uns aos outros, e levam a plateia à reflexão.

É impossível não passar por um momento sequer de identificação ou, no mínimo, empatia. Todos sabemos que tais narrativas não são fictícias. Sabemos como, ainda hoje, pessoas são apedrejadas pelo simples desejo de ser. Um desejo que se torna protesto, e reitera o papel do teatro político, cada vez mais necessário.

O resultado apresentado no palco é ousado e cativante. A mensagem, clara. Tenho orgulho de conhecer um elenco tão dedicado, que, desde seu primeiro encontro nos corredores do (então) Cefar, no fim de 2014, vêm enfrentando e triunfando sobre todas as decisões infelizes de uma gestão pouco compreensiva. A dedicação dessas pessoas que assumiram a responsabilidade de desenvolver a arte em meio a tanta turbulência. Talvez a maior conquista desse grupo seja a perseverança de criar em meio a adversidade.

Alunos do Palácio das Artes enfrentam grandes desafios para manter a escola, devido à falta de comunicação nas decisões da gestão, que afetam sua formação artística e o cenário belo-horizontino.

Espero que todos que se sentarem à platéia pelas próximas semanas sejam capazes de absorver esse sentimento de coragem. Que sejam mais ativos na batalha contra a opressão. Que ouçam o apelo dessas vozes que representam a aceitação e a arte, e que protestam em alto e bom som.

#MenosPalácioMaisArtes

MENOS DE NÓS

Dramaturgia e direção: Adélia Carvalho

Em cartaz até 16 de julho, no Teatro João Ceschiatti (Palácio das Artes)

De quarta a segunda-feira, às 20h, e domingo, às 19h.

Entrada franca.