Mr. Robot: Oversharing, consciência moral, e vida virtual

“Nossa democracia foi hackeada.”

Estamos numa sociedade dominada pelas grandes empresas. Não é algo novo de se dizer. Nos últimos anos vemos um grande crescimento de empresas que, graças a integração vertical, dominam cada vez mais diferentes categorias de consumo. Apesar da comodidade, — afinal, não é mais fácil ter vários produtos de uma mesma marca? — esta dependência causada pelos conglomerados traz consequências que não são muito discutidas. Nossos dados de consumo, de crédito, e até pessoais, são posses destas multinacionais. Quem ousaria, dentro de uma economia tão fechada e dominada, espalhar pensamentos de rebelião e liberdade? Estes são os ideais mostrados em Mr. Robot.

A série televisiva, criada por Sam Esmail, estreou em junho de 2015 na USA Network, e é transmitida no Brasil pelo canal Space. Nela seguimos Elliot Alderson (Rami Malek), um jovem que, durante o dia, trabalha em uma empresa de proteção digital, mas que a noite atua como hackivist, denunciando pessoas que cometem crimes digitais.

Apesar de ter uma premissa aparentemente simples, a série mostra um desenvolvimento inteligente, e usa seu próprio modo de storytelling para convencer os telespectadores do que é mostrado, de modo sutil. Estamos na mente de Elliot, que além de hacker habilidoso, sofre de ansiedade social e outros casos psicológicos. Seguimos seus passos, e somos tratados como um observador conhecido pelo protagonista. A estrutura de quebra da quarta parede, porém, não é convencional. Elliot interage com os telespectadores de um modo único: não somos um público, mas sim um personagem da trama. Somos fruto de sua mente, um amigo confidente que deveria ajudá-lo, ou simplesmente ouvi-lo, quando se encontra em situações duvidosas.

Rami Malek interpreta Elliot Alderson, protagonista de Mr. Robot. Sua performance rendeu várias indicações a grandes prêmios da indústria televisiva.

Um ponto muito interessante, tratado de modo recorrente, é a mania humana de oversharing, adquirida com o avanço tecnológico dos últimos 5 anos. Gostamos de mostrar o que fazemos, o que comemos e com quem estamos, sem nenhum tipo de precaução com o que isso pode dizer sobre nós mesmos. E o que não compartilhamos, ainda deixa traços digitais: sites que visitamos, compras que realizamos, pessoas que mantemos contato fiel. Não há dúvidas que tais comportamentos servem para traçar um perfil psicológico conciso de qualquer pessoa que faz uso moderado da web, e mais ainda de heavy users.

Elliot se aproveita disso. Com todos os problemas que possui de criar novas relações humanas, ele racionaliza, e aproveita de suas habilidades, para hackear, e assim, conhecer, todos a sua volta. E, do mesmo modo que guardamos todos nossos amigos em uma lista de rede social (que contém todas as suas fotos, acontecimentos e interesses), Elliot possui uma pasta, em que guarda todos que conhece: seu próprio e unicamente peculiar banco de dados.

Christian Slater interpreta o misterioso mentor de Elliot, conhecido pelo codinome Mr. Robot.

Além de apresentar os problemas causados pela dependência digital, o montante de informação acumulado na web, e as relações interpessoais, a série apresenta seu próprio monomito* (ou “Jornada de Herói” — explicação ao fim do texto), quando Elliot é contatado por um misterioso homem, associado ao codinome de Mr. Robot (Christian Slater). Este homem propõe uma tarefa difícil para o protagonista: se juntar a uma organização secreta chamada fsociety, e destruir um conglomerado que ele, até então, ajuda a proteger. Um mundo novo se apresenta: uma equipe de hackers com diferentes motivações, uma base de operação e novas atividades secretas. Tudo contribui para a crescente paranoia de Elliot, e traz dúvidas morais a sua busca, afinal, é seu dever proteger o conglomerado de ataques digitais, mas, se colaborar com o plano, muitas pessoas ficarão livres de dívidas essencialmente capitalistas, produzidas pelo consumo incitado pela sociedade atual.

A trama, porém, toma rumos completamente inesperados. Sem aviso, somos apresentados a situações de extrema adrenalina, culpa e desejo, que causam estranhamento e desconforto. Mas, como estamos na mente de Elliot, somos levados a criar empatia pelo personagem, e então nos sentimos tão frustrados — ou realizados — quanto ele. Até que, em um de seus episódios finais, tudo muda. A Jornada de Herói toma outro caminho, e nos surpreende com um plot twist completamente impossível de se imaginar, que nos deixa parados por alguns minutos para processarmos o que realmente aconteceu, e até mesmo nos faz duvidar de tudo que vimos anteriormente na produção.

Martin Wallström interpreta Tyrell Wellick, um dos personagens secundários mais emocionalmente investidos na trama.

Acrescentando mais à trama, somos apresentados a personagens secundários intrigantes, reais e intensos, que se relacionam paralelamente à jornada de Elliot, e se envolvem, muitas vezes sem o conhecimento próprio. Um destaque se encontra em Tyrell Wellick (Martin Wallström), um profissional ambicioso que, como o desenvolvimento da trama mostra, faz de tudo para ser bem sucedido, e nos leva a alguns dos momentos mais intensos da produção. Outros personagens, como Darlene (Carly Chaikin), Gideon (Michel Gill), Shayla (Frankie Shaw) e Krista (Gloria Reuben) são responsáveis pela carga emocional, e muitas vezes motivam Elliot em suas decisões. Qualquer descrição maior que esta pode se transformar em um grande spoiler.

Para finalizar, digo que o que mais me atraiu na produção, é a sua capacidade de nos colocar em sintonia com o protagonista. Na grande maioria das ocasiões, sabemos apenas o que ele sabe, e descobrimos coisas enquanto ele descobre. E, mesmo quando ele não está presente, somos levados a associar as coisas como se estivéssemos em sua mente. O maior exemplo é o modo como o conglomerado principal é tratado. Nos primeiros minutos, vemos que a grande empresa se chama E-Corp, mas assim que Elliot nos conta que associa o “E” a uma abreviação da palavra “Evil” (Mal/Perverso), tudo muda, e então a conhecemos como Evil Corp. Este inclusive é o modo como todos os personagens a chamam, e até mesmo as logos espalhadas pelos episódios (como um product placement fictício, usado para fixar a ideia de presença ininterrupta) nos trazem à associação. Este é um modo interessante, simples e funcional de mostrar que Elliot é um narrador parcial, e estamos expostos a suas conclusões.

Mr. Robot é, em minha opinião, uma obra-prima da USA Network, e, sem dúvida a melhor série de TV a cabo transmitida no último ano (e talvez a melhor série do ano — entrando em competição acirrada com séries de streaming da Netflix). Sim, Mr. Robot mereceu todas as indicações e prêmios recebidos em grandes premiações, como o Globo de Ouro e o Critic’s Choice Awards, que incluem Melhor Série de Drama de 2015, Melhor Ator em Série de Drama (Rami Malek) e Melhor Ator Coadjuvante em Série de Drama (Christian Slater). A jornada da segunda temporada é muito mais que esperada, e tem a difícil tarefa de, não só continuar com a carga dramática incessante da temporada de estreia, mas aprofundar personagens e tramas, dando um upgrade mais que obrigatório em segundas temporadas.

“Estando vivendo na paranoia um do outro.”
*Monomito — ou Jornada de Herói: conceito retirado da mitologia grega, que consiste em uma jornada cíclica, em que um personagem é retirado de seu mundo conhecido, através de um chamado, e com o apoio de um mentor, navega o desconhecido. Partes importantes deste ciclo envolvem a negação inicial do “herói”, seus desafios, tentações, uma grande revelação, a transformação da história, e o renascimento — que transforma tudo o que aconteceu num ambiente conhecido, e a jornada de retorno.
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