Os dias derretem sobre meu rosto. Sinto o tempo mudando, com um leve sol surgindo e trazendo vida de volta às ruas. É fim de agosto. O trem percorre as linhas metropolitanas num ciclo preguiçoso, e dentro do seu casulo fito a paisagem inconstante. Subo as escadas para sair. Uma brisa leve corta a plataforma exterior, acendo o primeiro cigarro em 5 anos. Recordo vagamente de como era a alguns anos atrás, e me pergunto quando me tornei vazio. “Talvez eu só tenha crescido”, penso. Perambulo pelas vielas do meu bairro, que parecem mais distorcidas do que nunca. Os lugares perderam o tamanho de outrora, e agora parecem pequenas cápsulas cercadas por um sentimento voraz de abandono. Alguns pipas solitários colorem uma infinitude de azul. Ando sem rumo até me cansar do mundo.
A casa é sempre vazia. Carrega em sua estrutura os sonhos que nasceram do conflito entre meus pais. As paredes refletem as cicatrizes nos meus punhos e todas as crises mentais. Foi prisão, fortaleza, cova e até mesmo um lar em certas ocasiões. Quando entro, tranco as portas e me deito no piso gelado. Por um único instante um silêncio sepulcral reina absoluto dentro de mim. Os episódios das minhas frustrações vêm em ondas. Sou meu próprio carrasco, não tenho piedade alguma. Me agarro ao auto-ódio pela conveniência criada entre nós, o acordo tácito me faz impulsivo e irracional. Entre arrependimento e desespero, o futuro não existe mas já parece intoxicado e doente. Me questiono qual parte é minha imaturidade e qual parte é o desequilíbrio químico. Tudo fica borrado e turvo.
Absorto, lembro do quanto queria ser um Gundam Zero quando criança.
