O estado de ignorância permanente

“Sabe qual é a diferença entre o iniciante e o expert? Na mente do iniciante as possibilidades são muitas, na do expert são poucas”

Eu estudo Kung-fu (eu sei que normalmente se fala em praticar Kung-fu, mas é que prática me lembra algo meio mecânico, então falar em estudo dá uma ideia melhor da abordagem que eu tenho contato com) há algum tempo. E pela ótica do Kung-fu (que é chinesa), ao contrário do que pensamos por aqui, a melhor maneira de se relacionar com uma pessoa não é “calçando os sapatos dela” mas sim buscando saber como se posicionar e agir em relação ao que ela te oferece. Dessa maneira uma relação sempre tem três fatores: você, o outro e o que surge da troca entre ambos, e que muda a todo o momento.

Um exemplo de como isso funciona é nos relacionamentos: Um dia você está puto por alguma razão. O outro chega querendo brincar com você, como normalmente brinca e você, até então, sempre aceitou. Naquele dia em questão sua paciência está zero e você apela. Ele não entende o porque disso e briga. Ou no mercado de trabalho: Você está no seu emprego. O clima está pesado. Você continua agindo normalmente. Você é demitido sem entender o porque. E por aí vai. Por isso que pela ótica do Kung-fu a ideia é entender o que o outro está lhe dando para daí saber como agir, já que só assim podemos saber o que fazer de modo que tenhamos o melhor resultado, que pode ser não romper um relacionamento ou não perder o emprego ou ainda não levar um soco na cara, e por aí vai.

E como conseguir fazer isso? Adotando a ideia da ignorância permanente. Não, não é um caso de citar Sócrates e sair falando que só sei que nada sei mas sempre lembrar que cada situação é única, por mais similar que ela seja a todas as outras. É o lembrar que não importa há quantos anos você viva com uma pessoa, cada vez que ela apelar por algo que possa parecer igual a todas as outras, o motivo para isso pode ser diferente para cada vez. Que cada projeto que você trabalhar vai ser único, por mais que ele possa parecer igual a vários outros. E que cada adversário vai te atacar de uma maneira única, mesmo que você já tenha lutado com ele várias vezes antes.

Isso quer dizer que a experiência não tem valor? Não necessariamente. Encare da seguinte maneira: A sua experiência lhe deu ferramentas para encarar as situações. Porém cada situação que você enfrentar vai exigir que você aplique determinadas ferramentas de uma maneira diferente das outras vezes. Pode chegar inclusive a anular o uso de algumas delas. Por isso inclusive que a ideia da ignorância permanente é válida até mesmo para o jeito que você aborda os seus conhecimentos. Porque você pode achar que por ter feito N cursos, estar estudando a matéria há X anos e ter alguns títulos que não há mais nada que possa estudar sendo que é exatamente o contrário. É exatamente nesse estágio que você busca se aprofundar, pegando aquela listagem de tudo que você já estudou, olhando de novo, experimentando uma nova abordagem para aquele tópico, fazendo novas conexões e por aí vai.

A estrada do conhecimento não é reta, tá mais para um zigue-zague que no final das contas parece uma cama-de-gato que cada vez fica com mais emaranhados.

A cama-de-gato que é a estrada do conhecimento

Em resumo: Sabe aquele ditado “ Quem só tem martelo pensa que tudo é prego”? Então, não ache que tudo é prego. Primeiro porque não é, e mesmo se fosse, tente martelar cada um da mesma maneira para ver se vai sobrar algum dedo.