Sobre humildade, atenção, empatia e o bom design.

Esse texto foi publicado originalmente no LinkedIn em 13 de Março de 2016

Li um texto no Medium esses dias (em inglês) entitulado “The “Third World” Is Not Your Classroom” onde a autora fala sobre os jovens americanos que vão trabalhar em países de terceiro mundo e como, em vez de se adaptarem a realidade que estavam e a partir daí ajudarem no que puder, simplesmente chegavam e faziam o que achavam certo, ignorando a cultura do local e as próprias consequências dos seus atos. Como esse exemplo:

I know a volunteer who once worked with an after-school program I support. She came in with very strong views about how things should be done. So for example, the girls in the program would come to her with boy problems and she would give advice like, ‘It’s okay to kiss. It’s okay to hug and have a boyfriend. Girls in my country do that. Just do not let it go far.’ These were young Muslim girls who lived in a very conservative community where they would get into a lot of trouble for following her advice. The volunteer did not believe in restricting young girls and so went with what she stood for. The end results were disastrous. The volunteer left eventually and the organization had to suffer the consequences of her actions.

(Tradução livre: Conheci uma voluntária que trabalhou em um programa “depois da escola” que eu dava suporte. Ela chegou com uma idéia muito forte de como as coisas deveriam ser feitas. Por exemplo, as garotas do programa foram até lá pedir conselhos sobre garotos e ela dava conselhos como “Não tem problema em beijar. Não tem problema em abraçar e ter um namorado. Garotas no meu país fazem isso. Só não deixe a coisa toda avançar demais.”. Essas garotas eram jovens muçulmanas que viviam em uma comunidade muito conservadora onde elas poderiam ter muitos problemas se seguissem esses conselhos. A voluntária não acreditava em restringir jovens garotas e continuou com o que achava certo. Os resultados finais foram desastrosos. A voluntária eventualmente foi embora e a organização teve que aguentar as consequências dos seus atos.)

E se pararmos pra pensar, nós designers as vezes temos uma atitude parecida com nossos clientes. Chegamos achando que por termos estudado e nos mantermos atualizados com a última tendência (que aparece só dentro do nosso círculo) somos os salvadores da humanidade.

E isso não poderia estar mais longe da verdade.

Não, não quero dizer que devemos baixar a cabeça para o que o cliente quer e nos transformarmos em manipuladores de mouse, por mais que ele esteja pagando. Ou aceitar qualquer condição e ideia só porque veio dele. Porém é sempre bom relembrar que por mais que sejamos os especialistas em Design, o especialista no negócio do cliente é o cliente. Ele conhece aquele negócio, ele conhece a cultura da empresa, ele conhece os clientes, ele conhece os funcionários. O elemento estranho — ao menos no começo — nessa equação é o designer.

E a melhor maneira de aproveitar esse fato é tendo humildade para lembrar e relembrar sempre que precisar que você não sabe nada sobre o negócio do cliente e está ali pra aprender, atenção para observar como funciona e empatia para sair do seu lado e colocar-se no “sapatos do outro” que está inserido naquele contexto. Isso tudo pra chegar no que é essencial para um bom design: boas perguntas. Como o texto fala:

“Some of our kids come in with the save-the-world mentality of so many high-achieving Americans,” said Falik. “But ultimately, we hope that, by the end of the experience, they say, ‘I was there long enough to ask really good questions.’ We consider that success.”

(Tradução livre: “Algumas das nossas crianças chegavam com a mentalidade de “vamos salvar o mundo” como vários americanos privilegiados” disse Falik. “Mas nós esperamos que pelo fim da sua experiência eles digam “Eu estive lá tempo o suficiente para fazer perguntas realmente boas.’ Nós consideramos isso sucesso.”)

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