O Pão doce

- E agora? — pensei enquanto me levantava.

Na época eu tinha uns sete anos, era uma manhã de sábado e eu havia interrompido o vídeo game para cumprir a missão de comprar pão para o café da manhã. Apressado para voltar logo pra casa, saí da padaria correndo com sete pães franceses e o meu pão doce de coco. Surgiu então um desafio: um ônibus estava prestes a deixar o ponto justo quando eu precisava atravessar a rua. Qualquer adulto pensaria: “vou esperar um pouco, não custa nada”. Mas como era criança, só consegui interpretar de uma forma: “é uma corrida! Vai!”. Apressei o pique ainda mais para tentar vencer. Imagino que o motorista não me viu, ou ele não era tão maduro para aceitar perder, pois o ônibus acelerou sem Piedade, não me atingindo por pouco quando cheguei do outro lado da rua. Naquele momento, uma pedra estrategicamente posicionada por Drummond me fez tropeçar e levantar voo. Enquanto caía em câmera lenta, vi os pães saírem da sacola e a primeira coisa que pensei foi: “meu pão doce!”. Tombei.

- Tá doido, menino? Quer morrer? — perguntou uma idosa que estava por perto.

Ignorando uma leve raladura no joelho e as mãos ardendo em brasa, me levantei e me pus a analisar a situação. Como eu explicaria o que aconteceu com os pães? Pior: teria que voltar pra comprar de novo e ficaria sem vídeo game.

- Eita, meu filho, perdeu o pão, mas não chore não — disse a senhora.

- Ah, não perdi não! — respondi em afronta, preparando o plano “B”.

Sem titubear, peguei os pães, os pus de volta na sacola e segui por um caminho mais longo para casa. Enquanto caminhava, batia os pães de leve para tirar a areia que os cobria e deixa-los tão “limpos” quanto fosse possível. Agiria o mais naturalmente que pudesse e passaria a manhã com fome.

A mentira tem perna curta, repreende o senso comum. Entretanto, é inegável que mentir é uma ação amplamente difundida, e às vezes talvez até necessária, em nosso meio. Desde pequenos somos criticados por mentir, seja sob ameaça de castigo ou de que nossos narizes acabarão crescendo se insistirmos nessa prática. Argumentamos contra o uso da mentira baseando-se em outra, que maneira melhor de mostrar que faltar com a verdade pode ser conveniente de vez em quando? Aquele me parecia ser um momento perfeito.

Cheguei em casa, deixei os pães sobre a mesa, lavei as mãos e voltei a jogar vídeo game com a cara mais lisa do mundo. A culpa ia aos poucos me invadindo, mas tentei focar no chefão enquanto ouvia o tilintar da mesa do café sendo posta. Enquanto meus pais comiam mais pães do que de costume para um café da manhã, meu punhado de consciência pesava como chumbo, mas mesmo assim me mantive firme. Ninguém saberia.

- Rico, venha comer seu pão doce — disse meu pai.

“Me lasquei” — pensei. Por não concebermos um mundo no qual mentir seja lei universal, costumamos repreender os mentirosos para supostamente evitar que um dia cheguemos a esse ponto, mas quantas vezes pensamos na possibilidade de um mundo em que não haja mentiras? Conseguiríamos discordar uns dos outros com maturidade e manter a paz? Diríamos um simples “não, eu não quero” ao invés de um “você é uma pessoa maravilhosa” seguido por um enorme “MAS…”? Acredito que não estaríamos prontos para isso.

Pensei em inventar alguma desculpa para não comer, mas sabia que isso levaria a questionamentos, e estes à verdade. Pensei em contar tudo umas duas vezes enquanto segurava o pão doce, que estava muito atrativo — nem parecia ter ido à praia. Independente do juízo de valor atribuído ao ato de mentir, uma coisa é certa: toda mentira tem um preço e geralmente requer outras para se sustentar. Cria-se um jogo no qual vence quem resistir por mais tempo e nem toda mentira é fácil de engolir.

- Tá gostoso? — perguntou meu pai.

- Uma delícia — respondi mastigando minha mentira crocante.

Maceió, 30 de Março de 2017.
 César Henrique Morais Alves

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