Antropoceno (III): Pinguela ecológica — A pouco provável transição para o baixo carbono

O delicado equilíbrio ecológico é colocado em risco todos os dias. No Brasil, a expansão agropecuária desregulada torna o caminho pela pinguela cada vez mais sinuoso. Fonte da Imagem: Estadão.

A Humanidade terá enorme dificuldade em alcançar um mundo de baixo carbono. A situação é mais complexa se o objetivo for garantir que até 2100 as temperaturas globais não subam mais de 2º C. A tarefa envolve difíceis problemas de coordenação e requer uma nova interpretação da Humanidade sobre o tempo. Dessa forma, o caminho mundial para o baixo carbono é difícil, frágil e perigoso. A Era do Antropoceno é um momento em que vivemos nos limites do perigo da Terra, nas fronteiras da manutenção segura da “regulação homeostática” planetária. Cruzamos, portanto, uma verdadeira “pinguela ecológica” para alcançar o baixo carbono. As possibilidades de chegarmos até o fim do caminho são muito pequenas.

Teoria dos Jogos, “Curtoprazismo” e o Tempo

A ação global envolve grande coordenação entre os países e alcançar um acordo internacional que seja efetivamente cumprido é bastante complexo. Em Teoria dos Jogos, como no caso do Dilema dos Prisioneiros, pode se estar em um equilíbrio (de Nash) onde os agentes não cooperam. Isto ocorre quando há incentivos para os agentes desviarem da ação cooperativa. A consequência disso muitas vezes é que os participantes do jogo podem, no final do mesmo, estar em um ponto onde ambos estão piores do que se tiverem cooperado entre si.

A dinâmica internacional na questão das mudanças climáticas é parecida, com uma pequena mudança. No curto prazo, é possível que os países estejam realmente melhores ao não cooperar, enquanto que, no longo prazo, os resultados da não cooperação são catastróficos. Isto envolve, portanto, uma questão de percepção da Humanidade sobre seu horizonte temporal.

Os seres humanos, de um modo geral, possuem uma visão de curto prazo. Em democracias, eleitores, por exemplo, são muito mais sensíveis às oscilações que ocorrem ou ocorrerão num pequeno horizonte de tempo. Por outro lado, os eleitos também tendem a ser imediatistas, preocupando-se excepcionalmente com a sua reeleição e a eleição de seus sucessores, e não com a perenidade das políticas aplicadas. Mesmo em regimes ditatoriais, há uma preocupação nos retornos imediatos das políticas, ignorando seus efeitos de longo prazo, sendo o Brasil do “Milagre Econômico” um bom exemplo disso.

A consequência deste “curtoprazismo” humano é que, em geral, as negociações internacionais sobre as mudanças climáticas são efetivamente atrasadas pelos custos iniciais que a transição para o baixo carbono exigirá. No entanto, estas perdas econômicas iniciais são incomparáveis aos gigantescos custos que as próximas gerações sofrerão se mantivermos as emissões anuais de GEEs nos níveis atuais e permitirmos o colapso climático absoluto.

Reinterpretar o Tempo é um dos maiores desafios do nosso século. Fonte da Imagem: Telegraph.

Dessa maneira, para realizar um efetivo acordo de cooperação em prol do combate às mudanças climáticas, será necessária uma verdadeira revolução na forma como se pensa o tempo: teremos que pensar em tempos distantes, nas gerações que virão, em nome das quais realizaremos sacrifícios presentes. Não é isso o que ocorre no mundo hoje. Pelo contrário, Lipovetsky (2007) nota como o hiperconsumo moderno nos leva a eterna busca pelas sensações imediatas, pela alegria presente e por uma vida de grande ansiedade. Numa situação como esta, será muito pouco provável que as populações mundiais e os policymakers aceitem um acordo que implique em custos iniciais presentes em nome da Humanidade do futuro.

Cooperação: Senso de Comunidade Global — É possível?

O sucesso de acordos internacionais sobre o clima também depende da construção de um senso de comunidade global. Com a crise de 2008, isto parece estar razoavelmente fragilizado já há algum tempo, e a Humanidade caminha em direção contrária, para o isolacionismo. O fortalecimento de movimentos nacionalistas como os de Donald Trump nos Estados Unidos e eurocéticos na União Europeia enfraquecem a causa global justamente nos países desenvolvidos, os mais capazes, bem equipados e com capital político mundial para liderarem a transição tecnológica, econômica e social para o baixo carbono.

As consequências disso para a agenda de combate às mudanças climáticas já são evidentes: o Presidente Trump continua defendendo a retirada dos Estados Unidos do Acordo de Paris de 2015 e tem favorecido as indústrias altamente poluentes. Como se sabe pelo precedente histórico, os países em desenvolvimento, por sua parte, não se mostram muito entusiasmados a assumir sozinhos os custos para transição de baixo carbono e pouco movimentar-se-ão sem os países centrais.

A prêmio Nobel, Elinor Ostrom. Será que as soluções policêntricas para os problemas climáticas são realmente factíveis e de fácil criação no nosso século?

Diante das dificuldades na esfera internacional, há um entendimento de que parte da problemática pode ser resolvida pelas ações regionais ou locais. Ostrom (2009) argumenta que uma abordagem “policêntrica” envolvendo famílias e firmas, bem como agentes locais, regionais e nacionais, pode ter grandes resultados na redução de GEEs. Segundo a autora, contanto que se desenvolvam relações de reciprocidade e de confiança entre os agentes locais, é possível administrar bem localmente bens públicos ou “common-pool resources”. O que esses aspectos inter-relacionais na prática trazem é justamente uma garantia de que todos os membros da comunidade tomarão conta do bem público, como nossos serviços ecológicos de sequestro de carbono, por exemplo. Evitar-se-ia, assim, uma “Tragédia dos Comuns” em âmbito local.

Embora a proposição seja interessante e garanta alguma dose de otimismo, é preciso questionar se há razões para que estas relações de comunidade e confiança sejam criadas no mundo moderno. Bauman (2004) aponta como a Modernidade Líquida é marcada pelas conexões fracas, típicas das redes sociais, em contraste com os laços comunitários, que envolvem grande sacrifício e confiança entre os agentes. Como fator complicador, a desigualdade de renda pode estar crescendo. Segundo Piketty (2014), patrimônios familiares das elites, ascendendo em velocidade muito mais acelerada do que o crescimento médio da economia, têm produzido sociedades cada vez mais estratificadas nos países desenvolvidos. Esta desigualdade certamente prejudica a confiança entre os membros de uma sociedade, na medida em que o cidadão médio fica incomodado com a sua relativa perda de poder econômico em relação aos percentis mais abastados da sociedade. Assim, esses dois fatores, um cultural e outro econômico, devem dificultar a solução mais local de Elinor Ostrom.

Desse modo, a tendência geral do mundo deverá ser de inércia durante um longo tempo. Poder-se-ia argumentar que as forças de mercado sinalizariam corretamente quando os nossos ecossistemas e recursos não-renováveis ficassem verdadeiramente ameaçados. No entanto, há uma forte dificuldade de “a Mão Invisível” auferir os custos da degradação ambiental. Prova disso, por exemplo, é a atualidade do já citado relatório “Limits to Growth”, que NÃO considerava mecanismos de mercado e de precificação. Segundo Turner (2008), boa parte das previsões de Meadows et. al (1972) estão de acordo com as evidências empíricas nos 5 eixos principais abordados no relatório: população, produção industrial, produção de alimentos, poluição e consumo de não renováveis. O ajuste é especialmente bom quando se consideram as projeções nas quais a Humanidade pouco mudará seus comportamentos quanto ao manejo dos bens e serviços ecológicos da Terra, o standard run. Para nosso terror, este cenário específico do modelo é que indica um colapso ambiental em meados do século XXI.

No fundo, é como se os mercados efetivamente não estivessem tendo muita influência no controle desses importantes marcos ecológicos. Lara Resende (2012) pontua que tal fenômeno se deve ao fato de que os recursos do planeta, por serem bens públicos, apresentarem “falhas de mercado”. Diante da problemática, o economista clama por urgentes ações do Estado, extremamente duras, que venham a controlar o uso desenfreado dos nossos recursos não-renováveis e a destruição de nossos serviços ecossistêmicos. Sabemos, porém, que a comunidade internacional e os governos nacionais têm sido lentos nas suas ações, de modo que o mais provável é que a Humanidade só começará a agir no auge do colapso ecológico.

O caminho provável: tropeçando na Pinguela e nadando em rios violentos.

“A Grande Onda de Kanagawa” — Natureza violenta.

Dessa forma, é razoável considerar que a Humanidade tropeçará na “pinguela ecológica” e terá que nadar pelos difíceis rios das mudanças climáticas imprevisíveis para alcançar uma realidade de baixo carbono. Um cenário provável, mas menos otimista, portanto, é que a Humanidade não deve se extinguir, mas agirá apenas quando os custos das mudanças climáticas se mostrarem enormes e muitos dos danos do aquecimento global forem irreversíveis

Um “educated guess” interessante seria supor que o Homo Sapiens Sapiens começará a reverter seus danos ao meio-ambiente em meados deste século XXI, quando tivermos já passados de longe dos limites da Terra. Segundo Rockström et al. (2009), já ultrapassamos na atualidade os “limites operacionais” de emissões de gás carbônico, de acidificação dos oceanos e de perda de biodiversidade da Terra. Não é improvável dizer que, até meados deste século, serão atingidas as fronteiras seguras dos ciclos de nitrogênio e fósforo, de uso de água doce, da poluição química, bem como do uso de aerossóis.

Nesse momento de pico do desastre ecológico, é que o Mercado, Estados-Nacionais e Comunidade Internacional começarão a efetivamente investir em tecnologia numa escala sem precedentes. A Terra, não obstante, já estará caminhando para temperaturas acima dos limites do perigo. O IPCC (2014) indica que, se tudo se mantivesse no ritmo de como a economia se organiza hoje, o crescimento econômico e populacional levaria a aumento da temperatura média da Terra a níveis provavelmente maiores do que 3º C e até 4º C, podendo chegar a assustadores 7º C. Todos os cenários neste caso teriam consequências terríveis para a vida humana na Terra, as quais mobilizariam finalmente a ação humana.

Paul Gilding apresentando seu plano radical para corrigir o problema das emissões de GEEs. Fonte: TED Talks.

Jorgen Randers e Paul Gilding (2009) traçaram um plano para tornar negativas as emissões líquidas de carbono no Planeta Terra em cem anos. O detalhe que mais chama a atenção no plano é seu objetivo de uma mobilização de guerra que reduziria pela metade as emissões de GEEs em 5 anos. O que parece uma realidade distante provavelmente deve ocorrer com a Humanidade duramente pressionada, na eventualidade de ter ultrapassado todos os limites seguros da Terra. Realizando um programa parecido com esse, mas com 40 a 50 anos de atraso, a comunidade internacional conseguiria provavelmente evitar um colapso maior e a quase extinção da espécie humana. A transição tardia para o baixo carbono, contudo, implicaria em um mundo provavelmente 3º a 4º C mais quente do que em tempos pré-industriais[1]. Um cenário calamitoso e trágico.

[1] Pode se pensar aqui num cenário entre os Representative Concentration Paths (RCPs) 4.5 e o 6.0 do IPCC. O que implica em um nível de emissões antropogênicas acumuladas de gás carbônico entre 4.000 e 5.000 GtCO2, bem maiores do que o nível em torno de 2.900 GtCO2 que o IPCC (2014) recomenda para evitar um aumento de 2º C de temperatura.

Referências Bibliográficas:

BAUMAN, Z. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Zahar, 2004, 190 p.

IPCC. Climate Change 2014: Synthesis Report. Contribution of Working Groups I, II and III of the Fifth Assessment Report of the Intergovernmental Panel on Climate Change. Ed. Core Writing Team; PACHAURI, R. K; MEYER, L. A. Genebra: IPCC, 2014, 151 p.

LARA RESENDE, A. Os novos limites do possível. In: ________. Os Limites do Possível: A economia além da conjuntura. São Paulo: Portfolio-Penguin, 2013. p. 185–196.

LIPOVETSKY, G. A felicidade paradoxal: ensaios sobre a sociedade de hiperconsumo. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 2007, 408 p.

MEADOWS, D. et al. The Limits to Growth: a report for the Club of Rome’s on the predicament of mankind. Nova Iorque: Universe Books, 1972, 205 p. (mimeo)

OSTROM, E. A Polycentric Approach for Coping with Climate Change. Washington D.C.: Policy Research Working Paper Series 5095; Banco Mundial, 2009, 54 p.

RANDERS, J.; GILDING, P. The one-degree war plan: draft paper distributed for comment. Documento de Trabalho, 2009.

ROCKSTRÖM, J. et al. A safe operating space for humanity. Nature, v. 461, n. 7263, p. 472–475, set. 2009.

TURNER, G. M. A comparison of The Limits to Growth with 30 years of reality. Global Environmental Change, v. 18, n. 3, p. 397–411, ago. 2008.