Os Últimos Jedi: O Verdadeiro Despertar da Força

Odisseia Galáctica que é, Star Wars aglomera milhões para saberem de suas histórias. Dentre os que assistem seus inúmeros episódios, o grupo mais representativo(ou ao menos o mais barulhento) é o dos fãs “carolas”, que não inclui todos os fãs antigos, mas uma boa parte deles. Estes, muito porque viram quando crianças (e no cinema!) os episódios IV, V e VI, divinizam a primeira trilogia e repudiam a segunda, os chamados prequels. Quando a Disney, comprando a Lucasfilms, decidiu lançar uma nova trilogia, os fãs “carolas” clamaram por um material “redentor” que pudesse resgatar o Primeiro George Lucas. O primeiro filme “ O Despertar da Força” veio nesse estilo, mas de um modo bastante preguiçoso, quase um reboot do Episódio IV. O segundo, “Os Últimos Jedi”, também traz um resgate da trilogia original, mas inova e aprofunda os conflitos já vistos pelo menos desde “O Império Contra Ataca”. Isso chocou os fãs “carolas”, cuja visão cristalizada e pueril desta série de filmes não possibilita um olhar cuidadoso sobre o próprio significado de Star Wars.

A verdade é que muitos dos que se dizem guardiões de uma tradição são hoje incapazes de entender o próprio significado de Guerra nas Estrelas. Não se trata de uma simples luta de vilão e mocinho, trata-se de um mar de conflitos de uma família (os Skywalkers) e de uma galáxia que vivem entre a Luz e a Sombra, faces complementares de uma mesma Força. É isso que episódio VIII resgata e amplifica à décima potência, apresentando muito mais os tons de cinza que já se delineavam na trilogia original — é o episódio pós primeira trilogia que mais resgata os valores de uma saga e cumpre o papel de Poesia e Rima que Lucas sempre sonhou para sua segunda leva de episódios. Pretendo trazer evidências de todo Star Wars para defender esse ponto, tratando de alguns aspectos específicos de “Os Últimos Jedi” que sofreram muitas críticas. Por uma questão de dimensão, não pretendo, contudo, tratar de uma das dimensões mais interessantes e inovadoras deste novo filme: uma Rebelião com rostos humanos, falhas e convicções — sobre este tema, destinarei um outro texto.

Luke Skywalker: Incoerente ou Humano?

A crítica mais profunda dos fãs “carolas” tem sido sobre o personagem de Luke Skywalker. Como pode o herói de sua época, que “derrotou” o Império Galáctico, ter se tornado um moribundo, quase louco, que pratica o autoexílio à espera da morte? A resposta Luke dá no próprio filme. A imagem que conservavam dele é nada mais do que um mito, o transformaram em lenda, quando, na realidade, Luke é humano. Os Jedis são sujeitos a falhas, irritações e a emoções. Reconhecer esse lado é essencial. Os valores quase ascéticos, que defendia a antiga ordem Jedi, são impossíveis de serem cumpridos.

Lucas tentou demonstrar isso na segunda trilogia, ainda que nem sempre com um roteiro consistente. Qui Gon Jin tinha suas críticas ao Conselho Jedi, Anakin tinha que conter suas paixões e seu afeto pela sua mãe e por Padme e o próprio Mace Windu iria desobedecer aos princípios Jedi quando ergueu seu sabre de luz roxo para eliminar Palpatine, que havia se rendido. Ciente, contudo, que essas referências são quase não-canônicas para os “carolas”, pontuo que as falhas de percurso aparecem na primeira trilogia!

Um senhor que quase destruiu o mal maior da galáxia e que se exila em um planeta distante, optando por não enfrentar diretamente o lado sombrio? Soa familiar?

Afinal de contas, Yoda, o grande mestre Jedi, é apresentado como em “O Império Contra Ataca”? Ele é um sábio virtuoso de fato, mas é também um senhor que está tangenciando a loucura e que se exilou porque se viu como incapaz de derrotar o lado sombrio da força. Obi Wan também se exilou em Tatooine. Era um homem que tinha propósito e era justo de fato, mas também tinha falhas. Ou ninguém se lembra de quando ele perdeu todas as esperanças em Anakin e mente para o próprio Luke sobre as origens de Darth Vader?

Mesmo jedi virtuosos possuem certas falhas. Obi Wan mente para Luke.

O Luke do Episódio VIII é inteiramente coerente com o Luke da trilogia original. Era um Jedi com formação parcial e que teve imensas dificuldades de lidar com suas falhas pessoais e que, mais do que isso, sempre teve dificuldades em de fato lidar com a dimensão sombria da Força. Em seu treinamento em Dagobah, não conseguiu enfrentar o lado negro nas visões que teve dentro de uma gruta, tinha medo. Essa mesma falha é experimentada quando ele treina Ben Solo e não consegue lidar com o fato de que seu discípulo era capaz de encarar de frente o lado sombrio. Não é à toa que Luke só morre em “paz e propósito”, em um sopro à la Bem Kenobi, apenas quando pede desculpas a Ben Solo e quando permite que Rey, uma sensitiva da força não convencional, consiga salvar as sementes de uma Rebelião.

Kylo e Rey: O verdadeiro despertar da Força

Outro aspecto sem sombra de dúvidas muito criticado pelos fãs são os personagens de Kylo e de Rey. Os carolas não conseguem compreender o que significa para a saga esses dois personagens. Para eles, ambos são apenas uma versão millenial de Star Wars, conturbados e adolescentes (crítica parecida ao Anakin dos prequels) . Nada mais distante da verdade. Ambos representam o verdadeiro despertar da Força, reinterpretada agora na sua dualidade complementar, que também se mistura e atinge tons de cinza. Essa mesma dualidade, contudo, já era sugerida nos outros filmes.

Kylo em seu eterno conflito com o passado, com sua mãe, seu pai e seu tio, nos lembra a Darth Vader. Por trás do corpanzil metálico, da eletrônica sombria, e do capacete pavoroso de Lord Vader, havia uma mente conturbada que se mostrava enredada em um eterno conflito entre Luz e Sombra, e que só se torna “um com a Força” quando destrói o Imperador, que pendia os destinos da galáxia unicamente para as trevas. Rey nos lembra a Luke, ainda que com menos temor pelas sombras. Busca Ren, assim como Luke buscava seu pai, e ,em sua procura por respostas para sua vida, também se depara com os dois lados da Força em busca de um equilíbrio.

O grande diferencial dos dois, Kylo e Rey, contudo, é que ambos parecem compreender a complementaridade da Força e que a visão antagônica radical não parece ser uma saída adequada. Como diz o próprio Kylo Ren: Siths, Jedis, tudo isso se foi. Essa complementaridade quebra a mitologia dos “carolas” que se criou em torno de Star Wars, mas que não necessariamente é verdadeira nem na trilogia original. Em o Retorno do Jedi, Luke resgata Vader com amor, carinho e preocupação, emoções colocadas em baixa conta pelos Jedis antigos, que, no fundo, eram extremistas da Luz. No final do Episódio VIII, Rey tem a oportunidade de abandonar as lendas antigas e criar uma escola de guerreiros capazes de compreender a verdadeira natureza dual, Yin Yang, da Força — entre “Os Últimos Jedi”, há um recomeço. Está na hora dos fãs carolas também abandonarem as lendas. Mal posso esperar para o episódio IX.

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  1. Reconheço neste texto inúmeras contribuições de Renato de Miranda Marques, amigo e professor, com o qual converso horas sobre Star Wars.
  2. Não posso deixar de citar também um grande vídeo do YouTube que traz uma visão inovadora de SW: https://www.youtube.com/watch?v=-2BNdF_NCVQ . A visão dele é parecida com a minha sobre os prequels. O film-making é péssimo, mas a história adiciona densidade ao universo. O episódio III mostra um monte de problemas do código Jedi e como há uma compreensão incompleta da Força por parte da velha ordem.