Não sinta vergonha de quem você é

Você sempre foi uma pessoa calada. Lembro-me da minha infância, quando a voz alta da minha mãe reinava pela casa e, enquanto isso, você não produzia nenhum ruído. Isso não me incomodava, mas sempre questionei, dentro da minha mente, o motivo de se manifestar tão pouco. Parecia que você vivia em outro mundo. As palavras não saiam de dentro de você e para lhe compreender tive que o observar por bons anos.

Analisei seu passado, que não foi nada fácil. Você foi criado no interior do Rio Grande do Norte, em uma família extremamente pobre. Era o mais velho de oito irmãos, por isso carregava o peso da responsabilidade nas costas. Embora seus pais fossem vivos, sentia-se na obrigação de ajudar na criação de todos. Teve que abdicar dos estudos, quando estava indo para a 5º série do ensino fundamental, para conseguir trabalhar na roça e trazer dinheiro para casa. Nesse tempo de escola, aprendeu a ler lentamente e a escrever o próprio nome.

Hoje, em nossas conversas, percebo que o silencio do passado, que insiste em permanecer, tem haver com sua falta de estudo. Você sente vergonha do pouco conhecimento que tem. Sente vergonha de sempre ter que pedir ajuda a alguém para ler alguma correspondência.

Não sinta vergonha de quem você é, rapaz. Pode não saber ler. Pode ler gaguejando. Pode falar, mesmo que errado. Não saber todas as Leis de Newton não lhe faz melhor ou pior, você só se adaptou ao que lhe oferecem e está tudo bem.

O mundo está repleto de babacas graduados que, mesmo tendo acesso as melhores universidades, continuam destilando ódio e estupidez por onde passam.