Noite Índigo
Enquanto o carro deslizava pela avenida, a cabeça ia ao longe, uma noite etérea, pensava, não sentia a temperatura, não sentia a velocidade do carro, tudo lhe era indiferente, menos a noite.
- Queres que eu diminua o volume do rádio?
- Oi?
- Eu perguntei se tu preferes que eu baixe o rádio, pode ser?
- Tanto faz.
A avenida durante a noite estava vazia e o carro com aquecimento interno ia cortando as estradas sob a guarda da luz amarela dos postes, dos cães, gatos, moradores de rua e insetos, mas o pensamento havia sentado na Rua do Coronel, naquele salão, que nunca teve um significado, até hoje.
E que lembrança! Um sorriso ocupava toda e qualquer sensação, as paredes do salão, velhas amigas, eram moldura para aquele sorriso, nenhuma criança jamais desejou tanto um brinquedo quanto desejava aquele sorriso, nenhum estudante pensou tanto com os compromissos quanto pensava naquele sorriso, se o disco de ouro da Voyager não tivesse sido enviado, com certeza, apagariam toda e qualquer gravação para colocar aquele sorriso como amostra mais-do-que-suficiente da condição humana.
Não era navalha, não era .50, não era a bomba de hidrogênio, não eram as armas bioquímicas, não eram os defensivos agrícolas, a gordura hidrogenada, o corante, o conservante, a estupidez, o fascismo, o nazismo, o totalitarismo, a concentração de riqueza, a luz elétrica, a medicina ocidental, não era o motor potente de um carro esportivo, nada era tão potente quanto aquele sorriso.
Não tinha propriedade, estava ali, guardado na memória, A Noite Estrelada Sobre o Ródano ou a Garota com Brinco de Pérola não eram inspirações suficientes para a pintura mental daquele sorriso, era ali, a morada do segredo que continha o mistério da humanidade.
Perdeu a concentração, o chão, o ar e a convicção de que tudo estava rearranjado após anos de terapia, psicanálise, remédios paliativos e conversas francas com seus pais sobre traumas que haviam gerado, sobre a forma como ia mudar o mundo com o pessoal da faculdade, não restou pedra-sobre-pedra, o universo em constante expansão e a linha evolutiva virou pó, o laço da inauguração foi cortado, os pedaços daquele mosaico haviam sido repelidos pelo magnetismo daquele sorriso.
Subiu as escadas do quarto locado naquele prédio tão simpático e, animalesco, jogou as roupas no canto, ligou o chuveiro na temperatura mais quente que pode e deixou que o vapor tornasse aquele banheiro impenetrável, a água escorria como uma mão que massageava pelo corpo, mas o pensamento, sempre naquele sorriso, quente, frio, duro, macio, brilhante e fosco, o que era preciso, um sorriso camaleão, era todas as sensações, sentimentos e nada, ao mesmo tempo.
Deitou, o quarto em expansão e girando, não pelo álcool, mas o sorriso, aquele sorriso, se soubesse que naquela noite, ao ir no banheiro e ao se olhar no espelho visse aquele sorriso teria poupado muitas pessoas, compromissos adiáveis e teria ido ao encontro daquele sorriso, por um último minuto antes de fechar os olhos e esquecer tudo no outro dia.

