Sim, eu estudo cinema; não, eu não tenho um link pra te mandar

E talvez eu nunca venha a ter e estou começando a lidar com isso.

“Você estuda cinema? Poxa, que demais! Posso ver algum trabalho seu?” foi uma frase que eu ouvi diversas vezes nos últimos cinco anos. E eu sempre, com um sorriso amarelo, digo que na verdade não tenho nada pra mandar. De um modo geral, isso não me incomodava muito ao longo do curso, mas nos últimos meses esse tipo de comentário passou a me afetar bastante, a ponto de me dar crises de ansiedade. “Mas quando você vai produzir alguma coisa?”

Pela grade, é só a partir do terceiro ano que eu poderia produzir algo meu, de escrever e dirigir e coisa e tal. E enquanto a maioria dos meus amigos se dedicavam a fazer assistências em projetos de veteranos, eu preferi aproveitar outras possibilidades acadêmicas, possibilidades que renderam muitos frutos. Eu fiz duas iniciações científicas, fui pra congressos, publiquei artigos, escrevi pra catálogos, cobri festivais, fiz curadoria pra festivais, produzi festivais, ministrei cursos, fiz mobilidade acadêmica. Enfim, eu aproveitei muito bem as vantagens que vem com uma graduação em universidade pública, e provavelmente teria perdido muitas delas se eu me envolvesse com a produção de curtas dos veteranos. Então sendo bem honesto eu não me arrependo e se pudesse faria o mesmo. Eu gosto bastante da vida acadêmica, e no meu plano ideal de vida eu seguiria os passos dos meus cineastas queer favoritos e mesclaria vida acadêmica e produção artística. Mas o segundo elemento dessa equação cada vez mais parece algo muito distante de mim.

Bom, existe um ditado que professores de cinema adoram falar que diz que pra escrever um poema você precisa de uma caneta, pra fazer um filme você precisa de um exército. E eu acho que minhas ideias não conseguem quórum nem pra uma milícia. E eu reconheço que, num pequeno contexto pelo menos, muito disso é minha culpa. Dentro do meu curso, por exemplo, se eu tivesse feito assistências e sido mais envolvido nessas questões, provavelmente teria mais colegas que confiariam no meu potencial, saberiam como eu trabalho etc e tal. Mas eu sempre comprei a imagem de alguém distante do curso, e paguei o preço por isso. Nada mais justo. A única vez que eu consegui fazer um roteiro meu ir pra frente, foi no trabalho de uma disciplina onde os projetos escolhidos foram votados pela sala toda. Meu grupo de amigos na época se dividiram em votar em dois outros projetos: um deles passou, o outro não. Quando o meu foi aprovado, com votos do lado da sala que nem falava comigo, esses amigos do projeto vetado entraram no meu. E foi uma experiência horrível. A maior parte do grupo fez tudo nas coxa, só por fazer e passar na matéria, só eu e mais duas amigas levamos a sério, tudo foi muito desgastante o resultado ficou bem ruim. Então nem os meus amigos próximos confiavam muito nas minhas ideias.

Aí agora quando eu propus meu projeto de TCC e fui barrada pela segunda vez, eu tive a confirmação disso. Só um amigo quis entrar oficialmente no projeto, embora eu ouvisse muito de diversas pessoas que elas torciam pra que o meu fosse aprovado (e eu acredito que elas torciam mesmo). Quando não rolou, a justificativa da banca dizia algo do tipo “apesar do engajamento do proponente, a equipe não tem membros o bastante para ser levado adiante”. E na verdade eu não fico surpreso. Meu roteiro era inspirado na pornografia e contava a história de um garoto de 16 anos com desejos sadomasoquistas por um homem com 3 vezes a idade dele. Eu entendo que ninguém quer se formar com um TCC polêmico que não vai poder mostrar pros pais no dia da formatura. E também entendo que a pessoa possa gostar da minha amizade, mas sem necessariamente confiar que eu seria um bom diretor. Eu juro que racionalmente acho tudo isso muito lógico e justo.

Mas o que eu quero dizer com essa fluxo de pensamento é: minhas ideias não são populares, não convencem qualquer pessoa a se envolver e certamente nunca ganhariam um edital. E eu não tenho auto-estima pra viver com a frustração de lidar com isso o tempo todo. Acho que eu sou solitário demais pra querer viver de uma arte tão coletiva.

Então eu achei mais saudável lidar com isso agora e me dedicar a carreira acadêmica mesmo, que é um ramo que eu gosto e onde eu acredito que posso fazer a diferença e lutar por coisas que eu acredito, dependendo só de mim mesmo pra levar isso adiante. E tá tudo bem. Juro que tá. Como o bom millennial que sou acho que entrei naquele momento de aceitar que eu não sou um floquinho de neve no universo e nem todo mundo nasceu pra realizar sonhos. E as vezes se adaptar é a coisa mais madura a se fazer.

    Henrique Rodrigues Marques

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    “Eu sempre exagero. Esta é minha única qualidade.”

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