Tikun Olam

Eu não sou do tipo que fantasia. Não penso em ter filhos, casa com cozinha planejada, dois cachorros e um gato, feriado na praia, domingo almoçando com seus pais. Não vou te pedir pra mudar o status no facebook e fazer postagens comemorativas que sigam a risca o calendário gregoriano. Não é sobre usar alianças ou as mãos dadas em público, as fotos no parque ou os nossos amigos repetindo várias vezes o quanto a gente forma um casal fofo. Eu nunca começo nada esperando que dure e me recuso a tratar relações como um investimento. Se eu aprendi algo na vida é que quantidade raramente vem associada a qualidade, e que fazer planos é um prazer por si só que não demanda a realização dos mesmos. Eu não espero promessas de fidelidade, exclusividade, incondicionalidade, eternidade. Não espero que você me salve de nada ou que solucione os meus problemas. Eu sou do tipo que acredita que a vida é uma jornada que cada um precisa fazer sozinho e é bom que seja assim.

Mas eu gosto da ideia de namorar alguém. A ideia de namorar você. Não pela convenção social associada ao termo, mas porque eu também acredito que se conectar a outras pessoas é a nossa única missão na Terra. Em um dos meus filmes de amor favoritos uma das personagens fala sobre essa crença judaica chamada Tikun Olam, que diz que o mundo foi quebrado em diversas partes e que a nossa missão é encontrar os pedaços e juntá-los novamente. O outro personagem responde que talvez os pedaços sejam nós mesmos. Eu concordo com ele.

Quando eu olho pra você eu vejo um destes pedaços. Não um pedaço que me completa, que me dá algo que falta em mim, algo que eu vivi sem a minha vida toda e se eu não tiver graças a você eu não vou ter nunca mais. Esse tipo de essencialismo me entedia. Mas o seu pedaço tem encaixes inusitados e é diferente dos pedaços que eu vi até então. Um pedaço que me instiga, que me deixa curioso. E pode acreditar, meu mapa astral com Virgem em muitas casas é a prova de que não é qualquer pedaço que me deixa fascinado. Por isso eu me arrependeria pro resto da vida se eu não tentasse gastar um pouco mais de tempo com você.

Eu tenho plena consciência de que nós não somos o destino um do outro, mas eu sinto que nós podemos ser um ótimo refúgio. Porque a viagem às vezes cansa e é bom trocar algumas bagagens e se liberar de alguns pesos mortos. Nós não vamos para o mesmo lugar, mas por algum tempo as nossas rotas são congruentes. Por que não passar juntos por esse trecho? Veja bem, o mundo é um lugar horrível e a vida já vai arranjar maneiras de nos magoar de diversas formas. Mas juntos nos temos a oportunidade de construir a antítese disso. Eu não quero te dar protocolos, obrigações, cobranças. O que eu proponho é a criação de uma rede de afetos e apoio mútuo. Eu quero ouvir sobre os seus medos, anseios e segredos, sem qualquer julgamento; eu quero que você me apresente as coisas que você ama e que eu não conhecia, mas vou aprender a gostar por causa de você, e sempre lembrar de você como a pessoa que me ensinou tal coisa; eu quero fazer a mais detalhada topografia do seu corpo, descobrir cada cicatriz, cada lugar estranho onde nascem pelos que você detesta, cada parte que te faz gemer ou que te faz rir, descobrir partes que sentem coisas que você nem sabia que sentia; eu quero te fazer cafuné em silêncio enquanto você usa meu ombro pra chorar; eu quero que você confie em mim e sinta que tem um lar pra você no meu corpo.

Porque eu acredito que, mesmo quando nossas estradas voltem a se separar, nossas jornadas serão melhores porque um dia a gente decidiu juntar nossos pedaços. E o resto é memorabilia.