Amarga Rapsódia

Outubro de 202X
São Paulo, Brasil
Um armazém qualquer na periferia

Maria grunhiu. Sua cabeça doía como o inferno, seu corpo suava profundamente e a bala de nove milímetros em sua coxa direita mandava explosões por seu corpo toda vez que ela se mexia. O ar no recinto era pesado, sem falar em fétido: uma mistura de suor humano, sangue e haxixe. A garota guardou sua pistola no coldre da perna e afastou a carabina pendurada no 
pescoço. Quando abriu a porta, ouviu um estouro, ainda que abafado, vindo do lado de fora. Ela continuou andando: sabia que não eram os policiais, ainda não. Três passos depois, o teto desabou e alguém surgiu em sua frente.

"Vênus", disse Maria.

"Guerreira", respondeu a figura. Ela devia ser pouco mais velha que Maria, e um tanto mais alta, também. Vestia uma imponente armadura amarela e azul, como se saída diretamente de um filme de super-heróis. Ela usava um capacete das mesmas cores: seu rosto oculto, exceto por seus longos cabelos 
castanhos - que escapavam para suas costas - e por sua boca e queixo, visíveis com o desenho da máscara.

As duas se encararam por um instante, e então Vênus disse, "O que foi que você fez?"

"Você sabe muito bem o que foi que eu fiz"

Maria deu um hesitante passo em frente. Como esperava, Vênus deu outro passo e bloqueou seu caminho.

Ela disse, "Eu não posso deixar você sair daqui, Ana Maria" Maria respondeu, "Você não tem como me impedir, Vênus. Não mais. Não sozinha. Você sabe disso"

A Guerreira estava calma. Seu ar ofegante provinha de seus ferimentos apenas. Os olhos de Vênus, entretanto, queimavam em fúria.

"Droga, Ana!", ela explodiu. "Isso não era o que nós tínhamos combinado!"

"O combinado mudou"

"O combinado mudou?! Do que você tá falando?"

Maria não respondeu. Deu mais um passo, olhando para os próprios pés dessa vez. Vênus continuava na sua frente.

Vênus disse, "Você sabe que eles vão te caçar, Ana. Você sabe que eles vão te matar se julgarem necessário"

"Deixe que eles venham". Maria continuava falando em seu tom calmo. "Se meu plano der certo, essa será minha última missão, de qualquer jeito"

"Plano? Que plano?"

Maria deu outro passo. Estava frente a frente com Vênus agora. Elas podiam sentir a respiração uma da outra, seus rostos à centímetros de distância, olhares queimando uma à outra.

Ana disse, "Você não precisa mais me proteger, Samanta"

Vênus estremeceu. Guerreira sabia que ela tentara disfarçar, mas ela percebeu. Como se tivesse dito a palavra mágica, Samanta deu um passo para o lado.

"Adeus, Ana", ela disse.

"Adeus, Vênus"


Os policiais chegaram logo em seguida. Vênus permaneceu, no pretexto de ajudar no que pudesse com os corpos e com a investigação. Quando sentiu que não havia nada mais que pudesse fazer para auxiliar a polícia, manteve-se quieta, encostada contra uma parede do lado de fora do escritório do 
armazém (onde tudo havia ocorrido). Vez ou outra recebia olhares de todos os tipos: de olhares surpresos à olhares de orgulho e decepção. Ela já estava acostumada.

Foi apenas três horas depois que um dos oficiais avisou que ela estava sendo requisitada no posto de comando.

"Capitão Sandis", disse Vênus ao entrar.

"Vênus"

O lugar era uma sala em anexo ao escritório. Estava equipada com todo tipo de ferramentas, de baús de equipamentos à computadores sofisticados. Vênus podia sentir um leve perfume no ar; provavelmente uma tentativa de lutar contra o cheiro que vinha da sala ao lado.

O capitão disse, "Achei que gostaria de ver isso". Ele abriu uma janela que continha um vídeo em seu computador e esperou que Vênus assentisse com a cabeça. O capitão pressionou tocar.


Era o escritório do armazém. Devia ter pouco mais que vinte metros quadrados, talvez menos. Entre o som de caixas sendo levantadas, carregadas e depositadas no chão, um rádio em algum lugar tocava Bohemian Rhapsody.

A porta dos fundos explodiu e voou pela sala. Todos os trabalhadores pararam o que estavam fazendo e sacaram armas de fogo: pistolas, fuzis, espingardas.

Por alguns segundos, nada acontece. Mais de quinze homens mantem-se imóveis, armas apontadas na direção da porta arrombada, fumaça preenchendo o lugar.

Um dos trabalhadores voa no ar. Um segundo grita e acerta o chão antes mesmo de todos abrirem fogo. Tiros e mais tiros. A música continua tocando.

Ela surge entre a fumaça. Seu cabelo escuro preso num coque, os olhos pintados como numa mancha negra, a máscara de metal cinzento tampando sua boca e seu nariz.

Ela caminha e atira. Segura sua espingarda com uma das mãos, saca sua pistola com a outra e atira de novo. Toma uma série de rajadas e seu colete some, mas outro aparece em seu corpo. Ela larga a espingarda, joga-a no chão, e empunha um rifle de assalto quando volta seus braços para frente. Ela segura o gatilho. Cinco, seis, sete caem.

Ela ejeta o cartucho vazio, estica a mão para o lado e apanha outro cheio no ar. Recarrega. Clique, claque. Um, dois tiros. Dois na cabeça. Ela se abaixa atrás de uma das caixas e estica a mão mais uma vez. Puxa o pino de um objeto redondo e escuro. Joga-o para trás. Bum.

Em menos de dois minutos, todo mundo está morto; exceto por Guerreira.


Vênus continua em silêncio quando o vídeo acaba, apesar de o Capitão a olhar como se esperasse por algo. De fato, ele diz, "O que você acha?"

"O que eu acharia, Capitão? Nós temos que pegá-la"

"Nós? Vênus, eu e meus homens vamos — eu e meus homens estamos fazendo nosso melhor. Nós vamos encontrá-la, mas eu e você sabemos muito bem que não temos como capturá-la"

Vênus suspirou. Virou as costas e começou a caminhar para fora da sala. Virou-se e disse, "Não se preocupe, Capitão. Assim que vocês a encontrarem, nós estaremos lá".

"Tem mais uma coisa, Vênus"

"Mais uma coisa?"

Cap. Sandis se levanta e faz sinal para que Vênus a siga. Ele para de frente à porta do escritório, respira fundo, e abre. O lugar cheira à suor humano, sangue e haxixe.

"Aqui. As câmeras não conseguem pegar isso depois da explosão, mas meus homens dizem com segurança que foi ela quem escreveu isso. Após... tudo que aconteceu"

Vênus para ao lado do Capitão da polícia. Há uma mensagem desenhada rusticamente, como se alguém tivesse apanhado sangue fresco com as próprias mãos e passado na parede. A mensagem diz:

Amor é fogo que arde sem se ver
É ferida que dói e não se sente
É um contentamento descontente
É dor que desatina sem doer
Tempos mórbidos vêm pela frente
A Guerreira não deixará ninguém escapar
Vocês estão todos fodidos
Vocês vão todos morrer

"Camões estaria orgulhoso", brincou o Capitão, mas cessou seu riso quando viu que Vênus continuava séria.

"Droga, Ana...", Vênus sussurrou.

"Disse alguma coisa?"

"Não, senhor"

"Se — quando nós a encontrarmos, Vênus, você acha que conseguem pará-la?”

"Eu não sei, Capitão. Mas nós estaremos lá. Os Supers estarão lá.”


Fim da primeira parte do Prólogo.