Errado

Me vejo incapaz de escrever. Incapaz de me expressar, incapaz de me conectar com o mundo lá fora: como se costurassem minha boca, como se decepassem minhas mãos.

Eu não sei o que fazer. Minha única forma de conexão com esse mundo insano se foi. Minha única forma de expressão, minha única forma de verdadeira fuga, minha única forma de criação. Agora só o que eu tenho é a repetição de palavras vazias. De metáforas forçadas, mal trabalhadas. De estruturas prontas e revisões desnecessárias.

Eu não sei o que fazer. O mundo me assusta cada vez mais e eu já não tenho mais coragem de encará-lo. Sinto-me prestes a morrer, sinto-me desesperado, e penso que a única saída para tal sentimento são remédios; mas eu não quero remédios! Eu não quero ficar dopado. Não quero ser controlado. Eu quero ser eu mesmo. Quero ser sensível, quero sentir, quero rir, quero chorar, quero amar. Mas e a parte ruim? E a ansiedade? E a incerteza? E a inconstância?

Eu me vejo cada vez mais carente por atenção e, ainda assim, cada vez me afastando mais de todos que eu conheço. Todos dizem que se importam, mas são contados em menos de uma mão os que eu sinto que se importam. Talvez se importem, eu não sei, mas eu não sinto. Eu me sinto sozinho. O tempo todo, sozinho. Essa cidade faz eu me sentir sozinho. Inadequado. Feio. Errado.

Burro. Patético. Preguiçoso. Vagabundo.

Errado.

Eu não quero isso. Eu quero sentar diante à praia e poder sorrir. Eu quero escutar minhas músicas e poder me concentrar no que elas me dizem e nada mais. Eu quero olhar pro horizonte, olhar pro céu e rir por nada, por a vida ser boa.

Mas há o mundo real. Há pessoas ruins fazendo coisas ruins, há política, há os problemas sociais, há a falta de instrução, há a alienação. Mas eu não tenho mais paciência, eu não tenho mais forças. Eu me sinto mal, cada vez mais drenado de energia, de empatia. Eu só quero me sentir bem.

Eu não consigo pensar em mais nada que não seja encontrar uma maneira de me sentir bem.

Eu não quero mais essa sensação ruim no peito. Eu não quero mais essa falta de ar. Eu não quero mais essa incerteza.

Eu quero alguém pra abraçar. Eu quero alguém com quem contar. Eu quero dormir sob as estrelas e acordar com um motivo para levantar, sabendo que a vida vale a pena.

Eu quero eu de volta. Eu quero o melhor de mim, o Henrique que eu reencontrei durante minha viagem, não o Henrique que toma controle quando estou aqui. Egoísta. Arrogante. Impaciente. Indeciso. Errado.

Eu me sinto errado, e eu não sei o que fazer.

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