Escreva.

13 de Maio de 2014. Diário de Ana Maria Marson.

Deus, eu não consigo fazer isso. Eu não consigo. Ir para o colégio, andar de metrô; ter que encarar todos… é impossível. Eles me olham como se soubessem. Como se soubessem e sentissem pena. Como se soubessem e me julgassem com seu silêncio.

Eu matei todas aquelas pessoas. Todas elas. Eu matei o segurança na porta de entrada; o cano da espingarda com certeza virou seu crânio de fora pra dentro. Eu matei os cinco homens jogando truco naquela sala. Cada um deles, dúzias de estilhaços dos tiros de espingarda. Cada um deles com sua pele dilaçerada, os corpos perfurados, a vida terminada. Alguns tiveram sorte e morreram na hora. Outros, não. Ainda estavam vivos quando eu sai: sangraram até a morte.

Eu matei o líder da gangue, o vereador, em sua própria cama. Ele provavelmente nem soube como morreu, completamente absorto em sua árdua tarefa de cheirar cocaína. Eu matei sua mulher, também, quando ela sacou um revólver contra mim. Eu não tive escolha. Era eu ou ela.

Quando eu entro no metrô, os passageiros parecem me julgar silenciosamente. Eu posso ouvir seus murmúrios, posso ouvir suas vozes em meu ouvido. “Você os matou”, eles dizem. “Você os matou e você não vai parar por aí”.

No colégio, eu não consigo me concentrar nas aulas. Não consigo me concentrar em meu lanche. Não consigo me concentrar em Renata. Nem mesmo sua atenção por mim, nem mesmo seu sorriso conseguem mais me trazer de volta à Terra. Ela ficaria tão decepcionada se soubesse. Ela teria nojo de mim. Nunca mais olharia na minha cara.

A única coisa que me faz relaxar, a única coisa que me distrai, a única coisa que me leva pra longe é a música. Se eu coloco meus fones de ouvido e por sorte tenho um momento de distração, eu sumo. O mundo desliga. Eu fico bem.

Eu não sei se eu consigo continuar. Eu não sei se eu consigo viver com isso. Deus, eu não sei se eu consigo.


14 de Maio de 2014. Diário de Ana Maria.

Escreva. Ana Maria, escreva.

Eu sei que é difícil pegar o metrô toda manhã depois de tudo o que nos aconteceu. Sei que é difícil ter de sentar ao lado das pessoas, ao lado de estranhos ou de seus amigos, e fingir que tudo está bem. Mas é para isso que você tem a música. Seu diário. Você mesma.

A difícil verdade é que você está sozinha nessa jornada. Ninguém pode saber. Ninguém, jamais, nem mesmo Renata. E é por isso que você nunca contará a ela. Nós caminhamos sozinhas por nossa jornada. É nosso dever e nosso poder, nossa graça e maldição. Deus, o universo, a natureza; seja o que for, te deu todo esse poder por um motivo. E você sabe exatamente qual é.

Você não deve perdoar ninguém. Você não vai perdoar ninguém. Você irá até o fim para vingar sua mãe. Você irá até o fim para vingar a você mesma. Você irá até o fim para vingar Alessa. E quando sua vigança estiver concluída, quando seus inimigos estiverem todos mortos por suas mãos, você irá atrás do resto. De toda a escória, de todos os vermes que rastejam por esse mundo podre. Seu nome se tornará tabu entre eles. Sua presença se tornará sinônimo de um encontro com a morte. A Guerreira será conhecida por todos e se manterá como um guardião que tudo vê.

Você não perdoará ninguém.


Fim da segunda parte do Prólogo.