Saudoso por sentir saudade

Henrique Sossélla
Aug 23, 2017 · 2 min read

Fernando estava apaixonado pela ideia de se apaixonar. Não era algo sem precedentes, também: o garoto sempre fora um romântico incorrigível. E de todas as características incorrigíveis nesse mundo de cínicos, ser um romântico talvez fosse a pior delas.

Encostado à parede, o garoto escutava o discurso do noivo no ápice da festa. Nunca havia prestado as honras de presenciar um casamento antes, e um desses, nada convencional, despertava-lhe tamanho interesse. Seus pais vez ou outra cochichavam do outro lado do extenso salão, espiando o filho; e Fernando imaginava o porquê.

Não fosse a necessidade humana de respirar, talvez o noivo nunca tivesse parado de falar. Se emocionava em meio à declarações, suas palavras tão belas e sinceras. Mas uma coisa o incomodava — não ao noivo, mas a Fernando: a noiva em nada participava. Permanecia sentada, quieta, ocupada com seu modesto pedaço de bolo. Era um bolo de creme, com cobertura de chocolate branco e morango. O tipo de bolo que Fernando odiava. O tipo de bolo de festa de adultos. Se fosse por Fernando, festas não teriam outro sabor de bolo que não chocolate.

Não era como se a noiva não se importasse, pensava Fernando. Mas não era como se ela desse a devida atenção, também. Estranhos choravam e parentes se emocionavam enquanto ela cuidadosamente escolhia qual pedaço seria o próximo a comer. Mas o mais estranho de tudo, talvez, era que Fernando a entendia por completo. Ainda pior: se via, sem esforços, na pele do noivo. Não agora, não com ela, mas se via. Era uma sensação estranha, essa de se ver em terceira pessoa, uma visualização tão clara quanto a que sua psicóloga provavelmente tinha dele.

Fernando tirou o celular do bolso e devolveu com um discreto bufar. Pensou em como os apaixonados do século XX jamais imaginaram a sensação de ver alguém online e sem te responder. Enviar cartas deveria ser a melhor e a pior sensação do mundo. Escrever, riscar, reescrever, amassar o papel e começar tudo de novo. Planejar palavra a palavra, e esperar ansiosamente pela resposta, tão cuidadosamente escrita, tão meticulosamente construída, tanto quanto a sua. O mais próximo que Fernando conhecia de algo assim era, talvez, conversas por sms.

Ele se lembrava, até. Da espera. Do arrependimento de apertar o “enviar” sem pensar direito. Mas, e disso ele tinha certeza, em nada seria comparável à sensação de enviar uma carta.

Quem sabe um dia. Quando o garoto finalmente se desapaixonasse pela ideia de se apaixonar e resolvesse começar a amar.

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    Henrique Sossélla

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    Todos acham que são os heróis de sua própria história.