Que mundo é esse, Aurora
A história de Aurora e Valentim começou em meados dos anos 90, quando os dois se encontraram em frente a um bar no centro de Buenos Aires. O ocho, siete, ocho foi o local escolhido para dar início a uma relação que nunca mais teria fim.
Desde o princípio, a relação entre o casal sempre foi de muito carinho, afeto e respeito acima de tudo. Ele, estudante de cinema, com pensamentos revolucionários e completamente apaixonado por viver uma vida a dois. Ela, alta e imponente, dona de um brilho nos olhos alimentado pelo desejo do saber, não abandonava os livros de filosofia, apesar de ser estudante da academia nacional de belas artes.
Devido a uma série de fatores determinantes, em uma bela noite de terça feira, veio a separação. Os dois temiam pelo futuro e, apesar de um bom convívio, decidiram que este seria o melhor caminho a se tomar. Os pensamentos dicotômicos cada vez mais evidentes fizeram com que Aurora e Valentim seguissem rumos opostos até muito tempo depois.
Em um certo dia, durante uma expedição exploratória em busca de um local para as filmagens de seu próximo longa metragem, Valentim voltou a cruzar o caminho de sua ex companheira. Em planalto elevado conhecido como Altiplano — localizado na zona central da cordilheira dos Andes, partilhado por Peru, Bolívia e Chile -, o dois se reencontraram depois de muitos anos sem se falar. A primeira vista, houve hesitação de ambas as partes, até que o já grisalho jovem senhor decidiu quebrar o silêncio:
- Muito boa tarde, vossa majestade.
Que em seguida foi respondido.
- Eu não o vejo há quase 10 anos e você faz brincadeiras fingindo que nada aconteceu?
Os dois se entreolharam, respiraram fundo e, depois de uma longa pausa, correram sorrindo até se abraçarem. Um acontecimento inesperado em um lugar inusitado. Foi assim o reencontro de Aurora e Valentim.
Depois de uma boa xícara de café, os dois passaram horas conversando sobre suas vidas e sobre tudo o que estava acontecendo até aquele momento. Contaram sobre as viagens que fizeram, os lugares e pessoas que conheceram, entre outros tantos assuntos.
Ao saírem para caminhar pelas ruas da cidade, o inquieto Valentim não conseguiu segurar seu ímpeto e aproveitou a companhia de sua velha companheira para desabafar.
- Que mundo é esse, Aurora, onde as pessoas tem passado cada vez mais tempo em busca de seus objetivos ao invés de aproveitá-los de fato?
O silêncio predominou.
- Que mundo é esse, em que relações baseadas em mentiras e segredos duram mais do que as transparentes? Será que ninguém mais vê?
Aurora respirou fundo, olhou fixamente para o horizonte, com os cabelos crespos ao vento, e falou.
- Eu não sei, Valentim. Este é um dos motivos que me trazem até este lugar. A busca por respostas. O desejo de resolver este enigma.
E Valentim rebate.
- Se ambos pensamos dessa forma, porque será que tomamos caminhos opostos?
Aurora tira as mãos do bolso e as leva em direção ao rosto de Valentim, como se enxugasse lágrimas que — até o momento — não haviam sido derramadas.
- Meu velho amor, para você é fácil falar. Depois de tudo que passou, dos aprendizados, das vivências e experiências, é natural que tenha esta clareza no pensamento. Agora imagine se há 10 anos atrás, ao invés de termos seguido caminhos opostos, tivéssemos continuado levando a vida que estávamos levando. Jamais poderíamos imaginar que o que sempre procuramos estava em frente aos nossos olhos o tempo todo. Nós éramos jovens, sem paciência para esperar, em busca de coisas que nem sabíamos bem o que eram. Não se culpe por isso e trate de abandonar estes pensamentos. O que aconteceu, está no passado, não volta.
Depois de muito tempo de silêncio, Valentim enxuga as lágrimas e encara Aurora.
- Você tem razão, nós éramos outras pessoas antes e só chegamos até aqui por conta destes acontecimentos. No entanto, o tempo está cada vez menor e se faz necessário tomar alguma atitude. Mudar o rumo da história. Fazer diferente, agora que sabemos como as coisas funcionam.
Aurora, então, respira fundo, como quem se tomasse fôlego para fazer alguma coisa, e fala.
- Foi por isso que deixei o mapa deste lugar junto de algumas fotos em sua caixa de correio, Valentim.