A busca por uma razão para existir nesse mundo
James Gray entrega uma obra única, capaz de tirar o fôlego em The Lost City of Z (Z – A Cidade Perdida)

Percy Fawcett, um condecorado coronel inglês cavalga nos campos de Cork, Irlanda junto de outros soldados em uma caça de veados. Essa caça, não se trata de um mero hobby dos cavalheiros ali no campo, mas sim de uma exibição de suas habilidades e competências perante as mais altas autoridades militares ali presentes. Em um jantar de gala, Percy confessa a sua amada esposa Nina de que não liga para condecorações e títulos, mas espera contudo reconhecimento e status, algo do qual sugere ser essencial para sua vida. Após entrar no recinto, Percy dança com sua esposa em meio a música no ambiente reproduzido fielmente a época, dos anos 1900. O fato de ter nessa caça ido atras com afinco e matado o animal o faria notório e por essa razão seria celebrada a sua conquista com o reconhecimento desse poderosos homens ali presente. O que não acontece já que um deles confessa reservadamente que Percy não é digno pelos seus ancestrais. Sua linhagem familiar manchada de alguma forma condena o reconhecimento de suas conquistas. Nesse plano temos a imagem de um homem a lutar consigo próprio em busca do seu lugar no mundo, e o mais importante o de sua família em um mundo carregado de boas aparências mas por trás a ignorar os bons homens e mulheres dignos de reconhecimento.
James Gray mergulha em uma era na qual as conquistas da dignidade do homem ainda eram escassas quando o assunto era o conhecimento da própria geografia do mundo e onde não havia nenhum instrumento mais valioso para determinar as fronteiras de países do que a coragem de homens para descobrir de fato. O diretor de Amantes, Era Uma vez na América e Os donos da noite traz uma visão tão intensa e perturbadora do ser humano e da busca por conquistas numa era em que a descoberta do desconhecido era o motor de paixões e vidas. Percy interpretado por Charlie Hunnam é o protagonista desse sentimento de desbravar e buscar conhecimento, depois glória e termina numa busca por sentido de sua própria vida.
Enviado para a fronteira entre Bolívia e Brasil no meio da floresta amazônica sob o pretexto de mapear a fronteira, uma vez que devido a um conflito entre as duas nações, a Inglaterra seria o árbitro no conflito ao definir as linhas que separavam os países. Percy teria a chance, dada às palavras do presidente da Royal Geographic Society, de obter reconhecimento próprio por sua bravura em troca de sua expedição na América do Sul. Percy aceita de cara o desafio para acima de tudo reaver o nome de sua família manchada pelos erros de seu pai. A RGS o adverte entretanto de que a viagem poderia custar a sua vida, não havendo garantias de seu retorno para casa. O sacrifício pareceu valer a pena, ao levar em conta que viver ignorado pelas pessoas e alta sociedade parecia demais para ele e sua família no futuro.
E dessa forma Percy junto de seu companheiro Henry Costin (Robert Partinson) sofrem de tudo. Mosquitos, cobras, inundações, ataques de fecha por índios. O inferno tinha nome e lugar, mas a descoberta de cerâmica na floresta amazônica despertou o interesse de Percy em retornar para a Inglaterra com determinação de encontrar uma cidade perdida, inteligente e tão antiga quanto a europeia. Sua esposa Nina (Sienna Miller) encontra cartas de portugueses a provar a existência de uma Cidade Perdida, e que transforma seu interesse em obsessão.
A fotografia é um primor. A direção de Gray conduz o expectador em meio a um próprio desbravamento do ambiente e ação ocorrida na floresta em meios as agruras dos personagens. A primeira cena do ataque dos índios em um rio da floresta amazônica, em que do ar surgem uma série flechas voando sobre o barco e o rio cheio de piranhas é de tirar o fôlego. A trilha sonora é uma aventura em si só a conduzir momentos de pânico, dor e compaixão. Esse é um prato cheio para Gray conhecido por roteiros épicos onde percorre o túnel do tempo de famílias e vidas em meio a tragédias e uma busca por um sentido na vida (ele também assina o roteiro).
Ao fim Percy vê seu filho Jack crescer e virar Tom Holland (nos cinemas como o novo Homem Aranha). De início o relacionamento com o pai era duro e difícil ao ver ele abandonar sua família para ir em expedições e passar anos fora. Quando seu pai vai para a Primeira Guerra Mundial, a relação azeda de vez. Esse é outro ponto no roteiro onde somos conduzidos para um outro cenário para o coronel: o da destruição da humanidade. Seu papel acaba sendo reduzido em nome de um sacrifício humano que não fazia parte de suas intenções na vida. A obsessão em retornar para a Amazônia sempre esteve ali, principalmente quando uma vidente russa lê sua mão. O futuro ainda guarda o seu destino.
Ao voltar da guerra, Jack pede para sua mãe para retornar com seu pai para uma expedição no Brasil com seu pai. Ela de cara permite. Questionado por Percy, Nina admite que não tem como fazer a cabeça do filho. O destino que vemos no final mostra que o desejo de desbravar o desconhecido sempre cobra um preço amargo. Nem sempre descobrir o desconhecido vai dar aquilo que se espera. A morte pode ser um fim.
O desfecho deixa na mão do expectador a crença na existência de uma cidade perdida. A bússola devolvida por Nina ao chefe da Geographic Society deixa a imaginação do expectador a flutuar. Gray se permite uma intervenção artística incrivelmente bela ao mostrar Nina indo em direção a uma porta que a leva para uma floresta. No fim todos temos como último recurso acreditar no inacreditável, por mais que tudo parece improvável demais.
