A selvageria dos filmes de Ben Wheatley

High Rise e Free Fire formam uma constante nos filmes do diretor inglês: Hobbes sempre teve a razão.

Em dois momentos. Acima junto dos atores de High Rise e abaixo no set de Free Fire.

O Homem sempre esteve propenso para a violência. Thomas Hobbes surge com sua obra maior, o Leviatã, com o intuito de propor que todos os homens passam por um estágio em que passa de sua forma natural para a busca de suas ilimitadas liberdades individuais, em que argue para si o direito sobre todas as coisas. O seu estado selvagem é o estágio seguinte onde o homem passa a expor seus vícios, marcas e conflitos. Sem o leviatã, uma autoridade moral e superior, os homens reunidos são propícios a demonstrar a sua maldade, onde a vida passa a ser desagradável, brutal e curta. A vida humana para o diretor de cinema Ben Wheatley se resume a busca de um entendimento que reduz-se a falta de dialogo e a selvageria. A proposta de dois de seus filmes recentes traz essa moral da história: os intrigantes e belos filmes High Rise (2015) e Free Fire (2017).

Após catapultar com o polêmico Sightseers (2012), Wheatley cria duas obras primas ao tratar da natureza humana, sob uma perspectiva cômica por diversas vezes e soturna em outras. A boa intenção surge na imagem do homem natural. Sua intenção é conhecer o ambiente em que se adentra e tentar criar um diálogo saudável, como um animal cheirando o ambiente. Ao passo que cria conflitos a partir da consciência moral e gera vícios, o que vem a ser a formação de uma virtude. O último estado passa a ser o civilizado, onde o indivíduo insere interesses pessoais e cria um conflito onde a sua consciência moral é abafada, gerando pessoas egocêntricas e individualistas ao desejarem o conflito e a violência como um meio de resolver os seus dilemas.

Em 'High Rise’ (No Topo do Poder, no Brasil), de 2015, um arquiteto de nome Royal (Jeremy Irons) concebe um projeto ousado em que torres gigantescas formando a palma de uma mão aberta e os dedos em pé servirá de uma fortaleza contra o mundo exterior. Nele vivem pessoas distintas e que ao seu modo dialogam ou não entre si. Ao passo que os residentes nos andares inferiores se sentem deixados de lado, em comparação aos residentes dos andares de cima, surge o conflito de classes. Um médico chamado Laing passa a ser a figura que se sobrepõe a esse estado de natureza. Interpretado pelo ótimo ator Tom Hiddleston, Laing em seu destoante terno preto, camisa branca e gravata preta, surge como um homem desiludido com as promessas do mundo exterior e busca na vida dentro das torres, um mundo justo e ideal. O filme inicia com ele anos a frente em terceira pessoa dizendo estar satisfeito apesar das imperfeições do local. Coberto de caixas de papelão e de paredes que precisa de pintura (de preferencia cor cinza), ele se muda para os prédios se acomodando no andar 25. Em um momento de descanso, ele se encontra nu e deitado em uma cadeira de praia coberto apenas por uma toalha laranja. Distraída, a vizinha do andar de cima de nome Charlotte (Sienna Miller) deixa cair um vaso estilhaçando-se na varanda do apartamento de Laing. Ela com o seu cigarro aceso estava com um outro conhecido do prédio, o fio condutor da história Wilder (Luke Evans). A interação entre personagens se encontram nessa cena em particular. Após festas atrás de festas, os personagens criam laços entre si, e sobretudo deixa evidente o motivo maior de discórdia entre os residentes dos andares de baixo com os do de cima: as festas. Colidem por reivindicar direitos sobre tudo e se vêem no direito de transgredir em nome de uma causa justa. As festas viraram um modo de se sobressair entre as classes.

O personagem Wilder, como o próprio nome ironicamente diz, passa a ser o causador de boa parte das transgressões. O seu intuito é falar em nome daqueles que não tem acesso ao topo do poder. O que há de mais brilhante neste filme de Wheatley é como o diretor nos revela a escalada de selvageria. No começo há um intuito de escapar do mundo exterior e recomeçar, como prega o doutor Laing. Com o passar do tempo, toda uma ideia básica de viver em comunidade deixa de existir nesses prédios localizados em algum lugar de uma Londres atemporal com carros e roupas dos anos 70. O filme é baseado em um romance de ficção científica de J.G. Ballard lançado em 1975.

O visual dos prédios assustam justamente para causar repugnância e intimidação, pelo tamanho gigantesco. As cores da tinta cinza no rosto de Hiddleston dialoga com o céu e as paredes de seu apartamento: ele se torna aquilo que ele se encontra em uma fusão do externo com o interno. O local faz parte daquilo que ele é. Os cigarros acesos constantemente e o sexo livre beiram a busca por um estado de espírito dos anos 70, mas sobretudo demonstra que ninguém consegue escapar dos seus vícios e costumes. O que fica é o desespero na consciência daqueles que buscam escapar de suas realidades fora do prédio. Elizabeth Moss, como a esposa infeliz de Wilder imprime uma baita performance.

Em 'Free Fire’, lançado neste ano, Wheatley retorna com uma trama mais simples, porém mais enérgica e frenética. Boston, 1978. Vemos um grupo de pessoas no aguardo do enviado de um traficante para iniciar uma transação de metralhadoras por dinheiro. A intermediária entre as gangues é interpretada por Brie Larson no papel de Justine. Ela se encontra junto de Chris (Cillian Murphy) e Frank (Michael Smiley), assim como dos paspalho Stevo (Sam Riley) e Bernie (Enzo Cilenti). Ao serem recepcionados por Ord (Armie Hammer), o grupo entra em um galpão onde deverá ocorrer uma simples transação: AR-16 por dinheiro. O que acaba não acontecendo.

Produzida por Martin Scorsese, o filme é a prova do sucesso de Wheatley como diretor nos dias de hoje. Sua visão segue intacta com um clima de violência entre as gangues que cresce de forma cômica por vezes, da mesma forma como outros filmes em que mantém-se como roteirista. Ágil e inteligente, mantendo o clímax em tomadas precisas, 'Free Fire' não perde o ritmo dentro das suas uma hora e trinta e um minutos de filme. As tiradas cômicas com personagens muito bem criados vira uma das dádivas aqui. O ator sul africano Sharlto Copley não só mantém o seu sotaque como consegue criar ótimos momentos no filme.

A selvageria crescente no filme surge a partir de uma discussão entre dois personagens secundários e que ganha força até fazer com que todos deixem de manter uma postura social para expor a barbárie total com tiros atrás de tiros até mesmo por engano entre eles mesmo. Brie Larson, pulsante e ótima como Justine entra no jogo de sarcasmo dos homens. Delicioso de assistir, já virou uma das melhores coisas que o cinema fez esse ano. O diretor inglês mantém a sua incendiária metralhadora de boas idéias sem deixar de mostrar a verdadeira natureza humana.

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