the handmaid's tale

O que se passa em nossos corações ao vermos a condição humana degradada aos poucos e de uma maneira tão dura e impiedosa? O modo como ocorre hoje com certos grupos principalmente sob uma América tomada pelo medo pós-Trump traz um certo vislumbre do que significa ter medo. E o medo só pode ser combatido com a esperança. Em The Handmaid's Tale, série baseada no livro de Margaret Atwood (No Brasil conhecido como O Conto de Aia), somos convidados a conhecer um futuro distópico em que os Estados Unidos passa a ser Gilead, um território comandado por um grupo de extremismo religioso totalitário que trata as mulheres como propriedade do governo, sobretudo as Marthas, que são as serventes e as Aias, que são mulheres férteis que servem somente para procriar com homens de alto grau hierárquico, os comandantes. Isso ocorre sobretudo pelo baixo número de crianças nascidas e da necessidade de aumentar o número de pessoas, ainda mais após uma grande guerra ocorrida no próprio país após os ataques terroristas perpetrados por esse grupo religioso que destruíram Washington, Nova York e Boston, além de outras cidades.

O modo como a série criada por Bruce Miller retrata a condição das mulheres em um lugar antes conhecido pelo liberdade de expressão é de dilacerar os nossos sentidos. As imagens criadas pelo olhar preciso de Colin Watkinson e do diretor Reed Morano nos transportam para o cerne da dor e da angústia de pessoas em busca de sobrevivência. O terror nos olhos da atriz Elizabeth Moss (em um papel que a coloca no panteão das grandes atrizes) causa arrepios, e toda a sua jornada de humilhação nos destrói, como em um instante em que por uma hora a cada dez episodios somos levados por sua coragem e bravura. A trama é intercalada por flashbacks que jogam ao espectador uma certa capacidade de ver os personagens, tais como na fuga da personagem de Moss antes de se tornar uma Aia, de nome June, junto de sua filha e marido. A escalada até a inevitável e já previsível captura só torna mais doloroso assistir a situação presente de Offred, o seu nome como Aia.

A condição das mulheres como um todo serve para preencher os nossos pensamentos sobre o que conduz elas a sofrerem acusações de incitar os crimes contra elas próprias, numa completa inversão de valores. O medo de se expressar é fruto dessa vigilância sobre os seus atos, seja numa acusação de estupro como na busca por seus direitos. Hoje estamos no apogeu desse despertar e na vida real por mais que os Estados Unidos tenham eleito um presidente que diz agarrar mulheres pela bu#$%, a grande população seja de homens ou de mulheres não toleram o abuso como o retratado na série, entretanto não custa ficar atento e vigilante para a massificação desse tipo de ultraje contra a condição da mulher. Na série ouvimos corriqueiramente a personagem da Tia Lydia (em mais um papel arrebatador da atriz Ann Dowd, depois do furor em The Leftovers) chamar as Aias de vadias. O termo vadia se refere a condição ao qual muitos na sociedade vêem mulheres independentes e bem resolvidas. Para uma sociedade correta aqui, elas devem se sujeitar ao homem e ponto. Seja perante a lei divina, ou na obscuridade atuando como prostitutas, visto no episodio oito 'Jezebels'.

A personagem interpretada pela atriz Yvonne Strahovski, a esposa do comandante Fred Waterford (Joseph Fiennes), de nome Serena Joy ajudou a escrever as leis em Gilead, que fizeram tomar os Estados Unidos de assalto para a instauração de um novo modelo de justiça e bem estar, como o seu marido e comandante Waterford diz para a sua Aia Offred “(o termo) 'melhor’ nunca significa melhor para todos… sempre significa pior para alguns". Para ela, o seu mundo foi de certa forma degradado. Em um certo momento, vemos que Serena Joy, antes de ser apenas um enfeite numa sociedade controlada por homens, foi uma escritora renomada. O poder de sua própria busca por uma sociedade controlada a fez também se sujeitar a tudo em nome de um bem maior: onde as passagens da bíblia servissem de pretexto para uma terrível realidade.

Soldados vigiam a todos nessa sociedade forjada de Handmaid’s Tale. Como em toda sociedade totalitária, ouvimos saudações para o que os rege. Aqui regida pela religião ouvimos cumprimentos como “Abençoado seja" ou “Sob os Seus olhos". Todos os dias, as Aias saem em pares para comprar mantimentos para as casas de seus comandantes e no caminho rezam para os que morreram, num muro onde pode ser visto pessoas enforcadas apodrecendo aos olhos de todos. Todos os meses, elas devem se deitar na cama, colocar a cabeça entre as pernas da esposa do comandante, enquanto ele a fecunda. Muitas tentam escapar para o Canadá, outras buscam o amanhecer de uma revolução. Nada sobrevive sob os olhos Dele sem que não haja dor e humilhação. O estupro é recorrente.

Na escuridão de um furgão preto, a Aia June entra em busca de seu fim ou recomeço. Após se negar a apedrejar a sua parceira Aia Janine e incitar todas as suas companheiras a fazer o mesmo, ela lança o seu destino ao desconhecido. As consequências serão reais, como deixa claro a tia Lydia. Em seus pensamentos, surgem a falta do que temer, após ter sofrido o bastante para não possuir qualquer sentimento. Tudo acaba se resumindo numa luta que está prestes a começar.

Um detalhe: a trilha sonora competente de Adam Taylor e as canções na série indo de Nina Simone a Tom Petty transformam a série numa experiência além do imaginável. 'American Girl’ de Petty and The Heartbreakers é a canção que toca nos letreiros no último episódio. Extasiante.

A série será exibida no Brasil em 2018 pelo canal Paramount Channel. Originalmente foi exibida esse ano nos Estados Unidos pelo serviço de streaming Hulu, em parceria com a MGM.

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