U2 é uma banda qualquer. E isso é ótimo.

Show que rolou em 2006 no Estádio do Morumbi, com a Vertigo Tour.

Certas bandas desenvolvem um apelo ao público que beira em certos termos a uma verdadeira religião. The Beatles nos anos 60 causou caos e torpor por onde passava. Bastava Paul McCartney e John Lennon se juntarem em um palco e iniciarem os acordes de ‘Twist and Shout’ que todos ao redor delirava, desmaiavam e até mesmo entravam em transe. Não qualquer transe, mas um no qual poderíamos perder os sentidos. Basta uma canção chegar no seu climax que todos se perdem no espaço e tempo em que estão. Com a banda irlandesa dos anos 80, U2 não é diferente. Cada canção que colocam se não levantam a causas políticas, se embebedam do maior sentimento humano: o amor. Pelo amor, divagam sobre amizade, solidão, paixões, e por aí vai. Sentimentos que vão a flor da pele em shows dos quais o U2 realiza no mundo todo e agora no Brasil com uma nova turnê.

Serão realizados quatro shows no Brasil todos na cidade de São Paulo e por mais que a maioria já tenha se acostumado com o caos da vinda da banda, impressiona o alcance em que os músicos atingem no país. Centenas e centenas de pessoas, de todas as raças e estaturas sociais se amontoam em frente ao estádio do Morumbi para esperar por mais de doze horas a entrada no local. Creio que até para uma banda como eles o sentimento é o de deslumbre. Sobretudo no Brasil, seu alcance é próximo dos The Beatles. O que ambos têm em comum é o repertório que possui melodias que abraça e conforta. Poucas bandas souberam cantar e criar sons que entrassem nos seres humanos e falasse sobre amor, medo, sentimentos, desejos.

O maior torpor vem na criação talvez de sua maior obra-prima, o clássico The Joshua Tree, no qual é tema da turnê que vem ao Brasil. O disco completa 30 anos em 2017 e retorna aos holofotes pelos momentos políticos que vive o mundo, de acordo com entrevista da banda a Rolling Stone americana. ‘Where the Streets Have No Name’ e outras canções sabem expor por meio de hinos apoteóticos conversar com as nossas desilusões, sejam elas políticas, religiosas ou amorosas, como podemos ouvir em ‘I Still Haven’t Found What I’m Looking For’ e ‘With or Without you’, respectivamente.

Muitos consideram ‘The Joshua Tree’ o ultimo momento em que a banda conseguiu demonstrar o seu furor sem parecer piegas. No disco seguinte, em ‘Achtung Baby’ muitos o rotulam como um disco mais comercial. Sou contra a afirmação, acho que virar ‘mainstream’ é um passo inevitável de uma grande banda e o U2 soube se manter no topo, mesmo nos últimos anos quando ficou hibernada por um tempo. O que a banda não pode se tornar é rótulo de maior banda do planeta, por mais que inevitavelmente já seja. Nenhuma banda deve se considerar tal, muito em parte porque criativamente se tornam uma paródia de si mesmos e não deixam espaço para inovar e inventar.

E a banda mantém a chama acesa, sem parecer uma banda gigantesca, pelo contrário. Soam por vezes uma banda qualquer. Em 'No Line on The Horizon’, disco que foi lançado quase dez anos atrás, boas partes das canções eram pura experimentação. Basta ouvir 'Cedars of Lebanon' e perceber em demais faixas do disco. Além do mais os produtores que acompanham a banda sempre refletem o som que a banda transmite em cada momento. Seja durante a fase Passengers, grupo formado pela banda junto com o renomado produtor Brian Eno, assim como a fase atual com Danger Mouse (The Black Keys, Gnarls Barkley). Muito se fala que a banda se vendeu e virou uma banda pop. Bullshit.

Uma curiosidade é que a banda não é tão exaltada na terra natal, Irlanda ou no Reino Unido. Em ambos os países, muitos consideram a banda exagerada e que não faz mais sucesso.

Nos shows que começam hoje resta aproveitarmos para perceber o significado das suas canções para o mundo, seja esse o dos nossos medos internos ou dos nossos medos no poder.

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