Numa cena muito bonita de “La grande” (romance de Juan José Saer) em que Nula, o descendente de sírios vendedor de vinho, lembra da tatuagem na mão do avô, a que ele estava acostumado quando criança e reviu quando ele estava morto, que muitos anos depois ele entende ao lembrar da cena do reconhecimento de Ulisses pela ama Euricleia, por uma cicatriz na coxa, e que relaciona ao momento da volta para casa, em que o avô e outros sírios se reconheceriam pelos sinais nas mãos, apesar de todo o tempo passado e as modificações impostas pela vida em lugares diferentes.

Na primeira vez em que li, lembro de ter gostado dela, mas se tivesse de explicar racionalmente talvez no máximo tivesse achado a cena “engenhosa” pela relação com a Odisseia, e por Nula reconhecer o sentido da tatuagem, que havia se transformado num enigma com a morte do avô, ao lembrar do Reconhecimento de Ulisses — uma justaposição literária.

Mas justo agora, anos depois da morte do autor, que também era descendente de sírios, sírios e sírias se dispersam pelo mundo outra vez. No livro, a volta para casa do avô é adiada, e no fim definitivamente cancelada, quando o filho morre de um modo obscuro, mas talvez relacionado à oposição à ditadura na Argentina. Da mesma forma, o retorno das novas gerações é imprevisível, fugindo da guerra, das barbaridades do ISIS e da falta de condições mínimas de sobrevivência.

Em certa altura, Nula recorda que o plural nostoi (“os retornos”) se refere a uma série de epopeias que narram o regresso dos heróis gregos à casa, mas que só o de Ulisses sobreviveu e chegou até nós. A tatuagem do avô, raciocina Nula, talvez ficasse como uma única conquista, um sinal para “aqueles que os tinham visto partir, e continuavam esperando, pacientes, seu regresso, no lar ou no Hades.”