Sobre o que sonhamos quando estamos acordados…

…ou alguma coisa nada parecida com o filme Inception.

Eu perdi a habilidade de sonhar. Não, não nesse sentido poético, em que se perdem perspectivas. Tá, um pouco nesse também. Mas eu perdi a habilidade de sonhar literalmente, por causa da bomba de remédio anti convulsivo que me vi tomando sem nem ao menos ter a escolha. As noites se tornaram vazias, como um estádio onde rola um jogo decisivo sem torcida. Os únicos sonhos que persistiram por todos esses 3 anos, foram aqueles bem nefastos, em que a gente tá caindo e acorda no fim da queda.

Um belo dia, como um disjuntor que cai, algo na minha cabeça (em já conhecido curto circuito) trocou de fase. Aquela noite eu sonhei algo e lembrei quando acordei. Logo eu, tão cético, na certeza de uma epifania. No sonho, eu estava num lugar que parecia uma fábrica antiga. Ela flutuava por entre nuvens, que por sua vez, flutuavam num céu azul risonho e límpido de fazer inveja ao hino do Brasil. De repente, uma voz, estrondosa, me diz:

Me acompanhe. Preciso te mostrar uma coisa.

Entrei dentro dessa fábrica. Haviam prateleiras e mais prateleiras, com muitos livros. A voz estrondosa novamente se dirigiu a mim, dizendo que aquelas eram minhas lembranças. Olhando de perto, vi apenas as piores. Num impulso, enfiei-as de volta na prateleira. Isso fez toda a estante cair. E em efeito dominó, caíram todas. E todos aqueles livros, batiam uns nos outros, destruindo-se até que não restasse mais nada, apenas um enorme galpão, de tijolo aparente e janelas muito altas.

A voz veio novamente, dessa vez, passando pelos meus ombros. Disse que tudo havia sido destruído e que agora, havia espaço para que eu criasse memórias novas. Mas…”cuidado…” disse a voz. E completou:

Muito cuidado, porque assim como eu olho por você, o diabo também olha. E ele tem muita inveja.

Acordei sobressaltado.

Puta que me pariu. O que tinha sido aquilo? Eu alucinei? Foi tudo real? Logo eu, e digo novamente, logo eu, tão cético? Eu sabia o que era aquilo, só custava a acreditar. Aquilo mudou minha vida. Decidi que efetivamente, era a hora do passado ir embora e de criar novas memórias.

Quando nosso coração está aberto para o mundo, algo conspira. É um clichê, parece lero lero de goodvibes. Mas é real. Alguma coisa dentro do nosso olhar para a convivência com os outros muda, e muda a forma como os outros te vêem. E um olhar mudou tudo de novo. Um olhar dos mais profundos olhos azuis esverdeados que eu já recebi nessa vida. Um olhar descompromissado, mas decidido. Um olhar que eu só gosto de não ter, quando repousa sob as pálpebras enquanto dorme.

Com o que ela sonha?

Eu imagino, sempre. Eu tento desvendar. Será que é comigo? Nessas noites do mais puro afago, é tudo um sonho, ou será real? Onde eu comecei a dormir, em que parte acordei, onde eu estava? Sabe, eu sempre imaginei o lugar onde a gente sonha como um mundo à parte desse em que vivemos. E o ato de dormir, como uma sublime passagem para o outro lado. Tenho aprendido através de tanto amor que na verdade, tudo é uma coisa só. E que sonhar acordado é muito mais satisfatório do que dormir. Tudo parece coberto em névoa. Tudo. Ultimamente, tudo parece coberto por uma névoa, uma aura. E eu preciso ser repetitivo, pra tentar achar maneiras de definir isso. Mas a única é essa. A sensação de estar recoberto por uma proteção que deixa a vida toda mais bonita. Que fortalece, que dá coragem pra acordar e sossego pra dormir.

Mulher dos olhos de loba, eu não sei com o que você sonha, mas aprendi que amar é querer que a pessoa ao lado sonhe com as coisas que mais gosta. Então eu desejo é que você sonhe que está nadando numa piscina de dinheiro, depois suba num unicórnio intergaláctico e viaje para os anéis de saturno.

Quando você voltar, eu vou estar aqui do lado, no travesseiro vizinho e talvez já tenha saído Sol e seja a hora de viver um pouquinho mais do nosso sonho no mundo real.

Agora, se ainda for noite, bem, você já sabe o caminho.

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