A bola da vez: política

Com certeza vocês já ouviram alguém dizer que “estão tratando a política como futebol”. Provavelmente, muitos dos que agora leem este texto já repetiram essa frase ou alguma semelhante. Contudo, quantos de vocês já pararam para analisar as reais semelhanças entre a maneira como o brasileiro tem demonstrado interesse pela política e a maneira como ele encara o futebol? Vamos analisar as semelhanças.

Primeiramente, vamos falar da maneira como a alegria é demonstrada. Quando um time obtém uma vitória, o comum é que se ouçam fogos de artifício, gritos e buzinas por parte de quem estava torcendo por ele. Não por acaso, é a mesma maneira que desenvolvemos para comemorar as vitórias que os representantes da nossa posição política tenham. Não por acaso, é essa reação que vemos e ouvimos quando as emissoras transmitem algo que contempla nossas expectativas em relação ao cenário político. Contudo, essa é a só a ponta do iceberg das semelhanças, afinal, soltamos fogos e fazemos barulho para praticamente tudo, não somente futebol e política, certo?

Isso nos leva ao segundo ponto da comparação: as passeatas (ou manifestações, como preferir). Quem nunca viu a entrada ou a saída de um campo de futebol em “dia de clássico”? Quem nunca viu a multidão usando os diferentes uniformes que representam seu time, gritando, levantando faixas, soltando fogos e interrompendo o trânsito das ruas por onde passa? Se para você essa cena não é conhecida, basta olhar as manifestações que repetem tudo que foi falado previamente. Incluindo as fotos postadas nas redes sociais para demonstrar seu “amor ao time” e sua presença no “estádio”. De qualquer forma, essa “festividade” não é necessariamente prejudicial, certo? Coincidem-se as maneiras de demonstrar seu afinco em relação a um determinado assunto, mas isso não invalida sua posição, correto? Correto. Então acho que já podemos partir para as partes mais preocupantes da comparação.

Rivalidade. Essa palavra por si só não é ruim. O que ela representa, tampouco. Como demonstramos e a que nível a elevamos, aí sim, mora o perigo. Quantos casos de agressão entre torcidas conhecemos? Quantos de nós conhece pessoas que praticaram ou sofreram agressão por conta dessa rivalidade? Quantas brigas de torcida vimos noticiadas, repletas de selvageria, violência e até mortes?

Recentemente, assim como nos estádios, vimos uma barreira separando as “torcidas rivais”. Notaram esse detalhe?

Fonte da imagem: UOL

Antes que você me diga que o cenário atual da política está longe de um “Palmeiras x Corinthians”, pense: é realmente necessário deixar que chegue a esse ponto? Tenho certeza que muitos de vocês já viram notícias de gente se agredindo, ao menos verbalmente, por vestir uma roupa que remete à posição contrária à ideologia dos agressores. Não somente isso, tenho certeza que já viram notícias sobre bombas caseiras, barras de ferro e demais objetos que podem (e com certeza tinham essa função) causar danos físicos, sendo apreendidos em manifestações. Repito: é necessário que a rivalidade chegue ao ponto de causar ferimentos e mortes para que nós deixemos de expressar nossa opinião de forma totalmente parcial e cheia de ódio? Aliás, “expressar a opinião de forma parcial” é exatamente o que me leva à última e, na minha opinião, mais perigosa comparação dessa análise.

Qual torcedor nunca ficou furioso por ver seu time perdendo de forma injusta? Mais que isso, qual torcedor nunca considerou como injusta uma punição que um jogador de seu time tenha levado, mesmo que ela tivesse sido de fato justa? Se você não gosta do esporte, tenho certeza que você conhece alguém que gosta, da mesma forma que tenho certeza que já ouviu essas pessoas reclamarem de algo desse tipo.

Quantos de vocês, torcedores, aceitaram e ficaram felizes quando o time beneficiado pela injustiça foi o seu? Quantas vezes vocês ouviram alguém proferir frases como “É mais gostoso ganhar de vocês roubado!” ou ainda “É…foi roubado, mas fazer o que…”? Mesmo os mais prudentes e sensatos pecam nesse quesito, uma vez que basta um pouco de sinceridade e honestidade para admitir que a indignação que se sente ao ver seu time ser injustiçado, é maior que a de ver seu time beneficiado pela injustiça.

Aqui está a semelhança mais prejudicial entre a forma como acompanhamos futebol e como acompanhamos política em geral: nossa parcialidade, quando decidimos apoiar uma injustiça, ou pior, quando decidimos justificar algo injustificável. Nesse ponto, o futebol realmente é uma comparação insignificante perto da política. Para nós, torcedores, as consequências disso em nada interferem, a não ser em nosso sentimento de alegria ou tristeza momentânea. Contudo, para nós, eleitores e para nós, cidadãos, essa parcialidade na forma como a justiça é aplicada, essa subjetividade na forma como encaramos justiça, é algo inaceitável e repleto de consequências.

Muitas vezes, nos escondemos atrás do popular “dois errados não fazem um certo”, como forma de contradizer alguém que o acusa de estar sendo parcial na forma como cobra punição. Contudo, isso é uma falácia. Não pela frase em si, pois dois errados realmente jamais farão um certo, mas na maneira como a usamos. Se todos sabemos que dois errados não fazem um certo, por que nenhum de nós dá o braço a torcer? Por que justificamos nossos próprios erros com o erro dos outros? Por que julgamos que estamos apenas cobrando justiça, quando na verdade estamos cobrando justiça para aquilo que somos contra, ao invés de reconhecer que a mesma justiça também deve ser aplicada naquilo que apoiamos?

Somos todos muito arrogantes, carecemos de humildade. Não temos humildade de dizer “Eu errei no meu julgamento”. Não temos humildade de dizer “Tudo que eu disse, apoiei e dediquei tantos esforços, não era o correto, no final das contas”. Sobra arrogância ao apelar para a desculpa do “bem maior”. Sobra arrogância ao achar que “os fins justificam os meios”. Sobra ignorância ao culpar alguém por algo e usar o mesmo erro para julgar e punir.

Tenham empatia. Mais humildade e menos arrogância. É preciso mais coragem e mais sabedoria para admitir um erro do que para confirmar a razão.

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