Frio
Estou sempre correndo.
Todos os dias, com a enxurrada de obrigações, muitas vezes nem vejo o tempo passar. E, embora outros quisessem parar essa corrida diária, eu nunca quis.
Começou pelos meus extremos:
Minhas mãos estavam azuis, não conseguia me agarrar a nada.
Meus pés pesavam 1 tonelada, não queriam sair do lugar.
Minha mente estava lenta, não mais pensava com clareza e eficiência.
Tentei me aquecer ao máximo, o mais rápido que pude.
Falhei.
Se espalhou com uma vagareza excruciante, lembrando-me a cada segundo de sua presença.
Sinto-o chegar na espinha e agora todos os alertas estão ligados. Eu preciso interrompê-lo rápido.
Falhei novamente.
O medo toma conta de mim. Tento gritar por ajuda, mas minha garganta está congelada e minha voz já se foi. Tento meditar, mas já não consigo respirar.
Não consigo me mover, não consigo pensar, não consigo revidar.
Ele consome o meu peito. Meu coração tenta expulsá-lo à força, com incessantes e caóticas palpitações. Batidas que fraquejam aos poucos, assim como eu fiz. Vão desistindo de tentar, assim como estou fazendo. E, assim, o terror vence e o invade de vez.
Então, de alguma forma, comecei a correr.
Corri o mais rápido que pude, em direção a um lugar desconhecido. A princípio, me senti estranho. Incompleto.
Tudo voltou a funcionar novamente, e eu estava de volta à ativa. No entanto, nada era o mesmo. Ainda vagava sobre mim a gélida lembrança de estar totalmente sem esperanças.
Então sempre estou correndo. E não quero parar, pois sei que se o fizer, ele voltará.
Mas, sou humano.
E humanos não podem correr pra sempre.
