Matt Dillon e o verão da liberdade

Havai, setembro de 2015 / Foto: Hérica Marmo

Durante muito tempo, eu tinha um pesadelo recorrente. Chegava a um lugar público, lotado de pessoas muito bem vestidas e, de repente, eu me dava conta de que estava completamente nua. Desesperada, sem saber o que fazer com tamanha vergonha e sem encontrar um caminho para sair dessa situação embaraçosa, acordava. Assustada, mas aliviada por ser só um sonho ruim. Nessa época, eu relacionava esses episódios a um antigo complexo em relação ao meu corpo.

Quando eu era adolescente, deixei de ir à praia porque não queria que ninguém me visse de biquíni. Não foi sempre assim. Sem qualquer problema com a balança, fui uma criança que passava de índia a neguinha a cada verão, já que vivia na praia ou na piscina. Mas num determinado momento da minha vida, apareceu uma amiga cheia de problemas com o corpo. Eu, que nunca havia me preocupado com estria, celulite ou flacidez, também comecei a notar um sem-número de falhas ao me olhar no espelho.

Essa paranoia me acompanhou por boa parte da vida adulta. Se eu já não evitava a praia de todo, passava metade do tempo plantada na cadeira e a outra vestida com a saída de praia.

Foi assim até o inesquecível verão de 2005. Dessa vez, eu estava com as amigas certas. Bonitas, seguras, divertidas e… praieiras! Todo fim de semana de sol, elas passavam o sábado e o domingo na praia. Chegavam no início da tarde (depois de se recuperarem da noitada da véspera), ficavam na areia até o pôr do sol, para engatar num “almojanta” em algum restaurante pelas redondezas.

Como não queria perder a companhia delas, eu me inclui no programa. Confesso que nas primeiras vezes repeti o ritual cadeira-saída-de-praia na tentativa de me tornar invisível. Até que chegou o tal verão. Eu não sei dizer o que estava diferente. Mas o sol, de alguma maneira, me transmitia mais alegria.

Nesse mesmo verão, atores hollywoodianos decidiram passar o réveillon no Rio. Ninguém sabia. Não saiu em coluna alguma. Talvez nem eles tenham se falado antes. Mas estávamos lá, no mesmo ponto de sempre, quando Matt Dillon apareceu só de bermuda, pronto para um mergulho. No dia seguinte, era Jared Leto quem dava pinta. Eu não vi, mas me disseram que Scott Speedman também deu o ar da graça – sem a Felicity, que eu saiba.

Matt Dillon mergulha em Ipanema / Foto: Adriana Maximiliano

E foi o Matt Dillon que acabou me libertando do meu complexo (maldade achar que foi porque a barriguinha que ele ostentava me deixou mais à vontade…). O que aconteceu foi que, horas antes de ele se materializar diante da minha cadeira, uma das minhas superamigas me falava dos seus atores preferidos da adolescência. Ela passou alguns minutos elogiando o astro de “Drugstore cowboy” e, em seguida, levantou e foi mergulhar. Juro que tive que perguntar algumas vezes se era mesmo o ator de Hollywood que estava na nossa frente justamente quando a maior fã dele no grupo simplesmente havia desaparecido. Mister Dillon ficou por lá, exibindo seu (não) bronzeado gringo e nos dando tempo de confirmar que, sim, era ele em carne, osso e pele (muito) branca.

Foi o cara decidir mudar de barraca para a minha amiga aparecer. Claro que ela não acreditou quando perguntamos “Adivinha quem estava aqui agorinha mesmo?”. Quem acreditaria? Quando a convencemos, ela me implorou: “Vamos atrás dele, por favor!”.

Não sei explicar o que aconteceu. Não sei se foi o sol que brilhava diferente, não sei se foi a energia que absorvi num mergulho ou se a convocação involuntária de um ídolo da adolescência gerou alguma vibração especial. Sei que eu levantei da cadeira e fui – só de biquíni – rodar pela praia com a minha amiga atrás do astro perdido.

Eu nunca me senti tão livre!

De repente, o óbvio passou a fazer todo o sentido! Não, eu não estava mais magra. Não, eu não estava tão gostosa quanto gostaria que fosse. Mas aquele era o MEU corpo. Se ele, por acaso, não agradasse a alguém que por ventura olhasse para mim, não era problema meu. Aquela era eu, inteira, do jeitinho que era possível e eu estava, finalmente, livre.

Caminhamos um bocado e, apesar do meu risinho bobo diante de uma novidade na minha vida, não encontramos o Matt Dillon. Mas, como a praia só terminava quando o sol ia embora, ele acabou aparecendo de novo. Até se recusou a tirar uma foto conosco (porque estava sem camisa!), e disse que me conhecia (é sério, mas essa é uma outra história). Depois, fez um monte de “amigos” cariocas nos dias em que passou por aqui. Se fosse hoje, viraria o rei da nossa timeline do Facebook.

Para muitas pessoas, esse ficou conhecido como o verão dos hollywoodianos no Rio. Para mim, foi o verão da libertação. Prisão da cadeira e saída de praia, nunca mais.

Coincidência ou não, deixei de ter aqueles pesadelos.

Esse texto é uma tentativa de alcançar uma nova libertação. Tenho sentido necessidade de escrever, mas ando cheia de bloqueios. Se não há a proteção do processo jornalístico (fato, apuração, notícia), empaco na autocensura. Não é que eu não tenha nada interessante para contar. Claro que essa dúvida passa pela minha cabeça, mas eu logo a abandono pelos retornos positivos que recebo quando divido algo pessoal e também pela crença de que todo mundo tem alguma história boa pra contar.

A necessidade de escrever e as dificuldades que tenho encontrado me levaram ao verão de 2005 não foi à toa. Eu me sinto nua cada vez que escrevo qualquer coisa que revele algo de mim. Sofro pensando se deveria ter me exposto, fico arrependida, insegura… Mas, aqui, nesse espaço, vou encarar esse bloqueio. Que eu levante logo da cadeira. Sem saída de praia.

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