O que o tempo faz com as nossas paixões (ou como eu via filmes antes da Netflix)

Eu lembro que, quando era adolescente, só existia um cinema em Rio Bonito e era muito, muito ruim. Cadeira dura, tela pequena, som horrível. Mesmo assim, eu e a Fabrícia batíamos ponto quase que semanalmente. Algumas pessoas achavam estranho porque havia o videocassete e as locadoras. Mas eu e a Fá, também devotas do que esse mercado nos deu (salve Ferris Bueller, salve Christy Brown, salve Totó), não abandonávamos o Cine Vitória. Era como se dependesse de nós a sua existência. Nunca vou me esquecer de uma certa quarta-feira (a programação mudava na quinta), véspera de uma prova de geografia, em que decidimos largar os livros para assistir a “Silêncio dos inocentes” na última sessão. Na sala escura e suja, éramos só nós duas e o funcionário irritado com a nossa presença.

Depois, passamos no vestibular, fomos morar em Niterói e não tinha vídeocassete no apartamento em que ela me acolheu. Havia, em compensação, opções de cinema o suficiente para nos fartar (e deslumbrar). A meia entrada ainda não tinha virado lei, mas o ingresso era tão barato que duas reles universitárias conseguiam ver tudo o que estava em cartaz em Icaraí. Testamos isso no dia em que saímos de casa, no fim da Moreira César, para ir ao cinema sem checar antes filmes ou horários. Passamos em quatro (!!!) salas e só na quinta, o Cine Art UFF, encontramos algo ainda inédito. Não sabíamos absolutamente nada sobre “Tão longe, tão perto”. E saímos de lá, ambas, extasiadas e fãs de Wim Wenders.

Também deve ter sido com a Fá que vi um filme que me instigou o dia seguinte inteiro. Até encontrar a Simone na faculdade e ela me dizer: “Vi um filme ontem que não me sai da cabeça”. “Eu também!”. E fomos as duas juntas ver mais uma vez o macedônio “Antes da chuva”. Na fileira da frente do Estação Icaraí estava o Igor, que ao nos reconhecer anunciou: “Esse filme é incrível. Assisti ontem e voltei hoje”.

Eu me mudei para o Rio e perdi a companhia da Fá. Mas consegui manter minha proximidade com o cinema por uns bons anos. Descobri o prazer de encarar o programa sozinha e encontrei novos companheiros de vício saudável. Vieram as maratonas do Festival do Rio, em que trocava figurinhas e (às vezes) ingressos com Leo, Rodrigo, Ana, Aline, Tati e tanta gente bem informada e de bom gosto com quem tive a sorte de compartilhar o braço da poltrona. E vieram também momentos engraçados e emocionantes que não tinham muita relação com o gênero do filme exibido.

Teve o dia em que, cansada de trabalho-noitada, fui conferir “Além da linha vermelha” com a Ana, no Méier. Dormi nos primeiros 20 minutos e acordei a tempo de considerar o filme um dos meus preferidos até ali. Decorei e repeti falas, comprei o DVD… Com o Pedro, não me lembro em que sala, cochilei justamente na cena final de “De olhos bem fechados”. Juro que não foi piada. E que eu estava gostando do filme. Teve reencontro com o Leandro, no Espaço Unibanco. Mas eu fiquei tão transtornada com “Brilho eterno de uma mente sem lembranças” que nem consegui aproveitar a coincidência. Teve também o Cris me ligando: “Você tá muito baixo astral. Vou passar aí pra gente ir ao cinema”. Fomos ao Estação Botafogo, na sala menor. Não lembro o filme, mas jamais vou esquecer o gesto.

Essas memórias foram vindo hoje, quando apareceu no Facebook que há sete anos postei uma fala de “Bonecas russas”:

“I know most girls they go weak at the knees for what’s beautiful, you know, that’s all they see, that’s all they want. But I’m not like that. I don’t just see what’s beautiful. I fall for the other stuff. I love what’s not perfect. It’s just how I am”.

E aí eu me lembrei do quanto eu gosto desse filme e do primeiro da série, “Albergue espanhol”, e de como é absurdo eu não ter visto o terceiro, “O enigma chinês”, lançado em 2013 (!!). Quer dizer, mais honesto admitir que seria absurdo para quem eu fui nesses (distantes) anos preenchidos por uma relação intensa com o cinema. Mas, lamentavelmente, perdi o hábito que de tão natural eu não notava a felicidade que me trazia.

Poderia culpar o preço dos ingressos, mas confesso (não sem um bocado de vergonha) que, enquanto editora de cultura, era comum ganhar muitos convites. Só que eu terminava por distribuí-los quando chegava perto de perder a validade. Fora a credencial do Festival do Rio, que nos últimos anos mal saiu da minha bolsa…

A verdade é que quanto mais adulta eu ficava, mais o cinema se tornava uma lembrança da minha juventude. Sem perceber, fui encontrando substitutos que me exigiam menos esforço ou, numa tradução mais exata, me mantinham no meu sofá. É a TV a cabo com 852 canais e 3.548 ofertas de filmes. São as promoções das lojas americanas vendendo DVD a preço de uma caixa de bis. Os amigos hackers que te oferecem um download aqui e outro ali. É você se metendo a pirata e enchendo seu computador de vírus. E depois desse caminho de soluções cômodas surge a Netflix… E a Netflix, né?, é o que todo adulto cansado – para ser gentil comigo mesma - deseja para se convencer de que não precisa mais sair de casa.

E eu parecia feliz com essa troca até alguns instantes atrás. Até me dar conta de que se passaram quatro anos e não procurei um filme que antes não esperaria um mês para ver. Uma coisa leva a outra e no meio do que poderia ser uma memória boa você descobre que se não cuida de uma paixão, o tempo (e tudo que vem junto) acaba com ela. Não sei se isso é triste, melancólico ou piegas. Vou (não) pensar sobre isso enquanto vejo mais uma série. É, lá mesmo…