Os Problemas Com o Bitcoin

Herick Tiago
10 min readJun 30, 2024

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As razões que me fizeram “perder a fé” no Bitcoin.

Escrever esse texto logo após o halving pode me render muitas críticas. Esse é um período que historicamente costuma ser de grande valorização para o ativo e que a maioria dos investidores estão em extremo otimismo (criando uma bolha especulativa). O objetivo desse texto não é dizer que o Bitcoin vai despencar. É mostrar os pontos fracos do Bitcoin em sua estrutura e porque não acredito na adoção em larga escala.

A Descentralização:

Esse é um argumento muito bom. Não ter uma pessoa ou um grupo que tome as decisões da rede isoladamente chama a atenção de muitas pessoas. Imagina que maravilha um sistema que não depende da confiança em pessoas que normalmente tendem a corrupção. Imagina não depender de bancos para poder custodiar o seu dinheiro. Um verdadeiro dinheiro do povo.

Seria o Bitcoin o grande libertador dessas amarras antigas de ter que confiar em um emissor de moeda?

Não é bem assim. Como diz Marcel Pechman em um texto para o portal Livecoins:

De fato, se um grupo com poder (hashrate) suficiente se unir, é capaz de gerar dados contendo transações inválidas. Dessa forma, cabe aos próprios usuários se coordenarem para ignorar essa sequência de transações.

Além disso, a maioria dos usuários não possui o software (node) para validar as transações por conta própria. Mesmo dentre os entusiastas que o fazem, muitos não possuem conhecimento técnico para validar o código-fonte ou participar dos debates técnicos.

A descentralização é utopia. Não existe. Sempre haverão pessoas ou grupos que terão o maior poder de algo (Regra de Pareto). Logo, o Bitcoin também não foge da regra.

É importante também dizer que as pools de mineração são centralizadas. Como demonstrado na imagem abaixo:

Aproximadamente 80% da mineração de Bitcoins é controlada por apenas 5 pools. Cada node dentro das pools possuem o poder por conta própria, é verdade. Porém existe um certo poder de influência das pools com os nodes de mineração.

Resumindo: O Bitcoin não é tão descentralizado como dizem que é.

A Escalabilidade:

O problema com o ouro foi a escalabilidade. Pelas limitações físicas, o ouro não conseguiu ser escalável. Tendo que utilizar soluções de segunda camada (certificados de ouro) como uma representação do ouro original. Essa falta de contato com o ouro físico fez as pessoas se acostumarem a trocar somente certificados em papel-moeda e, posteriormente, foi se perdendo o lastro em ouro até se tornar 100% fiduciária.

O Bitcoin é programado para fazer 1 bloco de transações de apenas 1 mb a cada ~10min. Isso significa que para sua transação ter prioridade terá que pagar taxas mais altas do que a média do mercado. A limitação de 1 mb serve para deixar a rede mais descentralizada já que quanto maior o bloco, maior também será a capacidade necessária para rodar um node na rede. Menos nodes significa mais centralização. Sem falar que já foi tentado aumentar o Bloco em 2017 com o Bitcoin Cash e a rede não foi para frente.

Em Abril de 2024, logo após o halving, a taxa para transacionar na rede do Bitcoin estava em média 200 dólares. (Como pode conferir na imagem abaixo).

Imagina quanto pode chegar essa taxa nos próximos halvings com mais usuários na rede e com com mais implementações do tipo Ordinals ou Runes. É no mínimo irônico que maximalistas disputem espaço na rede com especuladores de memecoins e nfts congestionando a blockchain da criptomoeda.

Muita gente compara a rede do Bitcoin com a internet, que também possui muita coisa inútil. Mas diferentemente da internet, o Bitcoin foi feito para ser um dinheiro seguro e não uma rede cheia de porcarias embutidas. Sem falar que a internet não é limitada como o Bitcoin é. Essa comparação é descabida com a realidade.

Os bitcoiners alegam que o Bitcoin resolve o problema da escalabilidade por ser digital. Mas até agora não temos nada concreto que mostre que seja possível escalar uma moeda “descentralizada”. Um passo nesse sentido foram a implementação da Lightining Network, uma “segunda camada” do Bitcoin implementada em 2018. Enquanto o ecossistema do Bitcoin se expande, a Lightning se move em direção contrária.

Segue um trecho de um artigo do Cointelegraph:

Desde o fim de 2023, a quantidade de Bitcoins acessíveis aos usuários da Lightning Network em canais públicos tem diminuído constantemente. Em dezembro, caiu abaixo de 5.000 e atualmente é de menos de 4.700 bitcoins. O número de canais públicos que os usuários da rede podem acessar para realizar transações também está em queda. No caso desde outubro de 2022. Os dados são do rastreador on-chain Mempool.Space.

Os canais públicos da Lightning têm, em média, uma capacidade de processar transações de até 8.719.553 satoshis, equivalentes a cerca de US$ 5.750 a preços atuais de mercado. Embora se prestem para viabilizar pagamentos no dia a dia dos usuários, não têm a capacidade de contribuir de fato para o aumento da escalabilidade da rede.

Além disso, a Lightning apresenta falhas críticas que não favorecem o crescimento da adoção. A rede vem perdendo a sua adoção e aumentando o número de fraudes. Mais parece um “armengue” do que uma rede séria que pretende ser um sistema de pagamentos global. Até mesmo desenvolvedores, como Antoine Riard, não acreditam na Lightning mais e abandonaram o projeto.

Segundo a revista Exame:

Riard explicou que a Lightning Network tem apresentando falhas de segurança em seu design que permitem um uso “malicioso” por alguns usuários. Na prática, vulnerabilidades na rede, voltada para transações com bitcoin, estão fazendo com que criminosos consigam roubar fundos de transações.

E continua:

O golpe é complexo e não pode ser feito por usuários sem um conhecimento avançado de programação, mas ainda não há uma solução simples para evitá-lo. “Acho que esta nova classe de ataques cíclicos de substituição coloca a Lightning em uma posição muito perigosa”, opinou Riard.

Muitos dizem que é somente uma questão de tempo para esses problemas de segunda camada serem resolvidos. Sou cético quanto a isso. Acho que não é possível ser resolvido. Claro que eu espero que esteja errado.

A Demanda:

Segundo autores da Escola Austríaca de Economia, escola pela qual o próprio Bitcoin foi inspirado, uma moeda não pode ser criada para ser uma moeda. Deve ser um bem que já tenha uma demanda mercadológica ou industrial.

Nas palavras de Mises:

“Nenhum bem pode ser empregado como meio de troca se já não tiver um valor de troca em razão de seus outros empregos, no momento mesmo em que começa a ser usado como meio de troca.’’

E também:

“A aceitação de uma moeda pressupõe que o correspondente objeto já tenha um valor de troca em consequência de sua utilidade para o consumo ou para a produção.”

Agora veja esse trecho escrito pelo Rothbard:

‘’O dinheiro só pode originar-se de uma mercadoria não monetária, escolhida gradualmente pelo mercado para ser um meio de troca cada vez mais geral. ‘’

Agora pelo Menger (criador da Escola Austríaca de Economia):

“O dinheiro não é produto da convenção dos homens engajados em atividades econômicas.’’

Como podemos ver, eles não defendem uma moeda como o Bitcoin. Esses autores falam em utilidade não monetária para uma moeda funcionar bem. Alguns dizem que na época em que eles viveram (século XX) era impossível conceber algo como o Bitcoin, já que nem mesmo internet havia sido implementada nesse período.

Será que eles mudariam de opinião? Não temos como saber. Mas tudo o que eles dizem em relação a ter uma demanda industrial ou mercadológica continua sendo válido. Essa demanda é como uma base de sustentação sólida para manter a moeda mais estável e “garantir” um valor mínimo.

O ouro e a prata, por exemplo, possuem demanda industrial e comercial. No caso do ouro, 55% da sua demanda é de joalherias e industrial. Será que sem essa demanda esses metais teriam utilidade como reserva de valor por todo esse tempo? Acredito que não. Imagine que qualquer problema que a rede do Bitcoin venha a ter (falaremos mais para a frente sobre isso) não vai ter uma demanda sólida para sustentação de seu valor. O que torna não confiável para um padrão monetário mundial.

Moedas fiduciárias (impostas pelo governo e sem lastro) como o Real, Dólar ou Euro não possuem demanda industrial nem mercadológica. São moedas ruins e que perdem valor no longo prazo. Mas ainda assim possuem uma demanda forte. Por quê? A história nos mostra que as pessoas simplesmente confiam no que o Estado manda usar. Essa demanda imposta pelo governo garante algum valor para a moeda.

O Bitcoin possui a sua oferta limitada em 21 milhões. Isso é realmente ótimo. Mas não basta por si só. A demanda é mais importante que a oferta. É a demanda que traz valor para a rede. De nada adianta você ter algo escasso que pouca gente queira.

Como uma moeda sem demanda industrial, mercadológica ou coercitiva poderia se sustentar? A demanda pelo Bitcoin como um meio de pagamento poderia até ajudar nesse quesito. Mas se continuar com problema de escalabilidade as taxas serão cada vez mais altas e estará longe desse sonho. Além disso, o comércio vai optar por uma moeda mais estável. Moeda volátil como o Bitcoin atrapalha a contabilidade de uma empresa, além de ser péssimo para compensação de recebíveis.

Aqui cabe um trecho do livro A Descentralização Do Dinheiro de Hayek (Nobel de 1974):

O paradoxo é que o Bitcoin precisa ser estável para ser adotado pelo comércio, mas para ser adotado pelo comércio precisa antes ser estável. O que nos leva para o argumento dos economistas citados acima: Precisa ser uma mercadoria ou ter alguma utilidade prática antes de se tornar uma moeda.

É verdade que a volatilidade do Bitcoin vem caindo ao longo do tempo. Mas isso não significa que seguirá caindo. É uma questão de lógica, como vai se tornar mais estável sem uma demanda confiável?

Sabemos que a maior parte da demanda por Bitcoin é especulativa. As pessoas compram querendo “surfar a alta” para depois vender por um preço mais elevado. Mesmo aqueles que se dizem mais entusiastas, será que eles aguentariam segurar mesmo se o Bitcoin caísse por 5 anos seguidos apenas pela “causa”?

Existe alguma parte da demanda que é usada para meios de pagamentos, é claro. Mas existem criptos mais baratas para tal. Qual seria o diferencial do Bitcoin nesse ponto? E como ficará no futuro com as taxas mais altas?

Risco de Bug

O Bitcoin tem 15 anos de existência e isso é muito pouco tempo. O ouro e a prata são utilizados há milênios de anos (Lynd Effect). A rede da criptomoeda precisa de manutenções humanas constantes para funcionar, diferentemente dos metais que são criados pela própria natureza. Eu sou cético quanto a capacidade humana de criar uma moeda melhor e mais duradoura do que o ouro.

O Bitcoin passa por atualizações, será que sempre seguirá atualizando sem nenhum tipo de problema por um longo período? Muito dos melhores desenvolvedores do Bitcoin já deixaram o projeto. Para o criador do site Bitcoin.org conhecido como Cobra, o Bitcoin vai a zero.

“Quanto menos olhos experientes tivermos no código, mais inevitável será que o Bitcoin vá para US$ 0 por causa de algum bug sutil que é explorado. Isso irá desmoronar completamente toda a indústria de “criptomoedas” para sempre. Vocês todos perderão tudo.” — Cobra

Segundo uma matéria da Livecoins:

O artigo do WSJ cita um caso que ocorreu em setembro de 2018. Na data, o desenvolvedor Matt Corallo encontrou uma “vulnerabilidade crítica” que permitia a criação de novos bitcoins do nada.

“Isso poderia permitir que um minerador inflasse a oferta de Bitcoin, pois eles seriam capazes de reivindicar o valor gasto duas vezes”, aponta o relatório do bug, corrigido no mesmo dia.

Por fim, Gloria Zhao, primeira mulher mantenedora do Bitcoin, afirma que eles encontram bugs a todo momento da revisão do código, evitando que “algo catastrófico acontecesse na rede”. Isso não é um problema, pelo contrário. Afinal, o maior risco é algo passar despercebido pelos olhos dos desenvolvedores e ser explorado por terceiros.

Mesmo que o bug seja corrigido rapidamente, qualquer coisa mais séria traia muita instabilidade. O Bitcoin possui uma camada de teste chamada testnet, mas também pode estar sujeita a falhas como já teve. Pode conferir aqui.

Além de bug, também pode ocorrer um fork incentivado por grandes instituições como a BlackRock. pressionando mineradores e até usuários a irem para uma rede com alguma suposta vantagem que acabaria com algum fundamento do Bitcoin ou deixar essas instituições com maior controle da rede.

Conclusão:

Ter uma moeda descentralizada, segura e escalável parece não ser possível pela própria regra da natureza. Satoshi Nakamoto criou o Bitcoin para ser usado em trasações do dia a dia. Mas essa realidade está distante e talvez não seja possível para o Bitcoin chegar nesse ponto.

Muitos dizem que o Bitcoin é como uma proteção (hedge) para a inflação das moedas tradicionais. Mas para o seu valor continuar subindo é preciso uma demanda sólida que ainda não foi consolidada no Bitcoin.

Diante todos os pontos apresentados aqui, eu até acho que o Bitcoin pode crescer mais, mas tem um certo limite. E acredito que não se tornara um padrão monetário mundial como os seus defensores imaginam. Mas pode ser que eu esteja errado. Só o tempo nos dirá.

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