Úlcera 2 — o vortex é mais embaixo

(contém spoilers — muitos spoilers)

De, plácido, empreender essa jornada,

E seja a risco, até, de resvalar no Nada

Fausto — Goethe

Finalmente foi lançado Úlcera Vortex 2. Para quem esperava ver a continuidade da história de Loépio é no mínimo impressionante o que foi apresentado. Isso porque, com o perdão do termo pedante, a estória sofreu um importante deslocamento dramático: de Loépio, o protagonista passou a Adriano do Gás. Somos como que enredados na trama até percebermos a efetiva diminuição do peso de Loépio na história e a proeminência de Adriano. Essa alteração é cheia de consequências. É como se passássemos da teoria à prática na mudança de volumes e de enfoque nos personagens. O mais curioso, contudo, é o resultado, o qual voltaremos adiante.

Se antes procurei fazer uma resenha “festiva”, que mais se atentava aos aspectos gerais da obra, agora quero dedicar-me ao conteúdo expresso nela e formalizado na HQ. Vejamos. O segundo volume apresenta sobretudo uma história de aventura de Adriano do Gás em torno de conseguir derrotar Peterson Malaquias, o vilão e imperador de Gorgonotúbia, o mundo que existe a partir da úlcera vortex de Loépio. A estória, do ponto de vista formal, tem um ritmo bom, é realmente engraçada e abusa de referências aos filmes de ação, artes marciais e terror trash que Victor Bello reconhecidamente é fã.

O clima, a “atmosfera”, niilista reaparece um tanto atenuada no desenrolar da história de aventura, ainda que haja momentos nos quais ela se manifeste. Quando da luta de Valdir Vegeta e o “monstrengo”, por exemplo, que acaba revelando que no interior daquela violência plasticamente bem executada por VB residia no fundo apenas instinto maternal. A tese não é nova (está magnificamente presente, por exemplo, em O Homem Urso de Werner Herzog), contudo bem expressa: a natureza, a despeito de tudo, é violência, violência sem sentido.

De qualquer modo, o maior interesse reside quando do fim da parte da aventura, numa espécie de epílogo que a estória encerra. Loépio continua mesquinho (mais que conhecimento, seu interesse é reconhecimento social), um irmão Wesley dá aulas de bateria e por aí vai. A questão toda é Adriano, cujo instinto prático revelado em toda trama como que bloqueava sua reflexão. Ele logo, contrastando com o desenvolvimento anterior, pergunta-se: “O que sobra na vida para alguém que viveu as coisas que vivi?”. Dedicado a preservar a memória de Bastaradinhus por meio de um livro, Adriano continua com suas aulas de informática, com a entrega de gás e agora como mestre de kung fu. O excesso de atividades não disfarça, contudo, a perda completa de sentido de Adriano.

Nessa parte final isso soa realmente inaudito: digamos, a atmosfera que foi construída ao longo dos dois volumes, mas que exigia um certo distanciamento frente a ação dos personagens, como que invade a primeira cena com o personagem Adriano. É como se ele tomasse ciência do nonsense da existência que a narrativa sugeria ao leitor, mas que escapava inteiramente ao drama propriamente dito.

Vale marcar um ponto considerável. A trama é costurada com a ação de pelo menos dois mundos: o “mundo real” (com suas hierarquias, classificações e distinções sociais — cientista, entregador de gás, dono de bar etc.) e o mundo da úlcera vortex (a ditadura de Péterson Malaquias). Ambos os mundos, por si mesmos, são estruturados, socialmente configurados, com o poder dividido e com os conflitos lançados. E a ação que decorre no interior deles é cheia de sentido para os personagens (por mais que no todo a narrativa produza um certo distanciamento). No final, entretanto, o personagem Dérico sugere a Adriano jogar RPG (o mais caricato possível, com chapéu de mago, dragões, erotismo etc., ironizando os elementos das séries de fantasia que tão desmedidamente fazem sucesso). Não que Dérico tenha ciência do nonsense depressivo vivido por Adriano, mas esse é o pano de fundo.

E o final sugere ser “aberto”: não se sabe se Adriano realmente decidiu se juntar a um terceiro mundo (para além do mundo real e da úlcera) do RPG ou se ele morreu — a referência a The Sopranos é significativa aqui. É imprescindível marcar a dimensão autorreflexiva que toma o personagem que passou pela experiência da aventura e como que no fim encontrou apenas o vazio mediado por atividades mais ou menos superficiais e inexpressivas. Se Loépio era o teórico avesso à prática, Adriano do Gás foi o prático convertido à dúvida existencial.

Não exagero em pensar Úlcera Vortex 2 nesses termos. É claro que há vários jeitos de ler, divertir-se e pensar sobre a estória, no entanto nessa resenha quis enfatizar o que é possível chamar das ideias de fundo que governam a narrativa. Victor Bello criou uma estória competente, artisticamente agradável e filosoficamente penetrante. Esperamos a próxima.

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