“Seja Homem”: A Masculinidade Tóxica e a Dor dos Garotos

eu traduzi alguns pensamentos do @absurdistwords sobre masculinidade tóxica, porque representa muito bem a experiência masculina de crescer ao redor de homens, explica muito da cultura masculina na internet, e é algo que todo homem deveria ler.
como o texto original são uma série de tuites e respostas a tuites, eu vou colocar o @ de quem estiver falando quando for coerente, e a estrutura do texto foi alterada para ficar mais legível.

“Mulheres podem ser mortas por:
Fazerem sexo demais
Sexo de menos
Serem bonitas demais
Não bonitas o bastante
Rejeitar o homem errado
Aceitar o homem errado…”
“Eu vou dar a minha opinião, essa é a única coisa que eu irei contribuir. Eu entendo o que você está dizendo, eu vejo as notícias de que isso realmente acontece. A culpa recai sobre a pessoa que comete esse ato, e essa pessoa apenas. Eu tenho 38 anos e cresci com os mesmos programas de tv, música, e filmes.”
Em resposta, @absurdistwords:
“Eu vejo onde você está se confundindo. Masculinidade Tóxica não é sobre todos os homens matarem alguma mulher. É sobre a sociedade criando as condições onde os PRECURSORES da violência e do entitlement tenham nichos socialmente aceitáveis.
(nota do tradutor: nesse caso, entitlement significa “a noção de que o homem é ‘merecedor’ da mulher, seu corpo e sua sexualidade.”)
Como uma doença virulenta, a masculinidade tóxica requer um ambiente adequado para prosperar. Nem todos que contraem a doença sofrem os seus piores efeitos.
Alguns são assintomáticos. Alguns são apenas transportadores. Alguns tem apenas sintomas leves. Mas se não tratado, com os fatores corretos… Mortal.
A Masculinidade Tóxica não diz “mate aquela mulher”.
Ela diz “as mulheres querem te sacanear, certo rapazes?”
Ela diz “às vezes você tem que colocar sua mulher na linha”
Ela diz “não é da sua conta se seu amigo fica bêbado e bate na mulher dele um pouco. Isso é assunto deles”
A Masculinidade Tóxica não diz “estupre aquela mulher”.
Ela diz “você pagou pelo jantar, ela te deve”.
Ela diz “você se casou com ela. Você tem direito a sexo sob demanda”.
Ela diz “continua até ela te bater. Se ela não te bater, tudo bem”.
A Masculinidade Tóxica não diz “vai pra rua e cause violência”
Ela diz “Homens têm que ser agressivos”
Ela diz “Homens de verdade não deixam uma mulher o desrespeitar por exercer sua autonomia”
Ela diz “Prostitutas mortas ainda é uma piada engraçada”
Sim. Todos os homens que infligem violência, seja emocional, física, sexual, escolheram o caminho que tomaram. Mas a masculinidade tóxica abre esse caminho, asfalta-o e coloca placas o anunciando. E uma vez que eles escolheram esse caminho, a Masculinidade Tóxica serve como o seu advogado, argumentando e justificando.
A Masculinidade Tóxica cria desculpas. Minimiza. Diz que foi pouco. Faz gaslight. Rejeita a introspecção. Absolve. Apaga.
A Masculinidade Tóxica pode ser morta pela fome. Seu ambiente pode ser tornado inóspito. Pode ser colocada de quarentena. Pode ser atenuada. Pode ser isolada.
Identificando-a onde quer que seja vista. Desafiando suas premisas falsas e enganosas. Ensinando consentimento e respeito pela autonomia corporal. Encorajando pessoas a interagirem com outros como pessoas ao invés de aquisições em potencial.
Não podemos dar nenhum espaço para a Masculinidade Tóxica. Nós não podemos dar trégua, e devemos negar seus santuários. Nós podemos cortar suas redes de fornecimento e atrapalhar suas atividades.
Nós podemos enfraquecê-la e subvertê-la diariamente.
Nós podemos ser introspectivos sobre como a Masculinidade Tóxica se manifesta em nossas próprias vidas. Nós podemos parar e escutar as pessoas que a Masculinidade Tóxica machucou. Nós podemos questionar as coisas que achamos que sabemos sobre como papéis de gênero “devem” funcionar.
Nós podemos tomar nosso tempo toda semana para aprender um pouco mais sobre como a Masculinidade Tóxica se parece e como funciona. Nós podemos aumentar o nosso entendimento de abuso. Nós podemos rejeitar padrões mal-adaptativos e forjar novos padrões em nossos próprios relacionamentos.
Nós podemos deixar as crianças definirem sua própria identidade sem impor nosso dogma sobre elas. Nós podemos apoiar e educar ao invés de coagir.
Nós podemos aprender a deixar de lado a linguagem do “Homem de verdade” e a linguagem do “Seja macho” ao redor de garotos, e substitui-la com encorajamento para que tomem responsabilidade e expandam seu vocabulário emocional.”

“*Garotos ficam deprimidos
*Garotos têm distúrbios alimentares
*Garotos cometem suicídio
*Garotos são chamados de gordo
*Garotos são chamados de feio
*Garotos apanham/são abusados por garotas
*Garotos têm pensamentos suicidas
*Garotos sentem dorNÃO são apenas garotas que tem dificuldades, são garotos também. As pessoas precisam se dar conta disso.”
Em resposta, @absurdistwords:
“Essa mensagem é importante.
Que a masculinidade tóxica feminilizou essas questões significa que garotos continuam sendo ditos a fingir que não sofrem, e a continuarem analfabetos emocionais. E nos recusamos a apoiá-los. E eles se tornam homens sem ferramentas emocionais.
É importante rejeitar falsas equivalências. Mas também é importante reconhecer dor não percebida. Mulheres e garotas sofrem sob o patriarcado. Mas garotos e homens também.
Esse princípio é difícil de navegar, porque requer dar nomes e responsabilizar os grupos cúmplices na opressão sistêmica, enquanto reconhece-se que o sofrimento deles sob essa opressão é entrelaçado com o nosso e que indivíduos nesse sistema requerem nossa compaixão.
O patriarcado e a masculinidade tóxica se alimentam de reforço generacional e da normalização de práticas imorais e de crenças como verdades naturais.
Garotos não nascem patriarcais.
Então quando garotos dizem “Eu sofro!” em um mundo onde eles sentem homens dizerem que dizer isso diminui sua masculinidade, e eles sentem mulheres dizerem que sua dor não é prioritária, não sobra muito espaço prático.
Agora, não é legítimo levantar questões que afetam garotos e homens pelo propósito de atrapalhar ou silenciar discussões feministas.
Isso é inaceitável.
Mas o problema existe. E merece atenção.
Esse vácuo é onde o MRA faz seu recrutamento.
(nota do tradutor: Men’s Rights Activists, MRA, ou “ativistas pelos direitos dos homens”, um grupo notoriamente misógino e anti-feminista)
Explorando a dor real de garotos sem ferramentas emocionais e confusos sobre sua identidade. Eles fingem se importar com esses garotos, mas querem apenas transformá-los em armas contra mulheres e o feminismo.
Nós devemos fornecer a esses garotos recursos, ferramentas, linguagem, espaço e segurança para discurem seus traumas, abuso, medo, e dor. Nós não podemos fingir que o sofrimento que eles experienciam não é real. Ou que não haverá consequências para a dor não reconhecida de uma geração de garotos.”

As imagens são do The Real Man Catalogue, de Jack Daly
